O desconcertante otimismo dos mercados

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Reagindo aos riscos principais da eleição de Trump, os mercados globais ensaiaram um enorme derretimento nas bolsas, moedas e dívidas (públicas e privadas). A hipótese básica para o “susto” com o republicano, era a de piora do quadro fiscal, da deterioração das condições de livre comércio global e dos riscos diplomáticos e militares.

À medida, porém, que sua equipe foi sendo definida e ele foi reafirmando seu desejo de implementar políticas de estímulo da economia doméstica, os mercados foram retirando o pessimismo e o substituindo por um otimismo mais que frenético. Os índices acionários estão em seus máximos e os mercados estão privilegiando ações que terão impulso com as medidas do novo governo. Veja o Gráfico do S&P500, índice que agrega as quinhentas empresas mais negociadas nos EUA:

Após cair 56% na crise de 2008/2009, o índice subiu 240% na esteira do programa de estímulo monetário executado pelo FED dos EUA. Na eleição, o índice caiu novamente, mas modestos 4% e subiu novos 6%.

Essa queda, no entanto, embute altas em diversos, em particular os de energia, indústria de base, armamentos, petróleo e equipamentos. Veja algumas ações que estão liderando a alta:

A ideia de muitos gastos associados ao estímulo de Trump afeta as seguintes indústrias:

• Petrolífera, siderurgia e mineração. Redução das restrições da legislação ambiental. São as indústrias que produzem gases efeitos estufa e que têm potencial de poluição ambiental elevado e que poderão ser impulsionadas pela elevação da demanda por matérias primas.

• Aviação e defesa. A promessa de intensificação das guerras contra o terror com a presença de tropas no Oriente Médio eleva a percepção de elevação dos gastos militares.

• Infraestrutura. Após décadas de desinvestimento no segmento, sobretudo por conta da política de consolidação fiscal, os gastos podem ser direcionados diretamente para sua reativação.

Essas altas foram as grandes responsáveis pela percepção de melhora no otimismo, mas já é suficiente para disseminar o otimismo para outros segmentos. A sensação fica ainda mais forte com a possibilidade de acordo entre os países da OPEC para limitar a produção de petróleo, de sorte a produzir uma elevação em seus preços. Com a alta dos preços do petróleo, boa parte da indústria dos EUA baseada do fracking hidráulico poderá se tornar viável novamente e isso, por sua vez, induz à percepção de mais investimentos e empregos. Curioso notar que os russos, sauditas, iranianos e americanos se beneficiam fortemente desse processo.

O otimismo fica ainda mais reforçado se levarmos em conta que Trump pode escolher como Secretários do Tesouro tanto Steven Mnuchin como Jonathan Gray, ambos figuras carimbadas de Wall Street. Mnuchin trabalhou com George Soros e em outras empresas financeiras, para se tornar produtor em Hollywood, com filmes como “Suicide Squad” e “American Sniper”. Gray é executivo na Blackstone, enorme empresa de investimentos de Wall Street. Mas o Wall Street Journal informa que James Dimon, CEO do JP Morgan Chase ainda pode aceitar o convite feito pelo presidente eleito. Com esses candidatos em mente, os mercados passam a ficar otimistas com a hipótese de mais incentivos ao mercado financeiro, por meio da redução de regulações e de políticas ainda mais amigas do mercado do que as que vem sendo executadas nas últimas décadas.

Se essa percepção do mercado está certa ou não, isso é irrelevante no curto prazo. Os mercados estão realmente otimistas e isso se reflete não apenas nos preços das ações dos EUA, mas nas ações de todo planeta e, em particular, nos preços de matérias primas.

Embora existam motivos reais para a crença de que os riscos são elevados demais, é provável que o otimismo impulsione mais altas até o fim do ano. Em função disso, nossa visão de conjuntura fica em reavaliação. Ainda não é possível determinar por quanto tempo os mercados continuarão a colocar nos preços os aspectos dinâmicos dos possíveis estímulos de Trump. Mas os fatores fundamentais ainda sinalizam para problemas sérios nos impactos de uma política fiscal expansionista, associada ao protecionismo e à possível adoção de políticas truculentas no âmbito diplomático.

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