Dilma: a raiz de todos os males?

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Talvez mais até do que as fantasias dos presentes, os bonecos da presidente Dilma Rousseff nas manifestações do fim de semana retrasado escracharam o mais ridículo da crise institucional brasileira. Sem provas, a líder eleita do país é representada como ladra. O mais lamentável é que o pedido de Impeachment vem de um político que tem passado e presente, no mínimo, duvidosos.

Piadinhas não faltam e podem até serem divertidas nos primeiros minutos. Mas o problema é que o debate foge ao essencial: como reformar a economia brasileira e fazer o país crescer? Qual é a agenda para 2016, 2017. Alguém pensou em algo para 2020? Com ou sem Dilma, como sobreviveremos a uma crise que talvez seja maior da história brasileira?

O que se vê no Brasil é uma crise institucional em que a credibilidade política vai a zero ou é negativa. Mas não só a política. Afinal, como a faixa da manifestação anterior dizia: “somos milhões de Cunhas”. Talvez sejamos mesmo e estejamos mais do que bem representados no Congresso. A diferença é que, na grande maioria dos casos, não temos conta na Suíça. É mais fácil e confortável culpar Dilma, como a igreja católica culpava o demônio a torto e direito, identificando sua presença em quem bem entendesse. Aliás, quem sabe não se crie uma inquisição para petistas.

A discussão sai Dilma ou fica Dilma, a dicotomia entre o golpe e a mulher heroína, mostra o pitoresco da situação. Para muitos, ela é o símbolo da incompetência, da falta de trato político e econômico, da irresponsabilidade fiscal, corrupção etc. e, por isso, deve ser executada. Para outros, o da resistência, do bem-estar social promovido no governo anterior e a ela deve ser dada a chance de consertar erros, ao menos até o final de seu mandato. O que os outros querem é golpe.

Na verdade, é fácil apontar erros. Ficar com o dedo em riste e julgar o que o outro não fez certo. É como dar palpite sobre a criação do filho alheio. “Você tomou as decisões erradas, demorou demais e gastou muito com programas sociais. Agora, o déficit está aí… Fosse meu o governo…” Seria mesmo tudo diferente? As agências de classificação de risco rebaixam o Brasil, que já deveria, há muito, estar rebaixado. Não o fizeram antes porque são extremamente conservadoras na hora de rebaixar ou melhorar um rating.

O posicionamento da Fitch e das outras agências está relacionado à questão política que trava qualquer tentativa de mudança que possibilite à economia voltar a crescer. Não há engajamento sério nem da situação nem da oposição. A primeira preocupa-se apenas em se manter no poder; a segunda, em se apoderar do trono. Os súditos? Ah, estão na avenida Paulista, em diferentes dias da semana apoiando um lado ou o outro. Não há debate sério. Quem tenta fazer algo, quando percebe onde está, conclui o que é o melhor a fazer. Então, deixa a carta de demissão na mesa, enquanto admite baixinho aos botões: “Superávit primário… Ah, vá!”

O que se critica aqui é o ridículo dos movimentos sociais, que, teoricamente, e repito, apenas teoricamente, representam o anseio da população, mas que sempre pesam no jogo político. São movimentos liderados por jovens oportunistas e despreparados que, obviamente, irão se candidatar nas próximas eleições. Nos tornamos o Brasil dos cara-pintadas de 40 anos, que buscam um “Brasil Livre” via Facebook, com piadas sobre a situação atual ou lamúrias por estarem sem whatsapp e distantes do grupo da família em plena véspera de Natal.

Esta coluna sempre deixou o debate político de lado e preocupou-se em demonstrar as questões macroeconômicas. Agora, entretanto, a economia está em segundo plano e excessivamente submetida ao primeiro. Neste momento, a política, e somente ela, interessa a investidores, agências de classificação de risco, consumidores e empresários. Até que se tenha um debate sério, além do “Fora Dilma”, novos rebaixamentos virão, o PIB continuará a encolher e os “milhões de Cunhas” irão para as ruas tirar selfs com PMs e acenar para helicópteros de emissoras de TV.

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