Pré-Market: Mercado carrega o peso de expectativas frustradas

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A agenda econômica mais fraca no Brasil e no exterior nesta quarta-feira abre espaço para o mercado financeiro buscar uma recomposição, enquanto segue monitorando os riscos. No exterior, as crescentes ameaças de retaliações de aliados aos Estados Unidos por causa das barreiras comerciais continuam no radar, enquanto se aproxima a reunião que atualizará a taxa de juros norte-americana neste mês.

Por aqui, uma soma de frustrações pesa nos ativos.A começar pelo temor eleitoral. Faltando alguns meses para uma eleição bastante aberta e disputada, é crescente a percepção de que a disputa à Presidência está se polarizando entre “candidatos extremos” – à direita ou à esquerda, o que não é bem recebido pelo investidor.

Ao mesmo tempo, os nomes tidos com perfil mais reformista e viés pró-mercado não decolam, mostrando-se menos competitivos. Já no centro, o esforço de unir uma candidatura única ainda não colhe frutos.

Embora com uma metodologia questionável, o levantamento do site Poder 360 pesou nos negócios locais ontem e serviu de termômetro para o que pode ser apresentado pela próxima pesquisa Datafolha, prevista para domingo. O instituto vai a campo a partir de hoje em todo o país e deve ouvir quase 3 mil eleitores, com cenários que contemplam o ex-presidente Lula.

Aliás, o posicionamento do PT será extremamente importante às vésperas do pleito de outubro. O partido deve lançar a pré-candidatura de seu principal líder ainda nesta semana, mesmo com ele preso há quase dois meses. O evento deve reunir militantes, intelectuais e artistas em Minas e tende a soar mais com uma voz contrária a prisão do ex-presidente.

Seja como for, as pesquisas eleitorais têm trazido desalento àqueles que acreditam que o país necessita de amplas reformas para não naufragar em 2019. Isso porque a questão fiscal voltou de vez ao radar do mercado financeiro doméstico, após o governo Temer ceder a todas as reivindicações dos caminhoneiros, agravando o rombo nos cofres públicos.

Tal vulnerabilidade evidencia a necessidade de um ajuste das contas, mas esse debate não está em campanha. Então, o investidor tende a se desfazer do Kit Brasil, com o Banco Central e o Tesouro Nacional dando saída para quem apostava que o país daria continuidade às reformas, que seriam conduzidas por um presidente pró-mercado eleito pelo voto popular.

Com esse choque de realidade, a Bolsa cai, o dólar sobe e os juros futuros também. Ontem, a moeda norte-americana fechou no maior valor desde março de 2016, acima de R$ 3,80, apesar da inesperada atuação do BC. A autoridade monetária surpreendeu com a venda extra de contratos de dólar futuro (swap cambial), mas não conseguiu conter a tendência de alta.

Há quem diga que é necessário o BC mudar a estratégia e fornecer liquidez no mercado à vista, com a oferta de linhas de financiamento em moeda estrangeira com compromisso de recompra futura – o chamado leilão de linha. Ou seja, os recursos são vendidos visando estabilizar os fluxos reais de saída do país, mas depois voltam para as reservas internacionais.

Os leilões de linha são utilizados em momentos de falta de dólares no mercado, ao passo que o swap acontece para estabilizar fluxos especulativos e operações de proteção (hedge). Ontem, as duas rodadas de intervenção do BC se deram em meio ao desmonte de posições em dólar, com o acionamento de ordens de stop loss (perda máxima aceitável) após bater R$ 3,80.

É bom lembrar que apesar de o Brasil ter registrado pressão cambial nos últimos meses, o principal risco do país é doméstico e está relacionado à dinâmica fiscal. Não estamos, portanto, em um cenário de desequilíbrio econômico, tal qual observado na vizinha Argentina, onde é grande a necessidade de financiamento externo.

O problema tupiniquim é que a debilitada situação fiscal alimenta a ideia de alta da inflação, via dólar, e necessidade de aperto do juro básico, mesmo com a perda de dinamismo da lenta e gradual recuperação econômica. Com isso, o próximo debate no mercado financeiro doméstico será quando a Selic começa a subir – e o mais prudente seja outubro chegar.

A esse cenário de frustrações internas – vinda do desconforto com o fiscal e a falta de aprovação de reformas combinado com um cenário eleitoral imprevisível – tem-se o processo de normalização da taxa de juros nos Estados Unidos. O movimento tende a atrair recursos aplicados em países mais arriscados, como o Brasil.

Com isso, o panorama se torna mais desafiador para os países emergentes em geral, em meio à busca do retorno seguro nos títulos norte-americanos (Treasuries), elevando consigo o dólar em relação às moedas rivais, principalmente aquelas relacionadas às commodities. Assim, o movimento de dólar forte é global e o BC local não deve ser capaz de conter essa escalada.

Nesta manhã, porém, a moeda norte-americana perde terreno em relação às divisas europeias, como o euro e a libra, ao passo que a lira turca segue em queda. O rendimento (yield) do bônus dos EUA de 10 anos (T-note) volta a ganhar força e sobe a 2,94%, impulsionando os papéis europeus, em meio a comentários duros (“hawkish”) do BC da zona do euro (BCE).

Nas bolsas, o sinal positivo vindo de Nova York embala a Europa, após uma sessão positiva na Ásia. Entre as commodities, o petróleo também se recupera, sendo que o barril do tipo Brent tem o maior avanço em uma semana, voltando à faixa de US$ 75. Já o tipo WTI encosta nos US$ 66, em meio às apostas sobre os estoques nos EUA.

Os números sobre a posição dos estoques norte-americanos de petróleo bruto e derivados no país serão conhecidos às 11h30. Antes (9h30), ainda nos EUA, saem dados sobre a balança comercial em abril e sobre o custo da mão de obra e a produtividade.

Mas a atenção lá fora está na reunião do G-7, que começa nesta sexta-feira em Quebec. Os investidores apostam que o encontro entre Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido irá afastar a possibilidade de instalar uma guerra comercial, lançando alguma luz sobre o tema – embora a China não faça parte do grupo e a agenda protecionista siga na pauta do governo Trump.

Internamente, tem a inflação ao consumidor de baixa renda em maio (8h), que pode trazer os primeiros sinais sobre o impacto da greve dos caminhoneiros nos alimentos e nos transportes. Sem horário definido, serão divulgados os dados sobre a poupança no mês passado.

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