O fim da crise e o último delator

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A  DOMINÂNCIA POLÍTICA continua sendo uma forma possível de analisar o que ocorre na economia e nos mercados financeiros. Longe de ter a pretensão de utilizar uma forma rigorosa de conceitos científicos, essa denominação refere-se, grosso modo, à constatação de que a desorganização de poder leva, em algumas circunstâncias específicas, à mais completa desorganização da economia e dos mercados. Há uma sujeição absoluta e caótica de um ao outro.

A impressão que fica dos eventos atuais é de que colocaram um caminhão no topo de uma imensa ladeira e, ao empurra-lo, todos apostavam que sua descida seria perigosa, mas controlada. O fato de ser perigosa garantia a adesão dos tementes, e o de ser controlada, garantia conforto aos beneficiários. Mas, no meio dessa ladeira, ninguém está confortável com os  possíveis resultados e os tementes (a sociedade em geral) não adere exatamente da forma planejada. Dito de forma direta: não é possível enxergar quem são os beneficiários políticos do processo de crise gerado na lava a jato e, muito menos, onde ela pode terminar.

Até sexta feira alguns jornalistas tentavam empurrar o PMDB para o impeachment advertindo seus principais quadros sobre o risco de serem pegos em possíveis crimes a serem apurados por Sérgio Moro. Aderir seria uma forma de produzir uma “pizza” após a queda de Dilma.

Mas é possível que a uma “pizza” seja difícil de ser produzida. Ela precisaria que, após a queda de Dilma, boa parte dos caciques do PMDB e da oposição ficassem blindados contra o risco de serem incluídos em algum tipo de investigação à la lava a jato. Não se trata apenas do presidente do congresso nacional, Eduardo Cunha, ou do vice-presidente do país, Michel Temer. Na verdade, trata-se de um número considerável de políticos, nos três níveis de governo, que podem se ver de frente a uma investigação.

O processo de delação, que foi um dos modelos utilizados no desenvolvimento da Teoria dos Jogos, encontra equilíbrio quando nenhum agente encontra uma posição melhor para ficar. Mas há vários “jogos” nos quais esse equilíbrio é impossível.

A suposição atual dos ”jogadores” da política é a de que os “últimos presos”, Lula e Dilma, depois de encarcerados, não teriam nada a delatar. Seria o fim do caminho e isso daria “controle” à descida do caminhão na ladeira. Mas há de se suspeitar que Dilma e Lula, como “últimos presos”, poderiam ter algo a delatar e que delatando, isso poderia atingir outros políticos.

As enormes pizzas da política nacional funcionavam bem por uma razão: os últimos a jogar não tinham mais interesse/poder de “delatar” alguém. O caso mais notório da recente história nacional foi o escândalo dos anões do orçamento, uma das maiores pizzas brasileiras. Alguns “nanicos”, políticos sem expressão, foram punidos, mas a imensa maioria, na qual estavam os graúdos, saiu sem nenhum arranhão sequer.

A questão que deve estar no ar em Brasília, nos dias atuais, é se realmente é possível produzir uma pizza após o fim de Dilma (impeachment) e Lula (prisão pelo tríplex do Guarujá, do sítio de Atibaia, dos objetos apropriados do planalto, ou qualquer outro que seja). Essa pizza, acordo no qual um grupo se salva, precisa ser costurada para formar um núcleo de políticos dirigentes que consigam governar o país após a queda do governo. Precisam de um presidente, de uma câmara de deputados, de um senado e de um supremo tribunal federal. Essa pizza seria o que alguns já chamaram de construção de uma nova hegemonia.

Para que essa hegemonia seja construída, é necessário que não apenas seus postuladores desejem ser os novos titulares do poder, mas que eles sejam sustentáveis por uma base sólida. Mas se se levarmos em conta as frágeis condições econômicas e sociais do país, essa base não parece tão sólida. Aos menos assim indicam as manifestações parciais acerca de políticos do PSDB e DEM nas manifestações, as pesquisas de opinião sobre a prisão de Lula, o elevado desemprego, etc.

As primaveras do Oriente Médio derrubaram vários ditadores e governantes corruptos. Mas, na sua imensa maioria, não lograram colocar um regime político estável. Ao contrário, foram seguidas por caos político.

Ao que tudo indica, para que o novo regime político seja minimamente estável, nem Dilma nem Lula podem ser os últimos delatores. Após sua derrota, os vencedores precisam obter consenso em torno de um projeto de governo e precisam assegurar que a sociedade aceite que as investigações terminem aí. Não pode haver a continuidade das investigações sobre corrupção. É preciso um “salvo conduto” aos que ficaram, de que tudo continuará seguro depois desse novo início. O difícil é imaginar que essa situação será atingida com algum sucesso. Se não for, a crise pode continuar e de forma mais profunda.


Nos últimos trinta anos tivemos algo nesse sentido no período de queda do regime militar, nos anos finais do mandato Sarney, no governo Collor, em parte do governo Itamar, no governo FHC (período da reeleição) e, por fim, no processo do mensalão. Em cada um desses períodos a economia se ressentiu com intensidades diferentes da confusão política e cada um terminou com desfechos diferentes. Uma coisa era comum: os agentes não conseguiam definir como a crise terminaria.

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