Banco Central fecha os olhos e pisa no acelerador

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O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu nesta quarta-feira cortar agressivamente a taxa básica de juros em 0,75 p.p., para 13% ao ano. O resultado da reunião surpreendeu parte do mercado, que esperava um corte menos agressivo de 0,50 p.p.

Apesar da expectativa dominante em 0,50 p.p. de corte na taxa Selic, o clima estava favorável no ambiente doméstico para um corte maior de 0,75 p.p. O Banco Central aproveitou a janela de oportunidade (clima propício) para intensificar o ciclo de afrouxamento monetário rapidamente, agradando tanto o governo (que tem a ilusão de que uma Selic menor resolverá os problemas de crescimento), quanto o mercado (que quer uma Selic menor para ampliar os ganhos nas posições de pré-fixados).

Entretanto, considerando a complexidade do balanço de riscos para a inflação (pressões internas e externas), o Banco Central está buscando risco desnecessário ao ampliar agressivamente o ritmo de flexibilização da política monetária, se deslocando de forma acelerada para uma rota mais dovish.

Na manhã desta quarta-feira, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado a inflação oficial no Brasil, avançou 0,30% no mês de dezembro do ano passado, mostrando aceleração em relação a alta de 0,18% registrada no mês anterior.

A inflação do setor de serviços subiu 0,65% no mês de dezembro, frente aos 0,42% registrados no mês de novembro, voltando a sinalizar ritmo incompatível com o cumprimento da meta. A pressão de preços do setor de serviços tem peso relevante (ou deveria ter) no balanço de riscos para a inflação, já que os consumidores não conseguem importar serviços e acabam aceitando os preços praticados por empresas locais. Uma inflação de serviços elevada indica cenário de baixa concorrência e dificuldades de empreendedorismo, sustentando o desequilíbrio entre oferta e demanda.

No acumulado de 2016 o IPCA fechou com alta de 6,29%, muito distante, portanto, do centro da meta a ser perseguido (4,5%) e levemente abaixo do teto da margem de tolerância (6,5%). O número foi considerado positivo e comemorado no mercado, mas o fato é que não há nada animador numa inflação que, ainda, apenas demonstra sinais de que retornou ao padrão verificado nos últimos seis anos (com exceção de 2015): oscilar ao redor do teto da margem de tolerância.

A inflação de 2016 também continua mostrando sinal de elevado descasamento com o desempenho da economia. O FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta retração de 3,3% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2016. Já a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) espera uma contração de 3,4% no PIB do Brasil de 2016, o que deve marcar dois anos de forte recessão, já que em 2015 o PIB caiu 3,8%. A grande distorção entre inflação versus PIB é preocupante, pois demonstra manutenção da deterioração dos fundamentos macroeconômicos.

Ainda assim, mesmo diante do complexo balanço de riscos, o Banco Central decidiu aumentar o corte na taxa básica de juros, de 0,25 p.p. para 0,75 p.p. Lamentavelmente, o comunicado emitido após a reunião de Comitê está repleto de avaliações supostamente tendenciosas.

O Banco Central considera que, no âmbito externo, os efeitos do fim do chamado interregno benigno têm sido limitados. Essa afirmativa parece desconsiderar o movimento global de valorização do dólar (apesar de existir uma distorção temporária contra o real) e as esperadas revisões para cima nas projeções de inflação dos principais banqueiros centrais mundiais, que por sinal estão traçando uma rota de política monetária menos dovish do que a verificada nos últimos anos.

O comunicado também ressalta que o processo de desinflação mais difundido atingiu componentes mais sensíveis à política monetária e ao ciclo econômico, embora a inflação de serviços tenha acelerado para 0,65% no mês de dezembro do ano passado.

No texto, o Banco Central credita peso ao recuo das projeções de inflação no cenário de referência para 2017 e 2018, feitas sob a metodologia de manutenção da taxa Selic e taxa de câmbio durante todo o horizonte de previsões. Entretanto, no cenário de mercado, onde a metodologia é diferente (considera evolução da taxa Selic e taxa de câmbio no horizonte de projeções), ainda não há expectativa de ancoragem da inflação à meta em 2017.

No encontro anterior, realizado em 30 de novembro de 2016, o Comitê decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p. Naquela ocasião, a previsão do mercado (boletim Focus) apontava para uma inflação de 4,93% no fim de 2017. No encontro realizado em 19 de outubro de 2016, a previsão do mercado para a inflação no fim de 2017 era de 5,04% e o Comitê também optou por reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p.

Hoje, a previsão do mercado para a inflação no fim de 2017 está em 4,81%. Pode-se notar um padrão de recuo nas projeções de inflação do mercado na faixa de 0,10 p.p. entre o intervalo de reuniões do Copom, mas, desta vez, a resposta da política monetária veio com um corte agressivo de 0,75 p.p.

Para tentar justificar a intensificação do corte com as projeções de inflação do mercado, o Banco Central começa a empurrar o cumprimento do objetivo (convergência da inflação para a meta de 4,5%) para 2018, ano em que as projeções de mercado apontam ancoragem da inflação ao centro da meta.

Quanto mais o Banco Central se apoia sobre as projeções de longo prazo para tomar suas decisões, maior o risco assumido pela política monetária. Eventos adversos devem surgir em 2017 (como nos anos anteriores) e, desta vez, a autoridade monetária não contará, possivelmente, com a desinflação das contas de energia elétrica (que já estão em bandeira verde) e com o fator câmbio (real valorizado, descasado com as demais moedas).

No cenário externo, o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu sua primeira entrevista coletiva desde a sua eleição. Não houve divulgação de novidades relacionadas ao seu plano de governo. O evento foi marcado por críticas justificadas à imprensa norte-americana, especialmente a rede CNN, que desde a campanha eleitoral tem extrapolado limites para se posicionar contra Donald Trump.

O presidente eleito aproveitou a coletiva de imprensa para anunciar que vai se separar da administração de seus negócios a fim de evitar conflitos de interesse. Seus ativos serão transferidos para um trust e seus dois filhos tomarão o controle de suas empresas.

A coletiva não afetou a dinâmica do mercado local, com os principais índices de Wall Street trabalhando dentro de uma tendência de alta, colados em máximas históricas, sem apresentar novidades.

SPX

A bolsa brasileira (BOV:IBOV) encerrou o pregão desta quarta-feira em leve alta, mas ainda abaixo da principal resistência localizada na região dos 62,9k. Caso essa barreira seja superada nos próximos pregões, a atual tendência de alta ganhará força, impulsionando o índice para a máxima registrada no ano passado.

Ibovespa

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