Pré-Market: Tensão eleitoral

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O feriado nesta segunda-feira nos Estados Unidos abre espaço para os mercados domésticos assimilarem melhor o impacto do rebaixamento da nota de crédito soberano (rating) do Brasil pela S&P no ambiente político, após assumirem na sexta-feira o discurso de que a notícia pode ser positiva para dar senso de urgência ao Congresso na aprovação da reforma da Previdência. Apesar do impacto limitado nos negócios locais, os investidores (e o governo) sabem que a tensão eleitoral pode atrapalhar o andamento da pauta econômica, piorando um pouco o cenário de recuperação da atividade.

Os ativos brasileiros também podem ser afetados pelo volume financeiro mais baixo, neste Dia de Martin Luther King Jr., que mantém as bolsas de Nova York fechadas. O fim de semana prolongado em Wall Street desloca as atenções para a Ásia, onde a China anuncia os dados de atividade – incluindo PIB, investimentos, produção industrial e vendas no varejo – na virada de quarta para quinta-feira.

É o grande destaque de uma agenda econômica esvaziada ao longo da semana no exterior, que traz ainda dados de inflação na Europa e de confiança do consumidor nos EUA, além da produção industrial no país. A temporada norte-americana de balanços também merece atenção, com os resultados das empresas no quarto trimestre devendo apresentar crescimento de dois dígitos no lucro líquido e fortes previsões para 2018.

À espera desses eventos, os mercados internacionais mantêm o tom positivo. As bolsas da Ásia iniciaram a semana em alta, em meio ao otimismo com o crescimento econômico global. Mas as praças na China ficaram no vermelho, após os sucessivos recordes acumulados pelo índice acionário em Hong Kong. Xangai foi penalizada pelo avanço do yuan chinês ao maior nível em quase dois anos.

O iene e o euro também ganham terreno, diante das apostas dos investidores de que os bancos centrais japonês (BoJ) e da zona do euro (BCE) irão reduzir os estímulos monetários às regiões. O enfraquecimento insistente do dólar beneficia as commodities, sendo que o barril do petróleo WTI continua negociado acima de US$ 64, ao passo que o barril do Brent tenta se sustentar na faixa de US$ 70. Os metais básicos também avançam.

No Brasil, o calendário econômico também está mais fraco, o que desloca o foco para o ambiente político. Em Brasília, a indefinição sobre quem será o candidato da situação, que irá emplacar uma agenda reformista durante a campanha eleitoral, deixa uma tensão no ar. De olho na vaga que será aberta na Presidência da República, o atrito entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, pode inviabilizar a votação da reforma da Previdência, meta principal do governo para este ano como proposta de ajuste das contas públicas.

O presidente Michel Temer tenta se colocar como um agente importante na movimentação dos candidatos, mas tampouco se pode descartar as pretensões eleitorais dele. Se as pesquisas sobre a avaliação do governo alcançassem ao menos dois dígitos de popularidade, chegando a 10%, não se pode dizer que cresceriam as chances dele tentar ficar mais quatro anos. Se não for ele, o preferido é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o que sinaliza que o embate político pode ser crescente até a data limite para a saída de cargos, em  abril.

Os deputados também estão mais interessados nos cargos que serão disputados em outubro, e não devem ser motivados por uma piora na avaliação do risco de calote do país para mudar sua postura em relação às novas regras para aposentadoria. Cada vez mais, a pauta parece ser algo que só a equipe econômica quer aprovar. Assim, as chances de aprovação da reforma da Previdência na Câmara segue em torno de 30%, e o maior comprometimento de não fazer reformas ficará para quem for eleito em 2019.

Por isso, os mercados ainda aguardam a definição do outro principal vetor para os ativos brasileiros neste ano, que é o julgamento do ex-presidente Lula no TRF4, na semana que vem (dia 24). Afinal, para os investidores, pior do que uma nota BB- para o Brasil, é um placar de 2 a 1 no caso do tríplex do Guarujá (SP). A aposta é de que um resultado unânime por 3 a 0 pode estimular os negócios locais novamente, uma vez que tiraria o petista da corrida presidencial deste ano.

Com isso, o processo eleitoral teria uma disputa menos polarizada, fortalecendo um candidato reformista, de centro. O entendimento do mercado é que o próximo presidente eleito terá de fazer reformas ainda mais profundas, e em muitas áreas, de modo a resgatar a credibilidade sobre as contas públicas. Afinal, agora, a avaliação das outras duas agências de classificação de risco, Fitch e Moody’s, passa a ser o fator novo para os mercados – embora o rebaixamento em um degrau seja o mais esperado.

Contudo, embora o mercado esteja apostando firme em cima da decisão no processo em segunda instância contra Lula, é arriscado avaliar que o trâmite jurídico para decidir sobre o futuro do ex-presidente (e das eleições de 2018) será tão curto. Ao contrário. O processo pode ser longo e complexo, sem um desfecho já daqui a cerca de dez dias. Um resposta definitiva pode sair só no segundo semestre deste ano, sendo que não se descarta a hipótese de ele se lançar candidato e só depois saber o veredicto final.

Diante desse cenário, os economistas refazem suas projeções e a o relatório de mercado Focus, do Banco Central, pode trazer alguma novidade. O documento sai logo cedo (8h25), juntamente com os números do novembro do índice de atividade do BC (IBC-Br), que compila o desempenho dos setores industrial e de serviços, além do varejo, a fim de aferir o ritmo da economia. À tarde, tem os dados semanais da balança comercial (15h). Ao longo da semana, saem leituras de alguns índices de preços (IGPs) e também são esperados os números da arrecadação de impostos em 2017.

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