Juro pode cair para 7,5% na quarta; setor externo, mercado aberto, crédito e resultados fiscais na semana

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O mercado acompanha ao longo da semana importantes movimentos e divulgações do Banco Central (BC), com destaque para reunião do Copom terça e quarta-feira, na qual se espera novo corte do juro básico Selic, hoje de 8,25%. A projeção quase unânime do mercado é de corte de 0,75 ponto percentual, de 8,25% para 7,50%. Se vier um percentual diferente de corte, para mais ou para menos, os mercados em geral, e os de juros futuros principalmente, devem ter fortes oscilações. Mas, já na segunda-feira, as atenções estarão sobre relatório das operações realizadas no mercado aberto pelo BC (setembro), que informa a respeito da venda de títulos federais e perfil da dívida pública mobiliária federal interna no período.

Também na segunda-feira, o Ministério do Desenvolvimento divulga o resultado comercial do Brasil com o exterior e, na quinta-feira, será conhecido o resultado primário do Governo Central, que reúne BC, Previdência e Tesouro Nacional. Sexta-feira sai a Nota de Crédito de setembro, relatório com os dados de empréstimos feitos pelos bancos e o total de crédito no mercado financeiro. No dia 25, o banco Santander Brasil apresenta seu balanço com dados relativos ao terceiro trimestre.

Denúncias ainda agitam cena política

No cenário político, o destaque é a votação na quarta-feira, no plenário da Câmara dos Deputados, de parecer do deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) contrário à segunda denúncia contra o presidente Michel Temer e os ministros Eliseu Padilha, da Casa Civil, e Moreira Franco, da Secretaria-Geral da Presidência. Os três foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por organização criminosa com base nas delações de Joesley Batista e do operador financeiro Lúcio Funaro. As projeções do governo sinalizam que Temer tem maioria para barrar a segunda denúncia, que resultaria em seu afastamento do cargo, como já fez com a primeira.

Analistas do Banco Fator lembram que serão necessários 342 votos a favor da denúncia para esta chegar ao Supremo, quadro altamente improvável. Portanto, essa pressão sobre o governo tende a acabar na semana que vem, mas deixando desgastes, como despesas com barganhas políticas e paralisação de trâmites das reformas econômicas. Na semana passada, reportagem do jornal Folha de S.Paulo informou que a equipe econômica teria aceitado aprovar uma reforma da Previdência mais modesta, “desidratada”, para conseguir algum avanço no ajuste das contas do INSS.

Selic: ritmo mais lento de redução 

Para os economistas do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depec) do Bradesco, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC deve promover outro corte na Selic, desta vez de 0,75 ponto percentual (o anterior foi de 1 ponto), com sinalização de nova redução no ritmo para a próxima reunião. “Acreditamos que o cenário benigno para inflação e a retomada gradual da atividade permitirão a continuidade dos cortes de juros em 50 b.p (0,50 ponto percentul) e 25 b.p (0,25 ponto percentual) respectivamente, nas reuniões de dezembro e fevereiro, finalizando o ciclo com Selic a 6,75% ao ano”, ressaltam.

Previsões de corte entre 0,75 e 1 ponto 

Analistas da Rosenberg Associados acreditam que, como o cenário tem se mostrado semelhante ao antecipado pelo BC em sua última reunião, haverá redução moderada do ritmo de cortes nesta reunião, de 1 ponto percentual para 0,75 ponto.
A Gradual Investimentos está mais otimista e estima corte de 1 ponto percentual, de 8,25% para 7,25% ao ano; a LCA, redução de 0,75, para 7,50% ao ano. O Banco Fator prevê corte de 0,75, e Selic de 7% até o final do ano.

O banco suíço UBS também prevê nova dimunição do patamar de juros. “Esperamos que o BCB reduza a taxa de referência Selic em 75 bps, para 7,5% ao ano, no contexto de uma economia que se recupera lentamente (…), inflação ainda muito abaixo do alvo, mas com alguma expectativa de reação à frente”, afirma em relatório a clientes.

Notas sobre o setor externo, crédito, mercado aberto e resultado fiscal

Os economistas do Depec, do Bradesco, estimam para o resultado primário (sem contar os juros da dívida) do Governo Central em setembro um déficit de R$ 21 bilhões. Já sobre o resultado do balanço de pagamentos, a equipe acredita que deve seguir mostrando grande “folga” nas contas externas; para os dados do mercado de crédito, a estimativa é que eles deverão indicar “expansão gradual das concessões”.

Em relação ao setor externo, relatório do Fator destaca os dados de contas correntes internacionais, que em agosto registraram significante queda no déficit. “Estimamos que este déficit aumente em setembro”, afirma a análise. Considerando o que poderá ocorrer no resultado primário do Governo Central, a equipe do banco lembra que o Governo Federal, seja pela arrecadação novamente acima do esperado ou pelas devoluções de empréstimos do BNDES, que estão sendo acordadas, parece se aproximar da meta fiscal deste ano. “Estimamos para o resultado do governo central déficit primário de R$ 23,949 bilhões, o que, se concretizado, levaria o acumulado de 12 meses a um déficit de R$ 169,81 bilhões, quase 10 bilhões abaixo da meta estabelecida”.

Balança comercial e investimento direto

Para a equipe da Rosenberg Associados, com o superávit da balança comercial de US$ 5,2 bi em setembro, a expectativa é que a conta de transações correntes tenha superávit ao redor de US$ 0,1 bilhão (resultado melhor que o déficit de US$ 0,5 bilhão de setembro de 2016). “Apesar do resultado melhor da balança comercial em relação a set/16 (US$ 3,6 bilhões), teremos um aprofundamento do déficit em serviços (com nota para viagens) e também de rendas (destaque para lucros e dividendos).” Para o investimento direto no país, a consultoria estima entrada líquida de US$ 6 bilhões.

Crédito: melhora gradual nas concessões

Com relação à nota de crédito de setembro, a Rosenberg também  estima continuidade da melhora do crédito à pessoa física, como já visto nos últimos dados (especialmente na concessão).

Os analistas do Fator, no entanto, ressaltam que as operações de crédito do sistema financeiro continuam em retração — com saldo total de R$ 3,047 bilhões em agosto, queda nominal de 0,1% em relação ao mesmo mês do ano passado. A relação crédito/PIB declinou 0,1 ponto percentual, para 47,1%. A taxa de inadimplência (pessoa física), por sua vez, caiu para 4%, frente a 5,7% em julho. Os juros e spreads caem, com exceção de leve alta nos spreads para pessoa jurídica. Os indicadores de atividade corrente, crédito para capital de giro (empresas) e para aquisição de veículos (famílias) continuam estagnados em R$ 300 bilhões, bem abaixo de meados de 2015 (R$ 386 bilhões).

Já para o resultado primário do Governo Central de setembro, a Rosenberg lembra que, sazonalmente, o mês conta com déficits e, neste mês, estima um déficit de R$ 20,2 bilhões, menor do que o observado em setembro do ano passado, de R$ 25,9 bilhões (em termos reais). “A boa arrecadação deve colaborar para esta leve melhora do resultado”, dizem os analistas.

Confiança da indústria e do consumidor

O BB Investimentos e o Banco Fator lembram ainda que serão conhecidas na semana sondagens da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Fundação Getulio Vargas (FGV) que podem indicar otimismo do mercado. A FGV divulgará dia 25 suas sondagens para o consumidor, comércio e construção, enquanto a CNI apresentará segunda-feira, 23, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) e a sua sondagem da construção.

Impacto menor da política nas expectativas

Para a equipe do Fator, apesar de uma análise mais geral mostrar percepção do mercado “da péssima situação atual”, mantendo estes indicadores ainda bem abaixo dos indicadores de confiança e expectativa, as crises políticas já não parecem mais ter o mesmo impacto que a primeira delação dos irmãos da JBS. “Deste modo, estes indicadores não voltaram a ter grandes quedas com o novo processo contra Temer, por exemplo. O indicador de expectativas demostra crescimento em quase todos os setores, mostrando otimismo do mercado na recuperação da economia”, diz relatório do banco.

De olho no Focus

Pela segunda semana seguida, afirma relatório do Fator, o valor do IPCA de 2017 deve subir, desta vez para 3%. As expectativas para 2018 se mantêm em 4,02% e o câmbio em leve apreciação, para R$ 3,16.

Cenário externo: saem dados de PIB dos EUA e Reino Unido

Na agenda internacional, o Depec-Bradesco destaca as primeiras estimativas do PIB do terceiro trimestre dos EUA (sexta-feira) e Reino Unido (quarta-feira). Os indicadores continuaram a apontar para o forte crescimento global. “Esperamos expansão em relação ao trimestre anterior de 0,6% da economia americana e 0,3% para o PIB do Reino Unido”, diz a equipe do Depec.

Reunião no BCE sinaliza política monetária

Destaque ainda para reunião do Banco Central Europeu (BCE), no dia 26. A expectativa, de acordo com a equipe da Rosenberg, é que Mario Draghi, presidente do BCE, sinalize a extensão e diminuição do ritmo de compras e ativos da instituição. “Notável que a política monetária na Europa se descolou da observada nos EUA, que iniciou no começo deste mês o processo de enxugamento de seu balanço (de incentivos ao mercado) e vem subindo juros gradualmente desde dezembro de 2015; não se espera subida de juros na Europa antes de 2019”, avaliam.

Mercados de risco: volatilidade lá fora e aqui

A próxima semana se apresenta como complicada para determinação da tendência de curto prazo dos mercados de risco. Há expectativa de volatilidade, tanto no segmento local  quanto no internacional. A avaliação é de Alvaro Bandeira, economista-chefe da Home Broker Modalmais.

Ele destaca, no segmento doméstico, a votação da segunda denúncia contra o presidente Temer e dois de seus principais ministros. “Não é de se esperar nenhuma surpresa e a denúncia não deve prosseguir até o STF (…); porém, a votação deve ser um pouco mais desfavorável que a primeira, já que os parlamentares indicam que algumas promessas não foram cumpridas”. Além disso, lembra Bandeira, o presidente é criticado por usar a estrutura do governo para se manter no cargo, com distribuição de benesses, o que custa caro e gera ineficiências na administração pública.

Mudanças na economia japonesa e incertezas na Europa

Já no cenário externo, diz o analista, se prevê notícias importantes sobre a reunião do Partido Comunista chinês a respeito do comportamento da economia, mas não se espera grandes mudanças e nem forte desaceleração do crescimento. São previstas mudanças no Japão, com o fortalecimento de Shinzo Abe como primeiro ministro na eleição do final de semana e implantando mais medidas para acelerar a economia. Na Europa, continua a preocupação com Brexit e com a situação da Catalunha.

Ibovespa ainda com espaço para evoluir

“Tudo isso posto, somos da opinião de que os mercados ainda têm espaço para evoluir em alta, o mesmo acontecendo com commodities. No Brasil, deveríamos passar e consolidar a passagem por 77.300 pontos do Ibovespa, e abrir objetivo maior para a faixa de 78.800 pontos”, conclui Bandeira.

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