Pré-Market: Xadrez político

Google+ LinkedIn

O míssil lançado pela Coreia do Norte no mar do Japão eleva a tensão geopolítica nos mercados internacionais, embutindo perdas aceleradas nas bolsas nesta manhã e intensificando a busca por proteção em ativos seguros. Esse sentimento lá fora tende a recrudescer a expectativa pela segunda denúncia contra o presidente Michel Temer, trazendo também nervosismo aos negócios locais.

A troca de peças em Brasília com a viagem de Temer à China eleva a expectativa de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Enquanto o presidente busca atrair mais investimentos chineses ao Brasil, para onde retorna apenas no dia 6 de setembro, o comando do país fica com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que perde a chance de tocar uma delicada pauta de votações.

Há quem diga que Janot não deve fazer a desfeita de mandar uma nova denúncia contra Temer enquanto o presidente está voando para a China, onde acontece a reunião de cúpula dos Brics. Mas o procurador-geral deixa o cargo no dia 17 do mês que vem e corre contra o tempo para apresentar nova denúncia contra Temer nesta ou na próxima semana. É possível, portanto, que Temer esteja ainda na China quando a denúncia for apresentada.

Ainda mais após a nova denúncia apresentado por Janot contra o líder do governo no Congresso, o senador Romero Jucá. Desta vez, pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato. Na semana passada, Jucá foi denunciado em um desdobramento da Operação Zelotes e também por suposto envolvimento no esquema de corrupção na Transpetro.

Assim, enquanto os investidores aguardam a aprovação final da nova taxa de juros de longo prazo (TLP) e a votação sobre a mudança das metas fiscais, Janot movimenta as peças do tabuleiro de xadrez para avançar novamente contra “rei” Temer, salvo no início deste mês pelos “súditos” na Câmara. A nova denúncia pode atrapalhar a agenda do governo no Congresso, que tem prazo apertado, e pode evidenciar a perda de fidelidade dos aliados.

Hoje, os deputados devem retomar a discussão sobre a reforma política e avançar no programa de parcelamento de dívidas (Refis), com a presidência da Câmara sendo assumida de forma interina pelo deputado André Fufuca (PP-MA). Por ora, o governo concentra esforços na aprovação das novas metas fiscais de 2017 a 2020, hoje, e na criação da nova taxa de juros de longo prazo (TLP), amanhã.

O agora presidente interino da República, Rodrigo Maia, afirmou que seguirá articulando com os parlamentares para aprovar as reformas mesmo distante da Câmara, mas a falta de experiência de Fufuca, deputado de 28 anos e no primeiro mandato, pode ser risco à expectativa de “parceria” do governo com o Congresso nesta semana. Ainda mais diante de votações tão importantes.

Em contraponto à agenda política intensa, o calendário econômico doméstico desta terça-feira segue fraco. Entre os indicadores, saem a sondagem da indústria em agosto (8h), o índice de preços ao produtor em julho (9h) e o resultado das contas públicas (governo central) no mês passado (14h30).

No exterior, as poucas sinalizações dos banqueiros centrais Janet Yellen (Federal Reserve, Fed) e Mario Draghi (Banco Central Europeu, BCE) deixam os mercados internacionais com oscilações menos claras e direcionais, à espera de dados econômicos relevantes nos próximos dias. Hoje, destaque apenas para a confiança do consumidor norte-americano em agosto (11h).

A combinação desastrosa da tempestade tropical Harvey com o novo teste com míssil norte-americano espalha perdas entre as bolsas, com quedas de mais de 1% na Europa e sinalização de um mergulho profundo em Wall Street, em meio aos receios quanto à reação do presidente norte-americano Donald Trump após a nova provocação de Pyonyang. Com isso, o ouro é tido como refúgio, assim como o franco suíço e o iene.

O Japão chamou a última investida de Kim Jong Un de uma “ameaça sem precedentes, grave e séria”, o que pode levar a ações mais firmes por parte dos aliados no Ocidente. O novo míssil que sobrevoou o território japonês traz de volta à tona a possibilidade de confronto entre EUA e a Coreia do Norte, reduzindo as chances de negociações diplomáticas. Nesse ambiente, os investidores montam posições defensivas.

Jornalista, especializada em Economia, trabalha há 10 anos na cobertura de notícias em tempo real sobre macroeconomia e mercado financeiro, nacional e internacional. Atuou como editora na Agência Estado (Broadcast/Estadão) e atualmente é repórter sênior na Agência CMA. Também é responsável pela produção de artigos publicados no blog A Bula do Mercado (www.oliviabulla.com.br), que faz um resumo diário do que mais importante acontece no mercado financeiro e na economia. É Mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), onde estudou a construção de sentido no Jornalismo através do uso dos números na notícia, e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Tem fluência em inglês, espanhol e possui conhecimento avançado em mandarim (chinês).
Acesse: http://www.oliviabulla.com.br/
Contate: contato@oliviabulla.com.br

Deixe um comentário

Esta área do website ADVFN.com é destinada para comentários e anáises individuais independentes. Estes blogs são administrados por autores independentes através de uma plataforma de alimentação comum, não representando as opiniões da ADVFN. A ADVFN não monitora, aprova, altera ou exerce controle editorial sobre estes artigos, não aceitando, portanto, ser responsabilizada por tais informações. As informações disponibilizadas no website ADVFN.com destina-se para sua informação em geral mas não, necessariamente, para suas necessidades particulares. As informações não constituem qualquer forma de recomendação ou aconselhamento por parte da ADVFN.COM.