Pré-Market: México festeja antes do jogo

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A seleção brasileira avançou para a fase de mata-mata na Copa do Mundo e o jogo no fim da manhã desta segunda-feira (11h) esvazia o pregão doméstico até o início da tarde. O adversário será o México, mas o país já está em festa desde ontem com a vitória de um representante da esquerda nas eleições presidenciais – o que não acontecia desde os anos 30.

Seja quem for que ganhar a disputa na Rússia, o México comemora o seu novo líder, que não deve olhar de baixo para cima ao vizinho do norte. Com a eleição de Andrés Manuel López Obrador – preguiçosamente chamado de AMLO -, a América Latina tem uma nova voz e não ficará calada se Donald Trump atacar, como vem fazendo com os aliados do velho continente e o rival asiático.

Assim como em uma partida de futebol, a alegria de uns é a tristeza de outros. O peso mexicano caía pouco mais de 1% em relação ao dólar, apagando os ganhos ensaiados logo após o resultado do pleito, com os investidores avaliando as consequências da vitória de um esquerdista no México. O receio é de que surja um novo Lázaro Cárdenas, capaz de alterar o modelo econômico do país.

O mercado financeiro já contava com uma vitória do esquerdista, mas não esperava uma conquista esmagadora do Morena – partido criado por AMLO – nas eleições legislativas. No Senado, a coalizão levou a maioria das cadeiras, ocupando 29 vagas, ao passo que na Câmara foram eleitos 216 deputados, compondo mais de 72% da Casa.

Ou seja, López Obrador terá amplo apoio do Congresso para avançar com suas propostas de governo. Porém, não se deve esperar nenhum viés revolucionário do presidente eleito. Ao contrário, devido ao seu perfil pragmático, o ex-prefeito da Cidade do México deve demonstrar sua habilidade em conciliar interesses antagônicos.

No Brasil, o cenário político é bem diferente. Líder em todas as pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Lula continua preso mesmo após a ofensiva da defesa no Supremo Tribunal Federal (STF) no último dia antes do recesso. O novo novo pedido de liberdade foi negado, enquanto a solicitação dos advogados para que o caso fosse analisado pela Segunda Turma foi arquivada.

Com isso, Lula deve permanecer em Curitiba ao menos até o mês que vem, quando se encerra o recesso do Judiciário. Ainda não há data para a análise do caso do ex-presidente pelo plenário da Corte. Há quem diga que a Justiça brasileira persegue o petista de modo imoral, sendo que a candidatura dele já nem mais está no mérito do julgamento.

Esse imbróglio jurídico intensifica as incertezas eleitorais, com os demais candidatos aparecendo embolados na segunda colocação. O deputado Jair Bolsonaro e o ex-governador Geraldo Alckmin dão sinais de esgotamento, sem conseguir avançar no porcentual obtido entre os eleitores pesquisados, ao passo que Marina Silva e Ciro Gomes mostram avanço.

Mas o tema só deve entrar no radar do mercado doméstico após o fim da Copa do Mundo e, principalmente, quando começar o horário eleitoral e a campanha ganhar vigor. Até por isso, o mês de julho deve ser mais fraco, em termos de noticiário, o que deve contribuir para enxugar a liquidez dos negócios, que já tende a ser menor por causa do período de férias.

Falando nisso, o feriado da Independência dos Estados Unidos, na quarta-feira, antecipa o fechamento do pregão em Wall Street já amanhã, comprometendo o giro financeiro neste início de semana. Por lá, o destaque fica com o relatório de emprego no país (payroll) em junho, na sexta-feira. Um dia antes, sai a ata da reunião do mês passado do Federal Reserve.

A comunicação do Fed sobre o encontro em que se alterou o prospecto para um total de quatro altas nos juros norte-americanos neste ano será relevante para indicar o grau de preocupação do Banco Central dos EUA quanto ao impacto da atividade na trajetória da inflação. A percepção é de que a economia segue robusta, pressionando os preços.

Mas a principal preocupação no exterior continua sendo a guerra comercial declarada pelos EUA. Trump passou o fim de semana tuitando críticas à União Europeia (UE) e à China, o que atinge os índices futuros das bolsas de Nova York nesta manhã, após uma sessão de duras perdas na Ásia. Esse desempenho contamina a abertura do pregão na Europa.

Entre as moedas, o euro e a libra esterlina são pressionados por riscos geopolíticos, ao passo que o yuan (renminbi) segue na queda mais acentuada desde a maxidesvalorização em agosto de 2015. Os dados fracos sobre a atividade na indústria chinesa em junho também pesam, diante dos sinais de desaceleração econômica do país.

Essa perda de tração da segunda maior economia do mundo penaliza os ativos de países emergentes. Nas commodities, os metais básicos recuam, deprimindo as ações de mineradoras. Já o petróleo tipo WTI cai abaixo de US$ 74, após Trump pedir à Arábia Saudita um aumento na produção em até 2 milhões de barris por dia, alegando “turbulência e disfunção” no Irã e na Venezuela.

Não se trata, portanto, de um começo feliz para o mercado financeiro neste segundo semestre. As tensões comercias, os problemas políticos na Europa e as preocupações com o crescimento global mantêm os investidores na defensiva, à espera de novos indicadores capazes de lança luz sobre o cenário econômico.

Aliás, no Brasil, a agenda doméstica desta semana traz indicadores que irão ajudar a dar uma ideia melhor do impacto da greve dos caminhoneiros na economia. Na quarta-feira, sai o desempenho da indústria em maio e a produção do setor deve ter sido atingida duramente pela paralisação no transporte de cargas, com queda de dois dígitos.

Na sexta-feira, é a vez da inflação ao consumidor (IPCA) em junho, que deve ter subido mais de 1% em base mensal, pressionada pelos preços de alimentos, combustíveis e pela tarifa de energia elétrica. Com isso, o resultado acumulado em 12 meses deve ficar acima de 4% pela primeira vez em cerca de um ano.

Ainda assim, a expectativa é de que esses efeitos sejam temporários, conforme frisou o Banco Central nos documentos recentes. Hoje, a autoridade monetária publica um novo formato para a pesquisa de mercado Focus (8h25), mas o relatório deve manter a tendência recente, de piora nas estimativas para o crescimento, enquanto dólar e inflação seguem mais elevados.

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