Crescimento? Só amanhã

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Com a conjuntura internacional instável e a situação política interna ainda pior, duvide de alguém que preveja algum crescimento significativo para a economia brasileira. Como todo gestor de expectativas, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tenta convencer que haverá recuperação a partir de março. Em recente declaração, ele defendeu que o Brasil já cresce nesse trimestre e que a atividade vai ganhar “tração” nos próximos meses. “Já estamos tomando medidas para que o País possa crescer mais e mais”, disse, durante palestra no evento “Caixa 2017”, organizado pelo banco federal em Brasília.

As medidas? A aprovação da PEC 55 e a Reforma da Previdência. Ambas contracionistas, pois retiram liquidez da economia. Do lado da política monetária, um alívio: redução da Selic. Porém, mesmo com o corte de juros em 0,75 p.p., que leva a Selic para 13%, e a inflação sob controle, há muitas outras variáveis que levam o mercado financeiro a projetar um crescimento pífio de 0,5% em 2018, algo insignificante se comparado ao encolhimento da economia nos últimos anos. Enquanto isso, o governo prega “otimismo” ao afirmar que o incremento do PIB será o dobro, ou seja, de 1%. A má notícia é que historicamente as projeções oficiais não se cumprem.

Do lado mais realista, está o Banco Central, que decidiu reduzir os juros além do que se imaginava e levou economistas a acreditarem em Selic de um dígito até final do ano (9,25% a 9,75%). Não é à toa. Segundo o Boletim Regional do Banco Central (BC), divulgado sexta-feira, a atividade econômica do Brasil registrada pelo IBC-Br, considerando o conjunto das cinco regiões, recuou 0,5% na margem, no trimestre encerrado em novembro – série dessazonalizada.

No documento, o BC destaca que a atividade econômica tem apresentado dinamismo inferior ao projetado anteriormente e a perspectiva é de que a retomada seja mais demorada e gradual que a antecipada previamente. Portanto, a economia brasileira deve continuar operando com nível de ociosidade dos fatores de produção superior à média histórica.

Mas há outros temores muito maiores do que a ociosidade da indústria: os prejuízos causados pelas manifestações. No Espírito Santo, a greve da polícia militar causou fartas perdas aos comerciantes, que tiveram seus estabelecimentos depredados e estoques roubados. O risco é que o mesmo modus operandi venha a ser replicado em outros estados. Além das reivindicações salariais, PMs de todos os estados são uníssonos na indignação com o fim da aposentadoria especial para a categoria, prevista no projeto de reforma da Previdência, onde a profissão perde a classificação de atividade de risco (?!). O mais iminente é o Rio de Janeiro, onde já ocorrem alguns motins deste tipo. Se vira moda entre os estados quebrados…

Para acirrar os ânimos, a Reforma da Previdência tem gerado novos protestos. É claro que a caixa de Pandora precisa ser aberta e debatida. No entanto, torna-se difícil demonstrar para a população que as regras do jogo serão alteradas no meio do caminho e que agora será preciso trabalhar mais e contribuir mais para se aposentar. Tudo isso em meio ao desemprego recorde.

A Previdência tem registrado um rombo crescente, que deve atingir quase 3% do PIB neste ano. Diante da projeção de envelhecimento da população a partir de 2020, o governo alega que a insolvência é certa. Em 2016, o déficit somou R$ 150 bilhões, um aumento de mais de 70% em relação a 2015. O salto, mais do que o envelhecimento da população está relacionado à crise econômica – aumento do desemprego. Como a arrecadação está diretamente ligada à folha de pagamento, a queda era certa e contribui para a argumentação do governo de que a reforma deve ocorrer o mais rápido possível. A isso, somam-se muitos que correram em busca do benefício por conta das notícias sobre a reforma.

O déficit é um problema sério, que deve ser tratado e debatido amplamente. Não se pode utilizar o recorde de 2016 como parâmetro, pois se corre o risco de pensar que a crise veio a calhar com os interesses do governo. Os políticos que votam a favor ou contra estão confortáveis. Vide que o relator da Comissão Especial da Câmara que vai analisar a reforma, o deputado Arthur Maia (PPS-BA), recebeu doações da Bradesco Vida e Previdência nas eleições de 2014, totalizando R$ 299.972.

Ana Borges

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação. Atuando como jornalista, vem acompanhando nos últimos 15 anos o dia a dia do mercado financeiro. Também é graduada em Economia pela UFRGS e pós graduada em Finanças pela FIA. Leciona no as disciplinas Estratégias Econômicas Empresariais, Finanças Internacionais, Políticas Econômicas e Administração Financeira, no Senac-SP.
Acesse: http://www.compliancecomunicacao.com.br

Comentários

  1. Aníbal Costa diz:

    Texto bastante lúcido, parabéns.

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