Pré-Market: Feriado antecipa tensão

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A semana começa em ritmo lento nos mercados financeiros, por causa do feriado nos Estados Unidos (Labor Day), o que esvazia os negócios no exterior hoje, em meio à escalada da tensão com a Coreia do Norte após teste com arma nuclear. No Brasil, a pausa na quinta-feira pelo Dia da Independência, esvaziando a sessão local na sexta-feira, concentra as atenções nos eventos econômicos previstos até quarta-feira, mas a nova denúncia contra o presidente Michel Temer pode acontecer a qualquer momento.

Enquanto o foco dos investidores está na decisão do Banco Central sobre a taxa de juros (Selic), a ser anunciada na noite que antecede o feriado nacional, e também nos dados de inflação no atacado (IGP-DI) e no varejo (IPCA) que serão conhecidos na manhã do mesmo dia, é grande a expectativa no mundo político pela nova denúncia que o procurador-geral da República (PGR), Rodrigo Janot, deve oferecer contra o presidente.

Não há data definida sobre quando tal fato deve acontecer, mas o receio de que a denúncia torne-se pública nos próximos dias levou Temer a cogitar uma antecipação do retorno ao Brasil. Na China desde a semana passada, o presidente decidiu contar com o benefício do fuso horário no outro lado do mundo na viagem de volta ao país e manteve a programação, saindo do país asiático amanhã à tarde (hora local).

Com isso, o presidente deve chegar aqui na virada de hoje para amanhã. Durante a permanência por lá, Temer foi recebido com honrarias de chefe de Estado em Pequim e participou de eventos da Cúpula dos Brics, na cidade de Xi’an, onde também reuniu-se com empresários dos cinco países que compõem o acrônimo criado por Jim O’Neil no início dos anos 2000 – originalmente formado apenas por Brasil, Rússia, Índia e China.

Mas durante os compromissos oficiais, o presidente procurou manter-se informado do noticiário local e acompanhou a expectativa de que Janot deve denunciá-lo novamente assim que for feita a homologação da delação do doleiro Lúcio Funaro. Com isso, o governo já prepara o discurso de que a nova acusação é baseada somente em “ilações” – ou seja, sem provas…apenas com convicções.

Até por isso, os mercados domésticos não exibem grandes preocupações e estão cada vez mais convictos de que o presidente cumprirá o mandato até 2018, aprovando as reformas – a nova taxa de juros de longo prazo (TLP) e as novas metas fiscais devem ser concluídas nesta semana. Os sinais de retomada da economia, com o Produto Interno Bruto (PIB) do país crescendo pelo segundo trimestre consecutivo, somados à chance menor de mais um aumento dos juros norte-americanos ainda neste ano, mantêm elevado o apetite por ativos de risco.

Com isso, a Bovespa é negociada nos maiores níveis em seis anos e o dólar é cotado abaixo de R$ 3,15. Como pano de fundo, está o comportamento benigno da inflação, que permite a manutenção de um ciclo agressivo de cortes na Selic. A taxa básica de juros deve cair mais um ponto porcentual (pp) nesta semana, atingindo o menor nível desde maio de 2013, já na faixa de 8%, e devendo cair um pouco mais.

Novas revisões para as principais variáveis macroeconômicas – PIB, IPCA, Selic e taxa de câmbio – podem ser trazidas na pesquisa semanal do BC com o mercado financeiro, o boletim Focus (8h25). Amanhã, serão conhecidos os primeiros dados oficiais sobre a atividade no segundo semestre deste ano, com os números da produção industrial em julho dando pistas sobre o ritmo da economia no início da segunda metade de 2017.

Na quarta-feira, além da reunião de setembro do Comitê de Política Monetária (Copom), do IGP-DI e do IPCA de agosto, tem os indicadores antecedentes da indústria automotiva (Anfavea). Depois, o calendário doméstico fica vazio, em razão do feriado.

Já no exterior, o grande evento da semana está previsto justamente para quinta-feira, quando o Banco Central Europeu (BCE) decide sobre a taxa de juros na zona do euro. Após não tecer qualquer comentário de política monetária em Jackson Hole (EUA), a expectativa é de que o presidente do BCE, Mario Draghi, recue em relação à retirada dos estímulos.

Os indicadores da região da moeda única sobre atividade – em especial o PIB, na terça-feira – tendem a calibrar as apostas sobre uma postergação do aperto da política monetária do BCE, via o programa de compra de ativos. Dados de atividade em países europeus e asiáticos também são esperados neste início de semana, com destaque para o PIB do Japão, na quinta-feira.

Na China, merecem atenção números sobre a inflação ao produtor (PPI) e ao consumidor (CPI) em agosto, na sexta-feira, além dos dados da balança comercial, nos próximos dias. Já nos EUA, a agenda econômica está bem mais fraca e traz dados de atividade ao longo da semana, juntamente com o Livro Bege do Fed, na quarta-feira.

Em meio à essa agenda forte em uma semana mais curta, no Brasil e nos EUA, os investidores se preparam, montando posições mais defensivas. A busca por proteção em ativos seguros, como o ouro e o iene, marca esta segunda-feira, diante da possibilidade de o presidente norte-americano, Donald Trump, adotar novas sanções econômicas contra a Coreia do Norte, que teria testado uma bomba de hidrogênio no domingo.

Os índices futuros das bolsas de Nova York estão no vermelho, mas não haverá sessão em Wall Street hoje. Ainda assim, as principais bolsas europeias seguem a sinalização vinda de lá e também acompanham as perdas registradas na Ásia. O petróleo oscila em baixa. A exceção fica com os metais básicos, que estendem os ganhos, com o cobre negociado no maior nível em três anos e o níquel no valor mais alto em dois anos.

Ainda assim, as opções militares a serem utilizadas pelos EUA e relatos de que Pyongyang estaria preparando o lançamento de um míssil balístico intercontinental inibem o apetite por risco. Mas qualquer movimento nos negócios deve ter vida curta, uma vez que a tensão entre os dois países tem se dissipado rapidamente.

A não ser que haja uma resposta global, o que ainda se mostra pouco provável. Com isso, apenas a volatilidade em bolsas, moedas e commodities tende a crescer, o que pode culminar em uma correção mais severa à frente. Assim, o melhor é manter o dinheiro em caixa, à espera do que está por vir…

Jornalista, especializada em Economia, trabalha há 10 anos na cobertura de notícias em tempo real sobre macroeconomia e mercado financeiro, nacional e internacional. Atuou como editora na Agência Estado (Broadcast/Estadão) e atualmente é repórter sênior na Agência CMA. Também é responsável pela produção de artigos publicados no blog A Bula do Mercado (www.oliviabulla.com.br), que faz um resumo diário do que mais importante acontece no mercado financeiro e na economia. É Mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), onde estudou a construção de sentido no Jornalismo através do uso dos números na notícia, e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Tem fluência em inglês, espanhol e possui conhecimento avançado em mandarim (chinês).
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