BrasilAgro se prepara para aquisições aproveitando crise no agronegócio

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A alta do dólar, que beneficia o produtor rural ao aumentar os ganhos com a exportação de produtos no médio prazo, acabou provocando uma crise no agronegócio no curto prazo, afirma Julio Toledo Piza, presidente da BrasilAgro (BOV:AGRO3). Segundo ele, a desvalorização do real aumentou rapidamente o débito em dólar de muitas empresas, além de encarecer o custo dos insumos para o plantio, que também são cotados na moeda americana. “No curto prazo, o impacto é muito forte no fluxo de caixa dos produtores, com aumento da dívida e das despesas, e quem não se preparou vai sofrer”, diz ele, acrescentando que dois grandes produtores já anunciaram que não vão ter como pagar suas dívidas, entraram com pedidos de recuperação judicial e chamaram fornecedores e bancos para conversar.

Segundo Piza, a crise cambial aumentou a volatilidade dos preços das commodities agrícolas de maneira brutal. “O setor passa por sua primeira grande crise depois de uma bancarização e a quantidade de capital emprestada foi enorme”, diz. Por isso, diz, o setor vai passar por um ajuste doloroso, mas “vai ser interessante ver como se chegará a uma solução para esses problemas”. Ele acredita que o agronegócio terá de sair da estrutura atual, concentrada mais na pessoa do produtor como pessoa física, e passar para uma estrutura mais profissional, com empresas e menor dependência dos recursos oficiais do governo e maior uso de instrumentos de crédito do mercado. “Estamos em uma fase de grandes mudanças, o modelo atual de financiamento público não é mais sustentável”, diz.

Aquisições na pecuária

Essas dificuldades devem levar a uma concentração do setor, com empresas endividadas sendo vendidas para grupos mais líquidos. E o objetivo da BrasilAgro é participar dessas compras. “Temos R$ 320 milhões para usar nessas aquisições”, diz Piza. Os setores que interessam são aqueles nos quais a empresa já atua, de soja e milho e cana, mas Piza destaca o setor de pecuária, no qual a empresa ainda não tem negócios no Brasil. “Temos uma operação no Paraguai, mas no Brasil não temos nada, pretendemos olhar as oportunidades aqui”, diz, destacando que o grupo não quer atuar com frigoríficos, apenas na criação de gado.

O grupo deve divulgar seu balanço do terceiro trimestre no dia 6 de novembro e os números devem ser bons, diz o empresário. “O ano foi bem equacionado, tivemos uma gestão cuidadosa do negócio, fizemos hedge cambial para comprar os insumos e não temos dívidas elevadas”, destacou, ao participar de evento do Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF).

Acordo TransPacífico

Ele também classificou como péssimo o fato de o Brasil ter ficado fora do acordo TransPacífico, entre Estados Unidos e diversos países da América Latina e da Ásia. Piza explica que, nos produtos em que há forte demanda mundial, como soja, milho, açúcar, o mundo precisa do Brasil como fornecedor e, nesse caso, não há problema de blocos regionais. “O Brasil manda pois o mundo depende de nós”, lembra. Já no caso de produtos específicos, como proteína animal, a situação é mais complicada. “Se o Brasil se isolar e se alinhar apenas com alguns países mais fechados, que não se interessam tanto por esses produtos, vamos sofrer com barreiras sanitárias e tarifárias e vamos perder exportações”, afirma. “O Brasil ganhou mercado nos últimos anos nos produtos que o mundo precisava, mas perdeu nos em que a demanda era menor”, resume.

Problema da recuperação judicial

Também participando do evento, o sócio da consultoria Safras e Cifras José Ney Irigon Vinhas alerta para a situação delicada de muitos produtores, especialmente os grandes, que tinham acesso mais fácil ao crédito até pouco tempo atrás. “Os empresários iam em feiras agrícolas e saiam com elevadas financiamentos de máquinas e equipamentos e ninguém se importava muito com o endividamento”, lembra. “Agora a situação é totalmente inversa, ninguém mais quer dar crédito e o setor passa por dificuldades”, afirma.

Para piorar, muitos produtores rurais não têm empresas e fazem os negócios em nome próprio e da família e, portanto, não têm direito aos benefícios da recuperação judicial. Outros têm uma parte dos negócios como empresa e outra parte como pessoa física e com a família e agora tentam obter uma concessão da Justiça para englobar todas as dívidas como empresa para pedir recuperação. “Se passar e a recuperação judicial for aceita para pessoa física, aí o crédito rural acaba, pois os bancos não vão querer correr o risco de ficar anos sem receber”, diz. Hoje em dia, as execuções das dívidas e renegociações são mais fáceis entre bancos e produtores justamente porque os devedores são pessoas físicas.

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