Presidente decorativo

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O susto dos mercados domésticos logo na abertura do pregão de ontem – que levou ao acionamento do dispositivo que interrompe as negociações (circuit breaker) em meio à oscilação máxima permitida – foi só o começo do reflexo das incertezas políticas nos negócios locais na sequência dos eventos envolvendo a JBS. A resistência do presidente Michel Temer em seguir no cargo, prolongado as dúvidas em relação ao futuro do país, tende a manter o estresse nos ativos brasileiros hoje, sem arriscar uma recuperação.

A questão é que, por mais que, à primeira impressão, o diálogo não cause exatamente o impacto esperado, o estrago já foi feito e a governabilidade de Temer, bem como sua articulação política, foram colocadas à prova. Portanto, se a conversa é apontada como inconclusiva, o efeito do escândalo já está fora de controle, seja na base aliada, seja nas ruas, com a oposição ou ainda no lado econômico.

Não se trata mais da queda de um presidente, mas da dificuldade em avançar com as reformas estruturais, que seria a grande realização desse governo de transição, dando caminho ao candidato que assumiria o país no ano que vem por mais quatro ou, quiçá, oito anos. A agenda das medidas para mudar as leis trabalhistas e as regras da aposentadoria já não cabem mais e vai ser preciso passar essa crise para que a pauta volte ao Congresso.

Com os investidores vivendo um dia após o outro, as especulações, conjecturas e apostas ainda pairam no ar. Ao não renunciar, Temer fez do Brasil um nação com um governo que não governa e um Parlamento que não legisla. Nesse caso, a regra é reduzir o risco, desovando posições no real, nas ações e nos contratos de juros futuros (DIs).

Assim, a Bovespa, que caminhava em busca dos 70 mil pontos e ontem ainda permaneceu no nível dos 60 mil pontos, com uma queda ao redor de 9%, na mínima desde janeiro, pode ficar estagnada nessa marca psicológica, em uma zona de indefinição. O dólar, por sua vez, respeitou a faixa de R$ 3,40 na véspera e vai depender de muito munição do Banco Central para não ultrapassar esse patamar hoje.

Ontem, a autoridade monetária fez uma oferta adicional de contratos no mercado futuro para conter a volatilidade da moeda norte-americana. Ainda assim, o dólar fechou no maior nível desde dezembro de 2016 e na maior alta desde janeiro de 1999, quando foi liberada a banda e o regime cambial no Brasil passou a ser de livre flutuação.

O Tesouro também anunciou novos leilões de compra e venda de títulos para hoje e para os próximos dias, mas as taxas tendem a avançar ao novo limite de alta do dia, recompondo boa parte dos prêmios retirados recentemente. Os investidores, que chegaram a apostar 70% de chance de queda maior da taxa básica de juros neste mês, anularam ontem essa possibilidade, com o placar ficando dividido entre 80% de chance de redução de apenas 0,50 ponto e o restante em uma dose ainda mais tímida, de 0,25.

Essas movimentos nos mercados domésticos refletem a sensação de que tudo o que está ruim pode piorar mais. Ainda mais após a quebra do sigilo da delação dos empresários, com a revelação dos áudios e imagens do material coletado pelos irmãos Batista.

Na gravação feita por Joesley, o presidente Michel Temer incentiva o empresário a manter um bom relacionamento com o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, mesmo após a prisão do deputado cassado. Na passagem da célebre frase, Batista afirma que a forma que encontrou para se defender das citações envolvendo irregularidades na JBS é ficar “bem com o Eduardo”. Temer, então, diz: “Tem que manter isso, viu?”. E Joesley continua: “Todo mês. Também. Estou segurando as pontas, estou indo”.

O áudio mostra ainda que o presidente sabia que o grupo J&F havia infiltrado um procurador da República nas investigações da força-tarefa da Operação Lava Jato para atuar em favor das empresas controladas. Em um momento da conversa, Joesley afirma que está “segurando” dois juízes responsáveis por um processo do qual é alvo. “Eu consegui colar um no grupo. Agora eu tô tentando trocar…”, disse o empresário.

A gravação divulgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) também foi entregue a Temer. Ontem à tarde, em pronunciamento ainda antes de conhecer o conteúdo do material coletado pela Polícia Federal (PF) o presidente disse “saber da correção dos atos” cometidos por ele e, à noite, garantiu que “vai sair dessa mais rápido do que se pensa”, mostrando que não tem “nenhum envolvimento com tais fatos”.

Mas não é bem assim. Os áudios gravados por Joesley Batista revelam que o presidente Temer ouviu, sem fazer objeção nem depois reportar aos órgãos competentes, um relato de um empresário – dono de um grupo que foi alvo de cinco operações da PF em menos de um ano – com detalhes sobre mecanismos usados para obstruir a Justiça.

Temer também escutou, sem repreender o interlocutor, declaração sobre pagamentos ilegais a Cunha. Se não foi exatamente um aval, ao dizer que “tem que manter isso”, o presidente estava, ao menos, estimulando Joesley a uma prática ilegal. Para o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o conselho dá “anuência” ao pagamento de propina ao deputado preso.

Essa ideia, então, de que se criou “muito barulho” precisa ser combinada com as ruas, a oposição e até os aliados, que podem não se mostrar tão dispostos em seguir a orientação do presidente de “ir para o enfrentamento”. A classe política pode ocupar-se mais dos inevitáveis processos que serão abertos para que Temer continue governando como um presidente decorativo, já que a legitimidade do governo ficou em xeque.

Nas ruas, o coro pedindo a saída de Temer do cargo ganha corpo. O ato ontem na Avenida Paulista pela renúncia e pela convocação de eleições diretas foi maior que o do dia anterior. Outras capitais, como Rio de Janeiro, Porto Alegre, Goiânia e Recife também registraram protestos.

Na capital federal, já foram protocolados oito pedidos de impeachment do presidente, mas a tendência é de que Rodrigo Maia não aceite nenhum, o que pode ameaçar a sua permanência na Presidência da Câmara. Na classe empresarial, executivos avaliam que o Brasil precisa agir rápido para que a tendência de recuperação não seja revertida pela nova crise política. Porém, uma solução ágil não é necessariamente a melhor.

Até semana passada, o Brasil estava indo pelo caminho certo, tinha um projeto de governo. Nesta véspera do fim de semana, porém, a história mudou, o que tende a redobrar a cautela, com os negócios locais ainda assimilando o choque de ontem. Lá fora, o movimento dos mercados em busca de uma estabilização também prevalece.

Os investidores elevam a postura defensiva ao final de um noticiário político turbulento também em Washington. Os índices futuros das bolsas de Nova York estão na linha d’água, mas com um ligeiro viés positivo, o que anima uma abertura das praças europeias no azul. Na Ásia, a sessão termina com ganhos laterais.

O dólar perde terreno ante as moedas rivais e de países emergentes, o que embala o petróleo. A moeda norte-americana ainda reflete os movimentos controversos do presidente dos Estados Unidos Donald Trump nas relações com a Rússia e com o FBI.

A troca de informações secretadas com autoridades russas e o pedido feito ao ex-diretor James Comey para interromper investigações ameaçam a agenda pró-crescimento de Trump no Congresso, levantando dúvidas quanto às propostas de corte de impostos e aumento dos gastos em infraestrutura. Assim, tanto Wall Street quanto São Paulo ficaram mais sensíveis ao noticiário político.

Os fatos recentes elevaram a preocupação quanto à recuperação econômica, nos EUA e no Brasil, em meio ao processo de flexibilização das taxas de juros – para cima, lá fora, e para baixo, aqui. Nesse ambiente, é muito cedo para dizer que tais fatos preenchem apenas um dia de negócios, pois a situação política ainda tem potencial para alterar as avaliações de risco entre os investidores.

Jornalista, especializada em Economia, trabalha há 10 anos na cobertura de notícias em tempo real sobre macroeconomia e mercado financeiro, nacional e internacional. Atuou como editora na Agência Estado (Broadcast/Estadão) e atualmente é repórter sênior na Agência CMA. Também é responsável pela produção de artigos publicados no blog A Bula do Mercado (www.oliviabulla.com.br), que faz um resumo diário do que mais importante acontece no mercado financeiro e na economia. É Mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), onde estudou a construção de sentido no Jornalismo através do uso dos números na notícia, e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Tem fluência em inglês, espanhol e possui conhecimento avançado em mandarim (chinês).
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