O pior leva ao melhor?

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É sempre mais do mesmo… crise política, queda da atividade econômica, aumento de inflação, desemprego, déficit fiscal e, a cada semana, novas acusações envolvendo diversos atores importantes do cenário nacional. O fundo do poço, aparentemente, é mais embaixo. Sem governabilidade, a presidente mostra-se cada vez mais enfraquecida e, entre cair ou não, sem condições para tocar as medidas necessárias para que o país saia da crise. Para completar, as ruas estarão tomadas, neste final de semana, por pessoas pedindo o impeachment, a renúncia ou a volta do regime militar. Dá desespero pensar se há saída.
Dizia Keynes: “A longo prazo, todos estaremos mortos”. É difícil pensar em prazos mais longos quando a questão é a sobrevivência. A economia exibiu um pífio crescimento em 2014 (0,1%), despencou 3,8% em 2015 e deve recuar algo próximo de 4% neste ano. O legado do segundo mandato de Dilma é de um completo desastre econômico, com retração dos investimentos, do consumo, inflação distante do centro da meta de 4,5% e descontrole fiscal. Ao mercado financeiro, resta especular no intraday. Se a notícia é ruim para o governo, as ações sobem e o dólar cai. Dedos cruzados para que algo – não necessariamente bom ou feito corretamente – aconteça.
O dólar recua a cada novo trecho da delação do senador Delcídio e ações do MP ou da Polícia Federal. Assim, a pressão cambial sobre os preços cai, para alívio do Banco Central. A situação chegou a um ponto que o pior leva ao melhor. As notícias que afetam o governo são boas tanto para o mercado quanto para o próprio governo. Ao BC, como diz a ata divulgada quinta-feira, resta “manter-se vigilante, para garantir que pressões detectadas em horizontes mais curtos não se propaguem para horizontes mais longos”, frase que é textualmente replicada pelo Copom desde outubro.
O colegiado reiterou que as taxas de crescimento da absorção interna e do PIB continuam a se ajustar, indicando que ritmo de expansão da atividade doméstica neste ano será inferior ao previsto anteriormente. Ou seja: mais recessão. “Tal processo está sendo especialmente intensificado pelas incertezas oriundas do efeito de eventos não econômicos”, cita a ata. Novamente, a política. Há retração forte do investimento e do consumo privado, em linha com os dados de crédito, emprego e renda.
Ao que tudo indica, o cenário não muda agora, tampouco a insatisfação, seja a dos que irão protestar no domingo pelo liberalismo econômico ou pelo retorno ao autoritarismo (que era estatizante) ou dos que, insatisfeitos por outras razões, terão de protestar outro dia. Nada de errado em protestar, os equívocos estão nas lideranças que manipulam algumas dessas massas.
Na história do pensamento econômico, há sempre a dicotomia: liberalismo versus intervencionismo. O problema está nos extremos. Tanto o estado inchado quanto o liberalismo puro trouxeram legados ruins. Pode-se lembrar, por exemplo, que a visão equivocada do liberalismo clássico levou os Estados Unidos a se depararem com a crise de 1929. Mais recentemente, a falta de regulamentação do sistema financeiro norte-americano levou à crise de 2008. Olhando para nós, basta citar a postura intervencionista do último governo brasileiro, que provocou a crise fiscal de hoje.
Os movimentos ditos liberais que encabeçam as multidões nas ruas pedem a LIBERDADE ECONÔMICA, definida por eles como um mercado livre de regulações abusivas e impostos escorchantes. É fácil falar e postar. O Brasil realmente conta com uma carga tributária elevada, porém, ao mesmo tempo, exibe uma péssima distribuição de renda, sem citar os indicadores sociais (saúde, educação…). Como reduzir a receita do governo, ou seja, o tamanho do estado se o orçamento destas pastas já é insuficiente para o desenvolvimento do País? Citando Keynes novamente, são as ideias, não os interesses encapotados, que são perigosas para o bem ou para o mal.

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação

(*) Colaborou Maurício Palhares, diretor da Compliance Comunicação

Comentários

  1. Daniel diz:

    Diminuindo a corrupção e a má gestao deste desgoverno minha cara.. mas certo mesmo é ficar em cima do muro como você, só para nao admitir que votou neste projeto de poder que casa alto grau de recessão e miséria a todos os brasileiros. Lembre-se: antes da crise politica, veio um governo ruim. Os culpados estão claros,não tente desvirtua-los.

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