O Brasil vai bem, obrigado

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Controle inflacionário, baixa taxa de juros e discussão sobre as reformas. Estas foram algumas das questões colocadas por um economista para afirmar que o Brasil vai pegar a onda positiva e crescer nos próximos anos…

Escutei o início da palestra cética e, na verdade, pode parecer que a colunista é pessimista, mas não há como se esperar algo diferente. A instabilidade está aí. A inflação está mais que controlada por um simples fator: não há renda e, se ela se faz ausente, não há consumo. O economista em questão até lembrou… “há uma elevada taxa de desemprego, mas isso se resolve com o tempo, pois estamos no rumo certo”.

O desemprego, da casa de 13% não demonstrou recuo com a perspectiva de retomada da economia, que por ora ainda se mostra perspectiva. Claro que qualquer economista sabe que o índice de desemprego é o último a melhorar… mas a tendência se mostrou exatamente o contrário. Houve uma interrupção da queda, revertida para uma alta: ora, se a economia está indo para os trilhos e tudo vai tão bem, o desemprego deveria recuar lentamente ou ficar, no mínimo estável.

Ao mesmo tempo, é preciso lembrar o quanto a questão fiscal tem se mostrado frágil… A sonhada reforma da Previdência ficou no campo da imaginação. E, assim, deve permanecer. Quem se arrisca a votar medidas negativas em época de eleição? Falar nela, quem são os presidenciáveis? Somente esta indefinição faz com que o cenário para os próximos meses seja instável. Como empresário, você endossaria que tudo vai bem a ponto de fazer novos investimentos? Como consumidor, pensa em trocar de carro, de imóvel ou ampliar gastos neste momento?

Retoma-se a questão fiscal… Para o próximo ano, o governo prevê que registrará um déficit de “somente’ R$ 140 bilhões. O próprio ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, prevê uma melhora das contas públicas somente em 2021. Neste sentido, o próximo presidente, seja Alckmin, Lula, Bolsonaro, Barbosa, Meirelles, Marina, Boullos ou o próprio Temer, assume o país com um entrave sério: será impossível cumprir a regra de ouro e o rombo deve ficar em mais de R$ 250 bilhões. E a consequência de tal irresponsabilidade fiscal, qual seria? Impeachment.

Bem, não é esse o caso. Porque este governo já está se encarregando de dar um jeitinho para que se aprove o descumprimento da regra e a irresponsabilidade fiscal permaneça. No projeto de lei de diretrizes orçamentárias para o próximo ano, o governo colocou uma autorização para incluir receitas e despesas condicionadas à aprovação do projeto de lei de crédito suplementar ou especial.  Este ano, a regra não foi colocada de lado por conta do pagamento antecipado de R$ 130 bilhões do BNDES, mas isso é detalhe porque a responsabilidade fiscal ficou démodé. Guardia afirma que, depois de 20 anos, a regra de ouro deve ser revista. Segundo o ministro, é preciso criar mecanismos de ajustes para momentos em que não seja possível cumpri-la.

Enquanto isso, Temer quer melhorar sua imagem de vampiro brasileiro e, para isso, pretende se valer dos recursos do FGTS para fomentar a construção civil. Esta seria uma forma de reduzir o número de desempregados, pois o segmento gera empregos rapidamente, e disfarçar que seu mandato não foi em vão. Claro que as grandes obras acontecem em períodos eleitorais. A memória do povo é de curto prazo.

Por último, para que o investimento externo continue robusto para os tupiniquins aqui, é preciso que as taxas de juros do Tio Sam fiquem como estão. Trump pare de brigar e os recursos permaneçam abundantes e sem pátria. Mas esta não parece ser a realidade, vide o comportamento errático do dólar. Enfim, ao pensar no discurso otimista que ouvi recentemente, fiquei intrigada. Será que o arcabouço econômico não faz sentido? O Brasil veio para quebrar todos os paradigmas? Pelo que se percebe, não.

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