Porto Seguro: Copom erra se cortar mais os juros; BC pode atuar para segurar o dólar

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Reduzir os juros em 0,25 ponto na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 6,50% ao ano para 6,25% no momento em que o dólar está disparando e o cenário externo cheio de incertezas é um erro, avalia José Pena, economista-chefe da Porto Seguro Investimentos. “O Copom errou na reunião passada, ao cortar a Selic de 6,75% para 6,5%, e pode errar de novo se insistir no corte”, afirma Pena. Segundo ele, os mercados hoje, com o dólar atingindo R$ 3,60 no mercado comercial e os juros longos em alta, depois de o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, indicar que o corte deve ser mantido em entrevista a Globonews, estão dando sinal claro que a decisão complicará ainda mais a situação da moeda brasileira, que foi a que mais perdeu entre os mercados emergentes.

Na visão de Pena, apesar da sinalização do BC cortar de novo os juros, seria mais recomendável assumir uma postura mais cautelosa. “A Selic já caiu quase 8 pontos e, como há defasagem no impacto dessa queda na economia, ainda não sentimos os efeitos plenos desses cortes”, afirma. “Diante dessas incertezas, e da mudança de cenário internacional e local, não seria incorreto rever o corte.”

Diante da forte alta do dólar, há a expectativa também de que o Banco Central intervenha no mercado, diz o presidente da Porto Seguro Investimentos, Izak Benaderet. “O próprio movimento da semana passada e as declarações de Golfajn vão nessa”, afirma. Segundo ele, o BC deu indícios de que deve fazer uma oferta maior que a  rolagem do vencimento de contratos de swap cambial que vencem em 1º de junho e, na entrevista da Globonews de ontem, Goldfajn falou em atenuar a desvalorização do real. “Está no nosso cenário base alguma movimentação nesse sentido, especialmente hoje, quando o real sobre bastante em relação às demais moedas”, acrescenta. “Somos a moeda que mais perde, disparada, entre os emergentes”.

Benaderet destaca, porém, que os fundamentos do país continuam sólidos em relação às contas externas, com um déficit de contas correntes baixo. “Mesmo a diminuição na margem do crescimento traz uma pressão menor na conta corrente, pois reduz as importações e o consumo”, diz. A gestora diz que tinha uma cotação mais alta que a média do mercado para o fim do ano, R$ 3,45, e não reviu isso ainda. “Mas, pelas condições de curtíssimo prazo, podemos ver preços maiores, mas que não alteram o patamar de fim de ano.”

Para José Pena, a redução dos juros este mês deve levar o BC a subir os juros mais cedo e de maneira mais forte no ano que vem. “Provavelmente veremos um último corte agora, para 6,25%, e essa taxa deve ficar até o fim do ano”, estima. Já no ano que vem, por ter cortado demais o juro agora, o BC teria de antecipar a subida da taxa para evitar a alta da inflação. “Esperamos a alta provavelmente logo no início do ano que vem e acreditamos que o ciclo irá até a Selic atingir 9% ou mais, enquanto a mediana do mercado projeta alta de até 8%”, acredita.

Ele diz também que o repasse da alta do dólar para os preços não deve ser grande por conta da atividade econômica mais fraca, mas isso não justifica reduzir mais os juros. “Há algumas questões, como por exemplo, garantir que o real não tenha uma nova mudança de patamar e fique nos R$ 3,50 a R$ 3,55 ,e não se mova para nível um mais depreciado”, afirma Pena. Nesse caso, o repasse será moderado.

Mas, tão importante quanto se manter nesse nível de preço, é que a percepção dos agentes seja de que ele continuará assim. “Se a perspectiva for de alta temporária do dólar, o repasse será baixo, mas se os agentes econômicos acharem que alta vai se manter, as chances de repasse aumentam”, alerta. Há ainda o impacto direto do dólar em alguns preços importantes da economia, como combustíveis e derivados e energia elétrica. “Boa parte da energia que abastece o Centro-Sul do país vem da Usina de Itaipu, que tem seus preços em dólar, e energia tem peso relevante no IPCA”, lembra. Além disso, há o impacto direto sobre os preços de commodities agrícolas, que pressiona os alimentos. “Se a alta do dólar for vista como permanente, ela pode ser repassada para os preços ao consumidor”, diz.

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