Mudança de postura

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Surpreendente. É assim que se pode definir a ousada decisão do Banco Central ontem, ao reduzir a taxa básica de juros em 0,75 ponto porcentual para 13%, ao final da primeira reunião de 2017. O Copom abandonou o gradualismo no ritmo de cortes da Selic e adotou um tom mais suave (“dovish”) no comunicado, dando pistas de que pode repetir a dose em fevereiro. Já Donald Trump segue o mesmo, o que decepcionou os mercados no exterior.

 Em decisão unânime, o corte promovido ontem pelo BC foi o maior desde abril de 2012 e veio acima do esperado pela maioria dos economistas e também do que estava precificado na curva implícita de juros futuros. A justificativa da autoridade monetária se apoia na “retomada da atividade econômica ainda mais demorada” e na consolidação do processo de desinflação, evidenciada pela projeções “ancoradas ao redor de 4,5% para 2018”.

 Com o Brasil em recessão há dois anos e a inflação dentro dos limites de tolerância, o Copom entendeu que era hora de agir de modo mais arrojado. Afinal, mesmo com essa queda mais agressiva, o país segue com folga na liderança do ranking global de maior pagador de juro real do mundo, com taxa acima de 7%.

 Essa disposição do BC deve promover um forte ajuste para baixo nos juros futuros hoje, animando também os negócios na Bovespa, já que o rendimento da renda variável fica mais atraente. Já o dólar deve perder terreno ante o real, um dia após fechar novamente abaixo de R$ 3,20.

 Porém, os mercados domésticos também serão influenciados pelo cenário internacional, onde a moeda norte-americana está mais fraca de modo generalizado, ao passo que os índices futuros das bolsas de Nova York têm queda firme. Lá fora, os investidores não conseguem esconder a decepção com a entrevista coletiva de Trump.

 O presidente eleito dos Estados Unidos não esclareceu em nada o que fará no seu governo a partir do próximo dia 20. Além de mostrar certo apreço pela Rússia e o presidente russo, Vladimir Putin; e reafirmar a intenção de construir um muro na fronteira com o México, Trump conduziu o evento junto aos jornalistas da forma como quis e pouco respondeu.

 Ele estava querendo mostrar (ao mundo) quem está no comando. Tanto que, ao final da coletiva, o próximo presidente norte-americano usou o bordão “você está demitido” pelo qual ficou famoso em um programa de TV, alertando que é melhor que a imprensa faça direito o trabalho de cobertura dos fatos e eventos relacionados à Casa Branca.

 Mas o que o mercado financeiro gostou mesmo foi o “tom conciliador” usando por Trump na coletiva, nos moldes da fala dele no discurso feito logo após o anúncio de vitória nas eleições presidenciais, ocorridas em novembro passado. Na verdade, não é que Trump falou de modo mais brando, ele simplesmente não falou sobre aquilo que realmente importava.

 Trump evitou dizer sobre o viés expansionista dos gastos públicos, com a adoção de estímulos fiscais e corte de impostos, assim como também não esclareceu nada em relação à política internacional e ao comércio exterior. E quando ele, finalmente, decidiu dizer algo mais contundente, as declarações foram feitas no superlativo.

 Sem novidades de Trump, os investidores mostraram-se menos assustados do que os analistas e os jornalistas que acompanharam o showman, mas ficaram receosos com a falta de detalhes do plano de ação do próximo governo nos EUA. Nesse ambiente, o dólar é o grande perdedor, em meio ao desmonte de apostas da tendência global de valorização.

 O rali nas bolsas também perde tração, com destaque para a queda das ações farmacêuticas, após Trump dizer que pode interferir no setor. Nas commodities, o movimento das moedas garante ganhos ao petróleo e aos metais básicos. O minério de ferro sobe pela quarta sessão seguida, assim como o ouro, que é cotado no maior valor desde novembro.

 O metal precioso é tido como um refúgio para os investidores. O mesmo pode-se dizer dos títulos soberanos norte-americanos (Treasuries), sendo que o rendimento (yield) do bônus de 10 anos tocou os menores níveis desde novembro, diante das expectativas de que o crescimento econômico irá receber um impulso das ações de Trump.

 A agenda econômica do dia faz uma pausa, o que abre espaço para os investidores recomporem o fôlego. O destaque fica com o discurso da presidente do Fed, Janet Yellen. Porém, a fala dela será à noite, às 22h, deixando para amanhã a reação dos mercados.

 Entre os indicadores de relevo nos EUA, saem os preços de importação e exportação em dezembro e os pedidos semanais de auxílio-desemprego, ambos às 11h30. Na Europa, destaque para a produção industrial na zona do euro em novembro (8h) e também para a ata da reunião do mês passado do Banco Central Europeu (BCE, 10h30). No Brasil, sai apenas a pesquisa do setor de serviços em novembro (9h).

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