A aversão ao risco derrete no mundo

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Na quarta-feira o Federal Reserve, dos EUA, decidiu manter as suas taxas básicas entre 0,25% e 0,5%, impulsionando o otimismo nos mercados globais. Juros mais baixos acabam por reduzir os riscos percebidos sobre os ativos em geral e isso pode ajudar a manter seus preços apreciados. Com preços mais elevados, espera-se que os investimentos subam, ao menos em tese.

 

 

As taxas de juros dos títulos de dez anos dos EUA, importantes para a definição dos investimentos, estão em seus patamares mais baixos nos últimos 50 anos, veja o gráfico abaixo:

Em seu comunicado à imprensa, o FED divulgou as projeções com as quais seus diretores trabalham para os próximos anos. Veja a tabela abaixo:

A diretoria do FED trabalha, em média, com uma taxa de crescimento do PIB ao redor de 2% nos próximos três anos. Desde a crise de 2009, quando o PIB caiu 2,8%, a média do crescimento dos EUA tem sido de 2,10% e antes da crise ela era de 3,5% para um período de 50 anos. É fato que, mesmo com a enorme expansão monetária feita no âmbito do Quantitative Easing – que injetou quase US$ 4 trilhões na economia e vem mantendo as taxas de juros muito baixas – a taxa de crescimento ainda não recuperou sua tendência histórica. A taxa de desemprego está baixa, em 4,9% e espera-se que ela seja reduzida para 4,8% no longo prazo. Ainda que esta taxa seja baixa, ela ainda não resolveu três grandes problemas: os salários continuam baixos, os trabalhos são precários e de baixa produtividade e, por fim, a participação da força de trabalho na população total, entre 25 e 54 anos, caiu de 84% para 81%. Aí estão três por cento de pessoas que desistiram de trabalhar e, portanto, deixam de ser contabilizados no desemprego, tornando a estatística subavaliada. Como resultado dessas condições ainda frágeis do mercado de trabalho, os salários sobem pouco e a inflação continua baixa, beirando à deflação. Veja o gráfico do CPI acumulado em doze meses:

Apesar do CPI (índice de preços ao consumidor) acumulado em doze meses estar em apenas 0,9%, a diretoria do FED espera que ele suba para 1,2% no final desse ano e para 2% só no final de 2018. A meta do FED é 2% e eles estão com uma dificuldade enorme de sair dessa “armadilha” que mantem a economia “fria”, com baixas taxas de crescimento, baixa inflação e baixos salários.

Por conta disso, eles mudaram a trajetória de alta da taxa de juro básica. Em dezembro eles esperavam terminar 2016 em 1,4%, 2017 em 2,4% e 2018 em 3,3%. Agora, depois do esfriamento da economia, eles reduziram suas previsões para os juros e eles ficarão em 0,9%, 1,9% e 3,0% respectivamente.

Essa luta insana entre a enorme liquidez da economia e a falta de crescimento decorre do que Keynes chamou de ARMADILHA DA LIQUIDEZ (comentada no post: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2016/03/bce-reduz-taxa-para-04.html ). Vai ficando claro que a demora em retomar um ritmo satisfatório para o crescimento demanda novas soluções e isso tem tomado a atenção de economistas ao redor do mundo. Uma das propostas, compartilhada por muitos economistas neo-keynesianos vão no sentido de se usar a política fiscal para estimular as economias mundo afora. Para uma excelente leitura a respeito desse enorme desafio, sugiro a leitura do mais recente artigo do economista Barry Eichengreen, da Berkeley e Cambridge: “Confronting the Fiscal Bogeyman”. ( http://www.projectsyndicate.org/commentary/monetarypolicylimits-fiscal-expansionbybarryeichengreen-2016-03 ).

É uma forma de lembrarmos que fazemos parte do mundo e que nem tudo se resume a impeachment ou cassação de chapa presidencial.

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