Bitcoin: a nova bolha

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Com valorização de cerca de 1800% em dólares, somente no ano de 2017, a criptomoeda mais famosa do mundo trouxe alegria a seus proprietários. Mas, sabe-se que, em termos de investimentos, tudo que vem fácil, vai fácil. A moeda virtual bateu US$ 18 mil, voltou para US$ 16.500 e, até poucas horas antes do fechamento desta coluna estava em US$ 17.800. O estouro maior ocorreu há poucos dias, quando a Bolsa de Chicago começou a operar contratos futuros do ativo. No início do mês de dezembro, a cotação estava ao redor de US$ 11 mil e a alta anual era de 900%.

A especulação ao redor da criptomoeda, que tem atraído investidores de todos os tipos, desde os que têm experiência no mercado financeiro àqueles avessos ao risco, levou o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, a alertar que a alta se caracteriza como uma bolha ou pirâmide.

O movimento atual desse mercado é típico de bolha, como ocorreu com as Tulipas na Holanda, a partir de 1600, na crise de 1929, e no mercado imobiliário norte-americano, em 2008. Nestes casos, e em muitos outros, que marcaram a história econômica internacional, há um interesse crescente no ativo, que leva à sua forte valorização, atraindo novos investidores, até que os novos entrantes compram por um preço tão alto que não conseguem mais vender. Aí, a pirâmide cai.

A última edição da Revista RI compara o movimento à teoria do mais tolo, que pode ser resumida em poucas palavras: o tolo compra um ativo caro, sabendo que está pagando mais do que deveria porque acredita que há um mais tolo que ele que pagará mais ainda.

Mas, o que diferencia a Bitcoin de outros ativos? Segundo alguns especialistas, o ineditismo. “Não há parâmetros para compararmos o comportamento das criptomoedas com outros ativos. Estudos demonstram que há cada vez menos pessoas querendo vender”, diz o estrategista-chefe da Eleven Financial, Adeodato Volpi Netto, em entrevista à Revista RI. “É cedo para classificar esse movimento como bolha, mas merece atenção porque não existia e sua dinâmica não é conhecida”, acrescenta.

Andrew Kenningham, chefe de economia global na Capital Economics, em uma nota para seus clientes, comparou a bolha holandesa das Tulipas com a atual. “Como o Bitcoin, as tulipas se tornaram populares por causa de sua estranheza e raridade e porque eram novas, advindas do Império Otomano no fim do século 16”, afirmou. O contraste entre as plantas e a criptomoeda é claro. A Tulipa servia apenas para ornamento, enquanto a Bitcoin ainda é uma incógnita, mas entre suas serventias estão pagamentos não rastreáveis muito úteis para o tráfico de drogas, de crianças, de mulheres, extorsões praticadas por hackers e afins.

Rodrigo Batista, CEO da Mercado Bitcoin, comenta que o que está ocorrendo no momento é busca pelo preço real do ativo, que, mesmo neste estágio, passa a ser usado como uma reserva de valor, característica do ouro, que movimenta trilhões de dólares no mundo. “Hoje, o mercado vale cerca de US$ 300 bilhões. É pouco? É muito? Na verdade, seu valor ainda está para ser descoberto. É uma forma de guardar riqueza mais acessível que o ouro”.

Mesmo assim, muitos ativos atípicos provocaram bolhas e crises econômicas, como lembra  Robert J. Shiller, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2013, por pesquisa que previu a bolha da Internet no final da década de 1990 e a bolha imobiliária americana. Para ele, os Bitcoins representarão um crash econômico semelhante ao que ocorreu com o mercado de ações dos EUA, pouco antes da grande depressão de 1929. Ele prevê que criptomoeda terá alta por um determinado período, como ocorreu no mercado de ações norte-americano durante a década de 1920 e uma queda, que será inevitável.

O valor de mercado da Bitcoin é elevado, mas pouco representativo em termos percentuais com relação a outros ativos financeiros. Neste sentido, um improvável estouro da bolha no curto e médio prazos teria pouca relevância na economia real. De acordo com Kenningham, a consequência seria de menos de 1% do efeito de uma bolha no mercado de ações. Porém, se o movimento continuar tão forte quanto hoje, os riscos para a economia aumentam. Quanto mais envolvidos no mercado, maior o potencial de perda. É uma bolha e pode se tornar mais catastrófica no futuro, pois, em algum momento, vai estourar.

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