Exterior volta a comandar

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Depois de andar meio descolado dos mercados internacionais, os negócios locais devem se guiar mais pelo ambiente externo nesta sexta-feira, em meio à fraca agenda econômica do dia e à ausência de um gatilho para os investidores no curto prazo. O feriado nos Estados Unidos na próxima segunda-feira, pelo Dia de Washington, eleva a cautela lá fora e amplia a devolução dos ganhos recentes nos ativos, o que também pode incitar ajustes por aqui.

A correção nos mercados domésticos começou ontem, mas o movimento foi bem tímido, e ainda insuficiente para desbancar o apetite em “comprar Brasil”. Porém, a realização de lucros foi importante para mostrar que a aproximação da Bovespa ao nível dos 70 mil pontos e do dólar para a barreira dos R$ 3,00 pode ser mais lenta.

Esse movimento nos ativos locais não pode ser simplesmente uma trajetória de alta apoiada em expectativas, inflando movimentos especulativos. É preciso que essas apostas se confirmem e que a entrada de recursos seja na mesma proporção que a queda do dólar e/ou a alta da Bolsa. Afinal, não se sustenta um movimento de apenas “subir no vácuo”, pois uma valorização consistente carece de entrada física de dinheiro.

E, de preferência, esses aportes precisam mirar os investimentos produtivos – e não apenas as aplicações financeiras – de modo a beneficiar uma recuperação sólida da atividade econômica. Por enquanto, é a atratividade pelo prêmio de risco pago no Brasil que torna o país o “queridinho” entre os investidores – e não os fundamentos macroeconômicos.

Embora essas correções nos mercados domésticos parecem ser passageiras, é sempre bom lembrar que o risco político segue presente. Após ter seu pedido de liberdade negado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), o ex-deputado Eduardo Cunha voltou às manchetes ontem por outro motivo, sinalizando que ele pode ser um “arquivo ambulante” sobre fatos investigados pela Polícia Federal.

As perguntas enviadas por ele à Justiça Federal em Brasília no caso em que arrolou o presidente Michel Temer como testemunha mostram que o ex-presidente da Câmara busca respostas com possíveis informações que podem comprometer o presidente da República. Mais que isso, a investida de Cunha contra o adversário político Moreira Franco sugere alguma “vantagem indevida” ao agora ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

No front econômico, o calendário de hoje oferece poucos vetores para os negócios, o que pode abrir espaço para o ajuste de posições nos ativos, ao passo que o exterior mantém hoje a correção iniciada ontem. Os índices futuros das bolsas de Nova York seguem sem força, com Wall Street adotando uma postura mais cautelosa à medida que cresce a expectativa pelo anúncio do plano “fenomenal” de Donald Trump sobre cortes de impostos e estímulos fiscais.

O fim de semana prolongado nos EUA, por causa do feriado que manterá Wall Street fechada na segunda-feira, também redobra a postura defensiva e amplia os ajustes de posições entre os investidores, que não querem ficar muito expostos ao risco durante a folga de três dias. Na Ásia, o sinal negativo também prevaleceu, enquanto a Europa inicia a sessão na linha d’água.

Nesse sentido, o dólar está de lado ante o iene e o euro, encontrando dificuldades para avançar, inclusive em relação às moedas emergentes. As chances de um aperto monetário pelo Federal Reserve em março seguem abaixo de 50%, na precificação da curva implícita de juros, mesmo após o vice-presidente do Fed, Stanley Fischer, ecoar a fala da presidente Janet Yellen e dizer que a economia dos EUA está perto de atingir o duplo objetivo sobre emprego e inflação, sinalizando que há espaço para três altas da taxa básica neste ano.

Entre as commodities, o petróleo ensaia alta, com os investidores apostando agora que a Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo) deve estender os cortes de produção por mais meses, já que o excesso de oferta continua deprimindo os preços do barril. O grande problema é que os estoques elevados estão vindo de países de fora do cartel, mais especificamente dos Estados Unidos, que buscam uma atratividade no preço do petróleo para avançar na produção do óleo de xisto. Os metais básicos e preciosos também recuam.

No Brasil, saem leituras parciais de fevereiro dos índices de preços no atacado (IGP-M) e no varejo (IPC-S), às 8h. Depois, às 10h30, será conhecida a nota do Banco Central sobre o setor externo em janeiro, que também poderá ajudar a aferir se há, de fato, ingresso de recursos estrangeiros no Brasil.

Na safra doméstica de balanços, destaque para os resultados trimestrais de Gol e Usiminas, antes da abertura, e da BM&FBovespa e Hypermarcas, após o fechamento. No exterior, o calendário está igualmente fraco e traz como destaque apenas os indicadores antecedentes da economia dos Estados Unidos em janeiro (13h).

Jornalista, especializada em Economia, trabalha há 10 anos na cobertura de notícias em tempo real sobre macroeconomia e mercado financeiro, nacional e internacional. Atuou como editora na Agência Estado (Broadcast/Estadão) e atualmente é repórter sênior na Agência CMA. Também é responsável pela produção de artigos publicados no blog A Bula do Mercado (www.oliviabulla.com.br), que faz um resumo diário do que mais importante acontece no mercado financeiro e na economia. É Mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), onde estudou a construção de sentido no Jornalismo através do uso dos números na notícia, e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Tem fluência em inglês, espanhol e possui conhecimento avançado em mandarim (chinês).
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