Semana terá juro caindo para 6,5%, IPCA-15, atividade do IBC-Br e juros nos EUA

LinkedIn

Por Sandra da Motta*

A agenda da semana traz importantes decisões de política monetária, tanto no Brasil como nos EUA, ambas com reuniões que começam na terça e terminam na quarta-feira, mas em direções contrárias. Segundo a maioria dos analistas, a tendência é que por aqui o Comitê de Política Monetária (Copom) promova novo corte na taxa básica de juros Selic, de 6,75% ao ano para 6,50%, encerrando assim o ciclo de cortes de juros iniciado em 2016, quando a taxa estava em 14,25% ao ano. Já o Federal Reserve (Fed), Banco Central americano, poderá ir na direção oposta e elevar os juros dos Fed Funds, a taxa básica de lá, com projeções apontando para alta de 1,5% para 1,75%  —  mantendo aberta a porta para quatro altas em 2018 e abrindo a possibilidade de pressão sobre o fluxo de recursos para os países emergentes.

Mais do que a decisão no Brasil e nos EUA, porém, os mercados estarão atentos aos comunicados que acompanharão os anúncios, que podem trazer pistas sobre o comportamento futuro dos juros nos dois países. Começam a aumentar as apostas em outro corte de juros no Brasil, para 6,25%, mas ainda de forma muito discreta. A maioria ainda espera que os juros fiquem em 6,5% até o fim deste ano, pelo menos.

O mercado local também estará de olho no nível de atividade (janeiro) a ser apontado segunda-feira pelo IBC-BR, do Banco Central, e na prévia da inflação oficial de março, medida pelo IPCA-15,  que será divulgada sexta-feira (23) pelo IBGE.

Cenário eleitoral ainda longe de definições

No cenário político, a eleição presidencial deverá manter as atenções ao longo da semana, embora ainda se esteja longe de definições — com muitas especulações envolvendo desde o presidente Michel Temer ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

Temer, segundo a manchete deste domingo do Estadão, a despeito de sua baixa popularidade, teria dito a interlocutores que poderá, no futuro, se candidatar à reeleição, embalado pela eventual recuperação da economia. Meirelles, por sua vez, mantém a expectativa de uma possível filiação ao MDB.

Prévias em São Paulo reforçam divisão no PSDB

Ainda no campo governista, as expectativas estão nos desdobramentos das prévias do PSDB paulista para escolher o candidato a governador na pré-candidatura de Geraldo Alckmin. A confirmação do prefeito João Doria mostrou novamente a divisão do partido, com reações contrárias dos três pré-candidatos – José Aníbal, Floriano Pesaro e Luiz Felipe d´Ávila.

Liderança histórica dos tucanos, José Aníbal afirmou que o formato da disputa favoreceu Doria. Ele chegou a pedir, na Justiça, a anulação das prévias. Em relação a Alckmin, que defendia o nome do vice-governador Márcio França (PSB) para sua sucessão, fica a expectativa de como ele se conduzirá no processo, que deverá deixar sequelas na sigla.

Pressões contra a prisão de Lula e protestos pelo assassinato de Marielle

No lado da oposição, o ambiente também é marcado por incertezas. Sobretudo em relação a Lula, com os advogados do ex-presidente e lideranças de seu partido, o PT, buscando articulações e tentando colocar o julgamento de habeas corpus na pauta do  Supremo Tribunal Federal (STF) e, assim, evitar que seja preso até o fim do mês.

O governo Temer deve, ainda, sofrer desgaste por conta de manifestações, previstas para os próximas dias, em protesto contra o assassinato, no Rio de Janeiro, da vereadora do PSOL, Marielle Franco. A morte da vereadora poucos dias depois de Temer decretar a intervenção na segurança do Rio causou um grande desgaste para o presidente, mostrando que a medida está sendo inócua ou até mesmo favorecendo os grupos de extermínio ligados a policiais militares.

Inflação arrefece e atividade econômica deve melhorar na comparação anual

O Departamento de Estratégias de Investimento do Credit Suisse (CS) projeta para o  IPCA-15 variação de 0,13% em comparação com o mês anterior e expansão do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC–Br) de janeiro de 3,0% ante janeiro de 2017.

A equipe de economistas do Santander espera crescimento de 3,2% no IBC-Br (comparação anual), com o indicador contraindo 0,5% no mês. Para o IPCA-15, os analistas do banco espanhol estimam uma inflação mensal de 0,08%, e desaceleração para 2,78% no acumulado em 12 meses.

“Esperamos variação de 0,12% para o IPCA-15, menor do que a variação do mês anterior, de 0,38%; na comparação em 12 meses, a inflação deve arrefecer, de 2,86% para 2,83%”, projetam os economistas da Rosenberg Associados.

De volta à comparação mensal, diz a Rosenberg, o destaque vai para a desaceleração do grupo Transportes, reflexo da reversão da pressão recente observada sobre os combustíveis. Em contrapartida, diz relatório da consultoria, o grupo Habitação deve ficar mais pressionado, em linha com o fim do efeito deflacionário sobre  energia elétrica residencial, influenciado pela queda da cobrança via bandeiras tarifárias (de vermelha para verde).

Maioria aposta em corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 6,5% ao ano

Já para a taxa Selic, a estimativa da equipe do Credit Suisse é que o Copom reduza a taxa básica de 6,75% para 6,50%. A consultoria LCA também estima queda da Selic para 6,5%, mesma projeção feita pela Rosenberg Associados.

“A ata da última reunião do Copom indicou o fim do ciclo de afrouxamento monetário, iniciado em setembro de 2016, ao assinalar que “para a próxima reunião, caso o cenário básico evolua conforme esperado, o Comitê vê, neste momento, como mais adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária”, destacam os analistas do Credit Suisse em relatório.

No entanto, lembram que a autoridade monetária manteve a possibilidade de continuidade do processo de afrouxamento monetário ao apontar em seu documento que essa visão para a próxima reunião poderia se alterar e levar a uma flexibilização monetária adicional, caso haja mudanças na evolução do cenário básico e no balanço de riscos.

“No nosso entender, o cenário evoluiu favoravelmente desde a publicação da ata, tendo em vista que a inflação corrente ficou abaixo das expectativas e as estimativas de inflação para 2018 e 2019 recuaram”, diz a equipe.

Copom avaliará inflação e poderá deixar espaço aberto para corte adicional

Assim, a previsão do CS é de manutenção da taxa básica de juros em 6,50% ao longo de 2018 e início do aperto monetário a partir do primeiro trimestre de 2019, com aumentos de 50 pontos base em cada reunião até a taxa Selic alcançar 9,0%. “Nossa expectativa para a dinâmica da taxa de juros supõe o fechamento do hiato do produto no início do próximo ano e a normalização gradual dos preços dos alimentos, fazendo com que a inflação IPCA aumente para 3,9% em 2018 e 4,5% em 2019”, dizem os economistas.

Para o Departamento Econômico do Santander, a perspectiva é que o ciclo de flexibilização monetária iniciado em outubro de 2016 continue, com a taxa Selic caindo para 6,50% ao ano. “O Copom, provavelmente, em nossa opinião, deixará a porta aberta para um corte adicional em maio, se as expectativas de inflação continuarem a cair”, destaca a equipe em seu relatório.

Agenda internacional: reunião do Fomc e eleições na Rússia

Na agenda econômica internacional o destaque, de acordo com a Rosenberg Associados e outras consultorias e bancos, deve ser a reunião do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto – EUA) — a primeira com Jerome Powell ocupando a cadeira de presidente do Fed (Federal Reserve).

“A expectativa é de uma elevação de 0,25 ponto percentual na taxa básica, apoiado no desempenho sólido da atividade econômica e do mercado de trabalho, com a estimativa de que a inflação volte a orbitar a meta de 2% no horizonte de projeção da instituição”, destaca relatório da RA, acrescentando que também deverá ser divulgada atualização das projeções de inflação, PIB, desemprego e juros.

As atenções devem se voltar também para Vladmir Putin, diz a RA, que foi alçado ao quarto mandato como presidente da Rússia. No país, lembram os analistas, há limite para uma reeleição apenas, porém o presidente ocupou o primeiro e o segundo mandato durante 1999-2008, tendo sido substituído por Dmitry Medvedev (satélite de Putin) e retornado ao poder em 2012 – com perspectiva de se manter até 2024.

Clima de guerra fria e disputa comercial deve manter volatilidade

Na avaliação de Alvaro Bandeira, economista-chefe de Home Broker da Modalmais, o cenário continua a ser de volatilidade para os mercados de risco no plano internacional, afetando o plano local, com investidores temerosos diante da possibilidade de volta da tensão internacional das chamadas guerra fria e guerra comercial. As mudanças na equipe de Donald Trump, com a saída do secretário de Estados Rex Tillerson, de visão mais ponderada que a do presidente, e sua substituição por Mike Pompeo, que comandava a agência de inteligência CIA, mais nacionalista, não ajudam a acalmar os ânimos

Além das ameaças veladas de Putin, que anunciou novos mísseis nucleares capazes de escapar dos radares dos possíveis alvos, houve o atentado contra um ex-expião russo exilado no Reino Unido, que deixou ele e a filha e um policial internados. A arma biológica usada contra eles foi criada na antiga União Soviética, o que aumentou as suspeitas contra Putin, que já havia sido acusado de mandar matar outros espiões e desafetos em território britânica. A primeira-ministra, Teresa May, expulsou 20 diplomatas russos e os russos responderam expulsando 23 britânicos.

“Neste momento, é difícil projetar o que pode acontecer a partir de decisões tomadas pelo Reino Unido contra a Rússia, apoiadas por aliados históricos como França, Alemanha e EUA”, diz o economista. Para completar, analisa Bandeira, os EUA lançaram mais sanções contra a Rússia, que promete resposta à altura.

A outra possível guerra, de caráter comercial, tem desfecho imponderável, na visão do economista. “A implementação de tarifas elevadas para o aço e alumínio, pelos EUA, pode gerar retaliações, denúncias na OMC (Organização Mundial do Comércio) e travar o comércio transnacional; no final da linha, isso pode afetar o crescimento econômico global”.

Aperto monetário pode afetar fluxo de recursos para os países emergentes

Ainda no campo das possibilidades, ele ressalta os sinais de aperto monetário por bancos centrais da Europa e EUA, podendo afetar o fluxo de recursos para os países emergentes. “No Brasil, a possibilidade é de redução da Selic em 0,25% , deixando espaço para novas quedas. Nos EUA, (temos) a expectativa de que possam elevar a taxa básica em 0,25%, mantendo aberta a porta para quatro altas em 2018.”

Para o economista, portanto, o cenário estabelecido “é de grande nervosismo e ajustes de posições”, que podem significar redução da exposição ao risco, até que o quadro esteja melhor definido.

Análise técnica: Ibovespa tem acumulação na faixa entre 87.200 e 85.000 pontos

Levando em conta a análise técnica, Bandeira avalia que o Ibovespa mostra certa acumulação na faixa entre 87.200 pontos e 85.000 pontos mas, para o final da semana, mostrou nova fraqueza. “O importante, agora, parece ser não perder a faixa de 83.700, quando pode mostrar maior precipitação; melhor seria conseguir passar o patamar de 86.000 pontos”, analisa.

*Colaborou Angelo Pavini.

Deixe um comentário