Contracionismo versus popularidade

Share On Facebook

Os últimos dados do PIB demonstram dois lados da crise brasileira. Enquanto as famílias cortam o consumo, motor da economia brasileira, as empresas começam a investir e aumentar a produção. A decisão do impeachment, que tira uma incerteza da frente, tem como essência o fim da heterodoxia e o início da ortodoxia econômica, marcada por uma redução do intervencionismo econômico. O resultado da guinada e definição do governo é a melhora dos índices de confiança dos empresários, mas com o desemprego em níveis tão preocupantes, fica difícil pensar em uma retomada consistente.

Ainda longe do suspiro de alívio, as medidas contracionistas que estão na pauta do governo provocam a piora do paciente. A missão de promover o ajuste fiscal passa pela redução dos gastos do governo e, possivelmente, aumento da arrecadação via elevação de impostos. Tal postura provoca a retração do produto em um momento em que é necessário ampliar postos de trabalho e a confiança do brasileiro para que o consumo cresça. O problema é que as mãos estão atadas. As contas do governo federal fecharam o mês de julho com déficit de R$ 18,6 bilhões, o que representa um aumento deflacionado de 140% em relação ao resultado de igual período do ano passado.

Ao mesmo tempo, há os questionamentos quanto à legitimidade do governo, o que provoca a necessidade de uma reação mais forte para que a guinada ocorra. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, apregoa que o retorno ao crescimento virá mais rápido do que o esperado e que os protestos contra o governo, mais especificamente os do fim de semana retrasado, nada influenciam a legitimidade do governo, apesar do número expressivo de participantes. Para a população, esta crença não é uma realidade. É difícil explicar que é necessário conter gastos, encolher programas como o Bolsa Família e créditos estudantis, enquanto o reajuste do Judiciário torna-se prioritário. Fica complicado falar de Reforma da Previdência neste contexto.

A popularidade de Temer consegue ser inferior à de Dilma nos piores momentos. O que se propõe deve piorar ainda mais este quadro. Há, em favor do governo, boa vontade do Congresso. Se isso será utilizado para ajustar as contas, porém, é incerto. Em um governo que busca a legitimidade, adotar medidas impopulares não é nada fácil. Entregar as promessas neste contexto fica ainda mais difícil. A proposta de emenda constitucional que limita o crescimento dos gastos do governo de acordo com a inflação terá efeito no ajuste fiscal apenas no longo prazo, mas no curto, mata uma das principais vertentes keynesianas: é preciso que o governo lance mão de déficits em momentos recessivos e de superávits quando a economia vai bem.

É fato que a gastança anterior nos levou à bancarrota atual. O orçamento do governo de 2008 para cá cresceu bem acima da inflação, o que deixa claro o custo da irresponsabilidade fiscal. No entanto, o momento exige bem mais do que apenas matar a heterodoxia de uma vez. Reduzir o papel do Estado e cortar gastos provoca o aumento da recessão e do desemprego, além da retração de investimentos em setores básicos como saúde e educação. A decisão acontece no momento em que a renda do brasileiro está em queda e é preciso cortar o orçamento da família, o que envolve cancelar o plano de saúde e a escola particular.

 

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação

Ana Borges

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação. Atuando como jornalista, vem acompanhando nos últimos 15 anos o dia a dia do mercado financeiro. Também é graduada em Economia pela UFRGS e pós graduada em Finanças pela FIA. Leciona no as disciplinas Estratégias Econômicas Empresariais, Finanças Internacionais, Políticas Econômicas e Administração Financeira, no Senac-SP.
Acesse: http://www.compliancecomunicacao.com.br

Deixe um comentário

Esta área do website ADVFN.com é destinada para comentários e anáises individuais independentes. Estes blogs são administrados por autores independentes através de uma plataforma de alimentação comum, não representando as opiniões da ADVFN. A ADVFN não monitora, aprova, altera ou exerce controle editorial sobre estes artigos, não aceitando, portanto, ser responsabilizada por tais informações. As informações disponibilizadas no website ADVFN.com destina-se para sua informação em geral mas não, necessariamente, para suas necessidades particulares. As informações não constituem qualquer forma de recomendação ou aconselhamento por parte da ADVFN.COM.
 
Seu Histórico Recente
BOV
VALE5
Vale PNA
BOV
IBOV
iBovespa
BOV
PETR4
Petrobras
BOV
IGBR3
IGB SA
FX
USDBRL
Dólar EUA ..
Ações já vistas aparecerão nesta caixa, facilitando a volta para cotações pesquisadas anteriormente.

Registre-se agora para criar sua própria lista de ações customizada.

Ao acessar os serviços da ADVFN você estará de acordo com os Termos e Condições

P:35 V: D:20170628 10:37:55