Pré-Market: As aparências enganam

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O mercado financeiro no Brasil encerrou a semana passada com uma sensação de alívio, após o Banco Central subir o tom em relação à alta acelerada do dólar, o que levou a moeda norte-americana a registrar a maior queda diária em quase 10 anos, voltando ao patamar de R$ 3,70. Mas isso não significa que o investidor abandonou a posição defensiva e esteja inclinado a ser levado por uma falsa sensação de segurança.

Os números do Datafolha sobre a corrida presidencial tendem a manter o receio nos negócios locais sobre o campo político e econômico. O levantamento divulgado ontem mostra que, dois meses depois da prisão, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera a disputa, com 30% das intenções de voto. Mas a candidatura dele depende de permissão da Justiça.

Nos cenários sem o líder petista, seus adversários encontram dificuldades para conquistar a preferência do eleitor. Afinal, mais de um terço (33%) dos apoiadores do ex-presidente se mostram sem alternativa e se dizem sem candidato quando ele está fora do páreo. E esse porcentual pode definir uma eleição, o que mantém a disputa totalmente aberta e indefinida.

Ainda assim, o deputado Jair Bolsonaro mantém a liderança, quando Lula está ausente, com 19% das preferências. Em segundo lugar, embora apareça numericamente à frente nos resultados, a ex-senadora Marina Silva está tecnicamente empatada com o ex-ministro Ciro Gomes. Ela oscila entre 14% e 15%, enquanto ele tem de 10% a 11%, a depender nome que o PT escolher ou sem o partido na disputa.

Por sua vez, o ex-governador Geraldo Alckmin sustenta seus 7%, independente da chapa petista, o que pode igualá-lo a Ciro. Ou seja, considerando-se a margem de erro da pesquisa (2 pontos para baixo ou para cima), o que os números mostram é que o segundo lugar, atrás de Bolsonaro, está totalmente em aberto – quando Lula não aparece.

Aliás, o apoio do petista pode ser decisivo na disputa, com a popularidade dele sendo um ativo eleitoral valioso. Ainda segundo o Datafolha, 30% dos eleitores dizem que votariam com certeza num candidato indicado pelo ex-presidente e 17% dizem que talvez o fariam. Outros 51% afirmam que tal apoio os levaria a rejeitar esse nome.

Por isso, o papel que o PT assumirá nas eleições tende a ser o fiel da balança. Teoricamente, Ciro Gomes herdaria os votos que seriam de Lula, por ser o principal nome da esquerda. Um eventual apoio do PT pode, inclusive, colocá-lo em uma disputa de segundo turno contra Bolsonaro. Mas sem os petistas, as chances do ex-ministro diminuem.

Já o deputado da direita parece estar perto do teto de eleitores, o que tende a ampliar a disputa por espaço entre os candidatos já tradicionais em eleições anteriores – Marina, Ciro e Alckmin. Nesse embate, as alianças com outros partidos e o tempo de TV durante a campanha pode definir que irá assumir a segunda colocação de modo isolado.

Com isso, o investidor só deve mostrar maior conforto em assumir posições mais arriscadas no Brasil assim que houver uma definição mais clara do quadro eleitoral. Até lá, qualquer movimento de alívio e/ou acomodação deve ser visto como passageiro, sujeito a turbulências à frente.

Aliás, a cautela nos negócios locais deve ser redobrada ao longo dos próximos dias, diante dos eventos relevantes previstos no cenário externo. A começar pela Copa do Mundo de Futebol, que desloca as atenções para a Seleção Brasileira na Rússia e adia a decisão do eleitorado para presidente, reforçando a ideia de que ainda tem muito jogo pela frente.

Do lado diplomático, após o fracasso no G-7, com o presidente Donald Trump retirando o apoio ao comunicado final, o norte-americano tem um encontro amanhã com o líder norte-coreano Kim Jong Un em Cingapura, que deve ter um tom mais amigável do que nas reuniões em Quebec.

Trump conseguiu unir todos os seis aliados contra ele – cinco, talvez, com exceção do Japão – em temas sobre clima, comércio internacional e sanções ao Irã, mas a estratégia do republicano é uma maneira de obter vitórias rápidas em questões que satisfazem sua base eleitoral. Ainda fica o desafio de enfrentar a China, um concorrente de maior peso.

Mas o destaque desta semana é a decisão de juros nos Estados Unidos (quarta-feira) e na zona do euro (quinta-feira). Enquanto o Federal Reserve deve dar mais um passo no processo de normalização monetária, elevando a taxa de juros norte-americana pela segunda vez neste ano, o Banco Central Europeu (BCE) vai debater o fim do programa de recompra de bônus.

Ou seja, nos dois lados do Atlântico Norte, a mensagem das principais autoridades monetárias é que a era de juro zero já chegou ao fim e o momento é de reduzir os estímulos artificiais, diante dos sinais de acúmulo de pressão inflacionária, com a atividade voltando a ganhar tração.

Tal cenário tende a manter a pressão sobre os ativos de países emergentes, uma vez que juros mais altos nas economias desenvolvidas tende a reduzir o apetite em praças financeiras consideradas de maior risco, como a brasileira. Esse movimento de saída de recursos pode ser potencializado caso o Fed confirme a chance de elevar os juros mais vezes em 2018.

Os sinais de aquecimento econômico nos EUA combinados com uma inflação maior tendem a ampliar as apostas de quatro apertos até dezembro, de um cenário-base de apenas três altas. Os dados econômicos do país sobre os preços ao consumidor (CPI), amanhã, somados ao desempenho do varejo (quinta-feira) e da indústria (sexta-feira), devem calibrar essas expectativas.

À espera desses eventos, o sinal positivo prevalece entre as bolsas internacionais nesta manhã, com a Europa pegando carona nos ganhos observados na Ásia – exceto em Xangai – e exibidos nos índices futuros em Nova York. Nas moedas, destaque para a queda do dólar canadense, diante do aumento da tensão entre Trump e o primeiro-ministro do país, Justin Trudeau, no G7.

Na outra ponta, o euro avança, após o novo ministro das Finanças na Itália confirmar o compromisso com a moeda única, o que também impulsiona os bônus soberanos do país. Os títulos norte-americanos (Treasuries) acompanham o movimento dos papéis europeus, com alta no rendimento (yield). O petróleo cai, diante do aumento da produção nos EUA e na Rússia.

Ainda na agenda econômica da semana, na China, também serão conhecidos dados de atividade sobre a produção industrial e as vendas no varejo, na quarta-feira, além de indicadores sobre o setor imobiliário, um dia depois. Sem data prevista, saem números sobre a concessão de crédito no país.

O calendário doméstico desta semana traz novos indicadores sobre a atividade, mas com números defasados, ainda referentes ao mês de abril – portanto, antes da greve dos caminhoneiros. Na quarta-feira, saem as vendas no varejo e, no dia seguinte, será conhecido o desempenho do setor de serviços, o que deve levar à divulgação do IBC-Br, na sexta-feira.

Já nesta segunda-feira o Banco Central publica o relatório Focus (8h25), que pode trazer nova piora nas expectativas do mercado financeiro para o comportamento da inflação (IPCA), da taxa de câmbio e do crescimento econômico neste ano, após os eventos recentes. Antes, sai a primeira prévia de junho do IGP-M, que deve refletir a pressão dos preços no atacado (8h).

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