Contracionismo versus popularidade

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Os últimos dados do PIB demonstram dois lados da crise brasileira. Enquanto as famílias cortam o consumo, motor da economia brasileira, as empresas começam a investir e aumentar a produção. A decisão do impeachment, que tira uma incerteza da frente, tem como essência o fim da heterodoxia e o início da ortodoxia econômica, marcada por uma redução do intervencionismo econômico. O resultado da guinada e definição do governo é a melhora dos índices de confiança dos empresários, mas com o desemprego em níveis tão preocupantes, fica difícil pensar em uma retomada consistente.

Ainda longe do suspiro de alívio, as medidas contracionistas que estão na pauta do governo provocam a piora do paciente. A missão de promover o ajuste fiscal passa pela redução dos gastos do governo e, possivelmente, aumento da arrecadação via elevação de impostos. Tal postura provoca a retração do produto em um momento em que é necessário ampliar postos de trabalho e a confiança do brasileiro para que o consumo cresça. O problema é que as mãos estão atadas. As contas do governo federal fecharam o mês de julho com déficit de R$ 18,6 bilhões, o que representa um aumento deflacionado de 140% em relação ao resultado de igual período do ano passado.

Ao mesmo tempo, há os questionamentos quanto à legitimidade do governo, o que provoca a necessidade de uma reação mais forte para que a guinada ocorra. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, apregoa que o retorno ao crescimento virá mais rápido do que o esperado e que os protestos contra o governo, mais especificamente os do fim de semana retrasado, nada influenciam a legitimidade do governo, apesar do número expressivo de participantes. Para a população, esta crença não é uma realidade. É difícil explicar que é necessário conter gastos, encolher programas como o Bolsa Família e créditos estudantis, enquanto o reajuste do Judiciário torna-se prioritário. Fica complicado falar de Reforma da Previdência neste contexto.

A popularidade de Temer consegue ser inferior à de Dilma nos piores momentos. O que se propõe deve piorar ainda mais este quadro. Há, em favor do governo, boa vontade do Congresso. Se isso será utilizado para ajustar as contas, porém, é incerto. Em um governo que busca a legitimidade, adotar medidas impopulares não é nada fácil. Entregar as promessas neste contexto fica ainda mais difícil. A proposta de emenda constitucional que limita o crescimento dos gastos do governo de acordo com a inflação terá efeito no ajuste fiscal apenas no longo prazo, mas no curto, mata uma das principais vertentes keynesianas: é preciso que o governo lance mão de déficits em momentos recessivos e de superávits quando a economia vai bem.

É fato que a gastança anterior nos levou à bancarrota atual. O orçamento do governo de 2008 para cá cresceu bem acima da inflação, o que deixa claro o custo da irresponsabilidade fiscal. No entanto, o momento exige bem mais do que apenas matar a heterodoxia de uma vez. Reduzir o papel do Estado e cortar gastos provoca o aumento da recessão e do desemprego, além da retração de investimentos em setores básicos como saúde e educação. A decisão acontece no momento em que a renda do brasileiro está em queda e é preciso cortar o orçamento da família, o que envolve cancelar o plano de saúde e a escola particular.

 

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação. Atuando como jornalista, vem acompanhando nos últimos 15 anos o dia a dia do mercado financeiro. Também é graduada em Economia pela UFRGS e pós graduada em Finanças pela FIA. Leciona no as disciplinas Estratégias Econômicas Empresariais, Finanças Internacionais, Políticas Econômicas e Administração Financeira, no Senac-SP.
Acesse: http://www.compliancecomunicacao.com.br

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