O retrovisor da segunda década perdida

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O PIB brasileiro não caiu mais de 4% como acreditava esta coluna. Foi uma perda de “apenas” 3,6%, reduzindo a riqueza gerada para R$ 6,267 trilhões. De qualquer forma, não há motivo nenhum para comemorar. A recessão dos dois últimos anos não encontra paralelo na história do Brasil Republicano. Entre 2014 e 2016, o PIB recuou 7,2%, bem acima da mais severa crise registrada até então — a de 1929, que levou à queda de 2,1% em 1930 e 3,3% no ano seguinte.

A economia brasileira agora encontra-se no mesmo nível do terceiro trimestre de 2010. Sumiram os ganhos de quatro anos de crescimento econômico (2011 a 2014). Para se ter uma ideia do tamanho do abismo, basta lembrar que, na primeira guerra (1914 a 1918), a consequência foi uma perda equivalente a oito anos de crescimento econômico mundial normal.

O empobrecimento da população em dois anos, medido pelo PIB per capita (PIB dividido pelo número de habitantes), foi ainda mais forte. De acordo com os dados do IBGE, entre 2014 e 2016, a queda atingiu 9,1%, enquanto a população cresceu quase 1%. Com esse resultado, o PIB per capita voltou ao nível de 2010. Se o bolo precisava crescer para ser dividido, o que aconteceu foi que embatumou e tem mais boca para comer. No ano passado, o PIB per capita caiu 4,4%. Em 2015, despencou 4,6%, mais que a queda de 3,8% do PIB. A retração total de 11% durante 11 trimestres supera os 7,5% da chamada década perdida (período entre o fim da ditadura e o governo Collor, 1981 a 1992).

Segundo o ministro Henrique Meirelles, olhar para a queda do PIB em 2016 é olhar para o espelho retrovisor. Ele defende que, já no primeiro trimestre de 2017, a recuperação virá. Mas em que medida? Insuficiente. A realidade é que retomada será muito mais lenta do que em qualquer episódio de recessão do país, inclusive a que ocorreu no pós-Plano Collor, de 1990. Para piorar, a perda da renda junto com a alta taxa de desemprego prejudica a melhora do consumo, que vinha puxando o crescimento do PIB nos anos anteriores. O consumo das famílias, responsável por 60% do resultado medido pela ótica da demanda, recuou 4,2% no ano passado, acima da perda de 2015 (3,9%).

Em 2016, o PIB per capita ficou em R$ 30.407, ou seja, na teoria, cada brasileiro obteve esta renda durante o ano de 2016, o equivalente a um salário mensal de R$ 2.534,00. O fato é que a população brasileira continuará a crescer cerca de 1% ao ano. Deste modo, a recuperação defendida pelo governo não será sentida no bolso. A expectativa do mercado é de que, neste ano, o Brasil deverá registrar um pífio crescimento de 0,5% neste ano. A grosso modo, o incremento compensa apenas um trimestre dos 11 perdidos.

Outra conclusão é a de que a renda do brasileiro continuará encolhendo e já há projeções de que somente em 2024 o valor voltará ao nível de 2013. Segundo dados do FMI, que consideram os efeitos cambias e de inflação, o PIB per capita do Brasil deve atingir US$15,5 mil em 2017. Em termos per capita, a crise brasileira superou as perdas da primeira guerra. A diferença é que, naquele momento da história, as mortes superaram as perdas econômicas.

Na situação atual, a segunda década perdida pode ser mesmo um espelho retrovisor, mas que dá pistas sobre o futuro. É como se em uma viagem de carro, o motorista errasse o caminho e andasse quilômetros e quilômetros na direção contrária. Quando se dá conta e faz a volta, o erro fica no retrovisor, como diz Meirelles. Levará muito tempo para se voltar ao quilômetro em que se perdeu a rota.

Ana Borges

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação. Atuando como jornalista, vem acompanhando nos últimos 15 anos o dia a dia do mercado financeiro. Também é graduada em Economia pela UFRGS e pós graduada em Finanças pela FIA. Leciona no as disciplinas Estratégias Econômicas Empresariais, Finanças Internacionais, Políticas Econômicas e Administração Financeira, no Senac-SP.
Acesse: http://www.compliancecomunicacao.com.br

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