Sem política não há economia

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Tudo se arrasta até que se tenha uma resposta quanto à permanência ou não de Temer. E nada deve mudar, pelo menos, até o dia 06 de junho, quando o TSE deve votar o pedido de impugnação da chapa Dilma-Temer. Líderes partidários se reúnem, mas, se ele sair, não há consenso sobre quem será o novo líder do Brasil. Assim, Temer se agarra na falta de acordo e vai se mantendo no poder, enquanto protestos ocorrem, o exército vai às ruas, a imagem brasileira no exterior fica cada vez pior, o que o ministro da Fazenda classifica de “pessimismo exagerado”.

Nem todos os indicadores econômicos dão conta de que o pior da crise passou e, sem uma definição política, a melhora, que seria gradual, pode se tornar apenas pontual. O desemprego permanece crescente e o aumento da arrecadação do governo em abril não evidencia crescimento econômico.

Em abril, a arrecadação somou R$ 118,04 bilhões, alta real de 2,27% em relação ao mesmo período de 2016. O crescimento, porém, está relacionado a fatores não recorrentes e não representa retomada do setor produtivo. A produção industrial, por exemplo, apresentou uma leve melhora (0,45%) nos quatro primeiros meses do ano. Este desempenho, no entanto, não foi visto no comércio e serviços, cujas vendas caíram 3,77% e 4,9%, respectivamente. Além disso, os dados de desemprego só pioram. No primeiro trimestre, o número de desocupados atingiu 14,2 milhões de desempregados no trimestre encerrado em março, aumento 27,8% em relação ao mesmo intervalo de 2016, ou 3,1 milhões de pessoas a mais procurando emprego.

O velho tripé econômico (meta de inflação, meta fiscal e câmbio flutuante) ainda não mostrou a que veio e não se pode culpar a Fazenda, que ainda dá ares de credibilidade a um governo em farrapos. Ninguém se meteu a explorar com profundidade o fato de o ministro Henrique Meirelles ter feito parte do alto escalão do Grupo J&F a partir de 2012. Presidiu os conselhos consultivos  da holding controladora da JBS e do Banco Original. Mas seria muito azar se descobrissem algo que também levasse o nome de Meirelles para a “boca do sapo” e é melhor ficar no deixa quieto, enquanto ele é cotado para assumir a Presidência da República, no caso de eleições indiretas.

O lado fiscal do tripé está começando a funcionar, ao menos pontualmente. Para este ano, a meta fiscal é de um déficit de R$ 143,1 bilhões para União, Estados e municípios. Os últimos dados demonstram um alívio do lado fiscal. Em abril, o setor público obteve um superávit primário de R$ 12,9 bilhões. Já no acumulado do ano, o resultado está positivo em R$ 15,1 bilhões. Nos últimos doze meses, o déficit fica bem próximo da meta (R$ 145,1 bilhões).

O lado da meta de inflação também parece uma maravilha, o que deixa espaço para a redução dos juros. O que adianta conseguir gastar menos que arrecada, se o “cheque especial” tem taxa elevada? Depois do pagamento dos juros, o governo registrou um déficit de R$ 15,42 bilhões em abril e de R$ 123,71 bilhões no primeiro quadrimestre (5,93% do PIB). Já no acumulado doze meses o rombo é de R$ 582,24 bilhões, 9,18% do PIB. O percentual é bastante alto para uma economia instável como a do Brasil, o que por si só justifica o país estar em grau especulativo. Resta saber se vai haver cortes mais robustos na Selic diante do cenário político instável. Meirelles já declarou que trabalha com o cenário de que Temer fica onde está. Qual o cenário do BC?

Análises dão conta de que Temer fica, a não ser que os juízes tenham em mente que ele represente um risco. Apesar de aumentarem os pedidos de impeachment, até o momento, poucos pularam do barco. Se ele cai, e deveria cair, o Brasil terá o recorde de contar com três presidentes em pouco mais de um ano. O problema é quem assumiria, por eleições diretas ou indiretas. As primeiras são um problema, pois abrem caminho para o novo, políticos de extrema direita que jogam com a “antipolítica”, como definiu o jornal britânico The Guardian.

Já as segundas são vistas com ressalva pela própria oposição. Com um cenário de caça às bruxas da corrupção, não é uma boa ideia ir para a vitrine, sendo político. Enquanto isso, o jeitinho brasileiro de lidar com a corrupção, soltando jornalistas e agradando maridos, ajuda a manter o Brasil como piada no cenário internacional.

Comentários

  1. Evandro Loes diz:

    Parabéns pela análise. Realmente, o Brasil tem que cuidar dos próximos passos, para que as extremas não apaguem a luz no fim do túnel.

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