Bom Humor

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Quinta-feira: Enquanto o lado produtivo recebia o diagnóstico matemático do que lhe acometeu no ano passado, uma recessão de quase 4%, o mercado financeiro, muito no seu estilo bipolar, esbanjou, conforme aquele jargão do noticiário sobre bolsa, “bom humor”. De uma orelha a outra. O dólar caiu, a bolsa subiu mais de 5%. A Petrobras, mais de 12%. Na sexta, outro dia alto astral: o Ibovespa manteve forte alta e o dólar a operou abaixo de R$ 3,70. Tudo por conta das novas denúncias da operação Lava Jato que implicam a presidente da República, seu antecessor e a esperança de que isso resulte em impeachment. Justo: isso mudaria tudo: o Brasil sairia do buraco sob o comando de Michel Temer, ou, se cassada a chapa, de Eduardo Cunha ou de outro ainda melhor, caso este perca o mandato antes disso tudo terminar.

A recessão de 2015 persiste e persistirá não se sabe até quando. O futuro, como dizia um ex-ministro da Fazenda, “tem por ofício ser incerto”. Mas nem tanto assim. Com ou sem Dilma, é complicado realizar as reformas necessárias. Elas demandam boa articulação política, boa vontade e seriedade do Congresso e aí,… esquece! E, até que tudo se resolva, haverá um vácuo institucional. Nada andará, exceto a discussão sobre impeachment e as manobras do segundo homem na linha de sucessão para não ser cassado. Aprovar ajuste fiscal não é prioridade. Pelo contrário: vai que desse certo, a economia se recuperasse, o Brasil desse de 8 a 1 na Alemanha na final da Copa… pronto: povo feliz e o PT ganharia de novo! Melhor como está. Daí aquele sorrisão do mercado.

Partidos políticos se digladiam desde sempre. É correto, até. Mas com a aposta de que será desta vez que o governo irá à lona, discutir as soluções para que o Brasil saia do buraco é algo mais do que secundário. Quando oposição, o PT sempre votou contra o PSDB, mesmo que a proposta fosse claramente boa para o país. Na linha do “político é tudo igual”, o mesmo fazem agora os tucanos. Quem perde é o Brasil. Estamos parados, ou melhor, andando para trás, enquanto o lado político brinca de queda de braço. O resultado será mais um ano de recessão.

Os líderes do PSDB comemoram as acusações contra Dilma e relaxam por não serem inquiridos quanto aos governos estaduais da legenda investigados por corrupção. Os comportamentos enviesados podem trazer comemoração para o mercado financeiro, mas contribuem para minar ainda mais a credibilidade sobre o futuro do país por parte da população. Se o PT cai por corrupção, há alguém não corrupto para assumir? A aposta é que a queda de Dilma faria o seu sucessor ter mais apoio político, obter o ajuste fiscal e dar sinalizações positivas para o mercado internacional e para o descrente brasileiro.

Descrente e pessimista, o que parece bastante justo, em particular com os dados divulgados pelo IBGE na quinta-feira. Pela ótica da demanda, o PIB é composto pelo consumo de famílias, empresas (investimentos) e governo e pelas exportações líquidas. De todos estes indicadores, apenas as vendas para o exterior foram positivas. Cresceram 6,1%, enquanto as importações recuaram 14,3%. A queda de 3,8% do PIB no ano passado foi o pior desempenho da economia nacional desde o início da série histórica, em 1996.

As famílias reduziram seu consumo em 4,0% em relação ao ano anterior a 2014, (quando havia crescido 1,3%), o que, segundo o IBGE, pode ser explicado pela deterioração dos indicadores de inflação, juros, crédito, emprego e renda ao longo de todo o ano de 2015. Do lado das empresas, os investimentos caíram 14,1%, diante das quedas da produção interna e da importação de bens de capital, sendo influenciado ainda pelo desempenho negativo da construção. A situação anterior já era grave. Em 2014, a formação bruta de capital fixo já havia registrado queda de 4,5%. A despesa de consumo do governo caiu 1,0% – também desacelerando em relação a 2014, quando cresceu 1,2%. Apesar de o governo gastar menos, o superávit primário ainda se encontra distante, castigando a retomada da economia.

Para este ano, não se espera grande diferença. Algo um pouco melhor, pior… vai de o futuro ser mesmo incerto. Mas números não parecem importar no momento. Conta mesmo é o placar do cabo de guerra pelo poder, que pode resultar em Dilma concluindo seu mandato e admitindo publicamente sentir uma leve impressão de que “já vou tarde”, numa eleição antes da hora, no Cunha na Presidência ou outro deputado… Bolsanaro, quem sabe? Aí, talvez a bolsa suba mais um pouquinho.

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