O feijão com arroz do retrocesso

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Ao final da década de 80, a situação era de caos. A condução da política econômica tornou-se uma tarefa complicada. A moratória da dívida externa ocorreu há mais de 30 anos, em fevereiro de 1987, e até hoje deixa máculas na reputação do Brasil no mercado internacional. Naquela época, o governo Sarney foi abatido pela fraca credibilidade e a economia brasileira sofria de desequilíbrios gerados pela política do feijão com arroz e o Plano Verão. Em 1988, a inflação registrou 980,2% e, ao final de 1989, saltou para 1.973%. Não foram solucionados quaisquer dos conflitos relacionados à distribuição de renda ou atacados os desequilíbrios estruturais da economia que poderiam ser considerados focos de pressão inflacionária a médio prazo. A política monetária foi predominantemente acomodatícia.

Hoje, a inflação está controlada e deixou de ser o principal problema da economia brasileira. O IPCA do mês de setembro, segundo o IBGE ficou em 0,16% e deve fechar o ano próximo ao centro da meta. No entanto, o governo de transição, também pmdebista, deixa como legado o caos fiscal, os conflitos distributivos e os desequilíbrios estruturais. Temer repete o passado e retoma a política do feijão com arroz: empurra os problemas com a barriga até chegar o salvador da pátria, quiçá um novo Collor. “Naquela época precisávamos vender primeiro o Brasil para convencer o estrangeiro a investir em uma empresa aqui. Com a estabilidade econômica que se manteve nos anos anteriores à crise e ao impeachment, já não era necessário. Atualmente, a imagem do país está prejudicada e voltamos a ter que falar primeiro do país para depois demonstrar o negócio”, explica o especialista em M&A da Okto Finance, David Denton.

Não é à toa. Depois da chocante votação do impeachment na Câmara, em que deputados, ao votar, evocaram de Deus a demônios recém-desencarnados, a família e até a própria “imagem imaculada dos políticos”, muitos investigados pela Lava Jato, o Brasil se destacou no mercado internacional, obviamente, não de maneira positiva. Denton relata que, na segunda-feira, seguinte à votação, três negociações com estrangeiros conduzidas ao longo de meses, foram encerradas pelo telefone. Ninguém quer investir num lugar que não é sério. A tendência que se mostra é de volatilidade no câmbio, que terá picos de alta e baixa de acordo com a corrida presidencial.

Em primeiro lugar nas pesquisas está Lula. A imagem do ex-presidente, antes visto como “o cara” no mercado internacional, foi arranhada pelas acusações de corrupção e não se sabe nem se ele terá condições de concorrer. Os outros possíveis presidenciáveis são desconhecidos aos olhos dos estrangeiros, que sem informação, preferem o novo. Que novo? No debate político não se ouve falar quais seriam as saídas para tirar o país da crise. Os brasileiros esperam um super-herói conservador e este, por falar tanto sobre o tema, deve ter algum conhecimento sobre controle da sexualidade dos outros. Talvez consiga mesmo transformar todos em heterossexuais – se é que isso é necessário –, mas, quanto à economia… Quem comporá a equipe? Coronéis?

Em 1990, um outro super-herói assumia o poder com um pacote econômico que até hoje faz os com mais idade grasnar. Houve a moratória interna, com o confisco da poupança. Afinal, alguém tem que pagar a conta. O que o futuro reserva para o próximo mandato é a pergunta que não quer calar. Para Temer, que já disse não desejar continuar, a postura é fácil. O governo atual vende o almoço para pagar a janta e se mostrou incompetente para reajustar as contas públicas. A situação atual torna necessário cobrar dívidas dos outros antecipadamente ou se endividar ainda mais para pagar as despesas do dia a dia.

A batata quente fica para o próximo governo. Talvez também fique a inviabilidade. Já a reforma da previdência para o mês que vem e a falência das contas públicas, ah? Essa é fácil: é culpa da Dilma. Não é uma falácia dizer que a ex-presidente deixou um legado complicado. Mas também não é verdade afirmar que este governo veio para resolver a situação. As pedaladas ficaram para trás. Agora, o assunto é a regra de ouro. Quanto mais as eleições se aproximam, maior é a paralisia do governo atual. E a história se repete.

Ana Borges e Maurício Palhares são diretores da Compliance Comunicação

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação. Atuando como jornalista, vem acompanhando nos últimos 15 anos o dia a dia do mercado financeiro. Também é graduada em Economia pela UFRGS e pós graduada em Finanças pela FIA. Leciona no as disciplinas Estratégias Econômicas Empresariais, Finanças Internacionais, Políticas Econômicas e Administração Financeira, no Senac-SP.
Acesse: http://www.compliancecomunicacao.com.br

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