Agosto promete mais incertezas para o investidor; eleição passa a pesar cada vez mais e risco aumenta

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Se julho foi um refresco depois de dois meses de forte instabilidade nos mercados, agosto será um aperitivo para as emoções que setembro promete trazer com o início da campanha eleitoral para valer. Ao longo de agosto, a eleição presidencial se tornará cada vez mais importante para os mercados e para a definição dos investimentos, com aumento das oscilações de preços.

Nesse caso, o melhor é deixar boa parte do dinheiro em aplicações de curto prazo, que rendam o juro diário do overnight Selic, seja em fundos DI, seja em LFTs do Tesouro Direto. Até para aproveitar eventuais oportunidades que surjam no caminho quando o cenário estiver mais claro. Os juros devem continuar nos atuais 6,5%, a menos que a corrida presidencial coloque em dúvida a continuidade do ajuste fiscal, mas a definição só deverá ocorrer ao longo de setembro.

Até agora, o que os investidores assistiram foram as preliminares da campanha presidencial, com a definição dos nomes e coligações que devem concorrer. E  o relativo otimismo de julho veio de uma pequena melhora da candidatura de centro de Geraldo Alckmin, que apóia as reformas e o ajuste fiscal, e que conquistou o apoio do Centrão, enquanto outros candidatos radicais ou críticos ao ajuste perderam espaço.

Mas esse é um cenário que ainda podem ter novos desdobramentos, com uma ou outra puxada de tapete de um adversário sobre o outro. Já em setembro, com o início do horário eleitoral e a campanha de televisão, a disputa deve começar para valer, com direito a todos os golpes baixos que a política permite. “Setembro, quando começar a campanha na TV, vai ser pesado”, resume José Pena, economista-chefe da Porto Seguro Investimentos. “A única certeza é que a volatilidade vai continuar alta”, afirma. “O componente domestico, a eleição, vai ganhar mais peso, pois hoje estamos refletindo mais as tensões comerciais entre EUA e China e a alta dos juros americanos, mas vamos focar cada vez mais na eleição”, diz.

Dois cenários de segundo turno

E é possível chegar em setembro com três ou quatro candidatos com chances de passar para o segundo turno, o que adiará a definição do cenário eleitoral e da economia nos próximos anos para outubro. No segundo turno, a definição do cenário poderá ser mais fácil, caso um candidato de centro como Geraldo Alckmin ou Marina Silva dispute com um mais radical. “O Alckmin no segundo turno é mais competitivo contra um Jair Bolsonaro ou um nome do PT”, diz. Já se passarem dois candidatos mais extremistas, a incerteza continuará e até se ampliará até a decisão final e talvez depois.

Há muita incerteza nos mercados e na economia, e não só no Brasil, observa Pena, lembrando que no exterior há a pressão do presidente Donald Trump sobre o Federal Reserve (Fed, banco central do país) para não subir os juros, apesar do aquecimento da economia. “Tanto que na semana passada, tanto o Comitê de Mercado Aberto do Fed e o nosso Comitê de Política Monetária (Copom) se fingiram de mortos em suas reuniões, evitando dar qualquer indicação de tendência”, diz.

O Fed apenas atualizou a data do comunicado dos juros. E o Copom só não fez o mesmo porque teve de falar da atividade para destacar que ela continua fraca e deve contribuir para manter a inflação baixa por mais tempo e destacar o maior impacto da guerra comercial entre EUA e China no cenário externo, afirma Pena.

Copom alerta para expectativas com reformas

Outro ponto que o Copom mencionou foi a parte relativa à importância da continuidade das reformas para manter a inflação e os juros baixos um adendo dizendo que elas afetam as expectativas. “A leitura é que as expectativas do mercado para inflação continuam ancoradas, mas essa visão quanto a continuidade da agenda de reformas pode mudar esse quadro”, diz Pena. “Se o mercado vislumbrar que agenda de reformas não vai ser mantida, pode ter desancoragem das expectativas.”

Incerteza não permite grandes definições

Mas, como esse cenário das reformas depende da eleição presidencial, o Copom fez poucas alterações pois não sabe o que vai acontecer e não pode se comprometer com nada. “Ele fez o certo, deixou tudo em aberto”, diz o economista, lembrando que hoje a inflação está contida, a alta dos juros e da inflação foi temporária e a economia está retomando bem lentamente. Mas o quadro pode se alterar dramaticamente caso um candidato contrário às reformas lidere as pesquisas e seja eleito.

E há ainda o fator Lula, com a possibilidade de o ex-presidente concorrer ou não e, se não puder, como se sairá seu candidato, provavelmente Fernando Haddad, hoje seu vice na chapa. “Mas agosto vai ser um mês de muita ansiedade, sem muita definição, e isso deve manter os mercados ariscos, o que recomenda posições pequenas e de curto prazo, sem grandes riscos”, afirma Pena.

A grande expectativa é com o impacto do horário de tevê, e seu impacto na campanha do candidato de centro, Geraldo Alckmin. Mas esse horário só começará em setembro. “Mas se antes disso Alckmin mostrar uma melhora, por conta do acordo com o Centrão ou efeito dos debates, os mercados podem reagir positivamente, com a bolsa para acima e dólar para baixo”, diz.

Melhor investidor evitar assumir muitos riscos

Não dá para saber, portanto, se vai haver outro ciclo de alta de bolsa ou queda do dólar, afirma Pena. “Este ano é de muita volatilidade, não temos definição nem aqui nem lá fora”, diz. E tanta incerteza não permite aos gestores e investidores assumirem posições muito grandes. “Temos uma visão estrutural, mas não dá para assumir grandes riscos pois o cenário mudar, por isso, é preciso manter posições curtas e pequenas até essa definição acontecer, o que será difícil de ocorrer em agosto”.

Para a bolsa,  é possível ter ganhos, mas com parcelas pequenas ou com instrumentos de proteção, como mercados futuros ou de opções. “Não dá para ter posições grandes de peito aberto, o quadro está muito sujeito a eventos”, diz

Já no mercado de títulos públicos, os juros dos papéis prefixados subiram bastante em maio e junho, mas mesmo assim não cobrem toda a incerteza. “Se Alckmin ganhar, esses prêmios dos títulos serão muito menores, mas se ganhar um candidato contrário ao ajuste fiscal e às reformas esse juro poderá subir muito mais”, diz Pena. Ele admite que um papel que paga juros reais de 5,5% ao ano mais IPCA pode ser interessante, mas não protege totalmente e em qualquer cenário. “Já vimos esse juro real chegando a 7% ao ano não faz muito tempo”, lembra.

Ibovespa, entre 60 mil e 88 mil pontos

Para o Bradesco, apesar da boa performance de julho, com alta de 8,9% do Índice Bovespa, o mercado brasileiro está sendo negociado por um preço em relação aos lucros projetados para as empresas abaixo da média histórica de sete anos, usando como base a carteira do índice internacional MSCI para o Brasil.

Aos níveis atuais de preço, a bolsa brasileira parece refletir uma probabilidade baixa de continuidade dos ajustes fiscais após as eleições, avalia o banco, que não concorda com essa visão. “Levando em conta as primeiras entrevistas sobre o posicionamento dos principais pré-candidatos, vemos que todos eles parecem priorizar o ajuste fiscal, particularmente a reforma da Previdência, mas diferem em como fazer isso e quão profundo deve ser o ajuste”, diz a corretora do banco em relatório.

Em três cenários montados pelo banco, com nenhum ajuste fiscal, ajuste parcial ou ajuste profundo pós eleições, a conclusão do banco é que o mercado de ações ainda parece atrativo em termos da relação risco versus retorno. “Assumindo uma probabilidade de 70% de continuidade dos ajustes fiscais após as eleições, projetamos o Ibovespa aos 88.000 pontos ano final do ano, com claro potencial adicional de valorização (além dos 100 mil pontos) em um cenário de ajuste profundo, ao mesmo tempo em que uma eventual ruptura na condução dos ajustes e da economia poderia levar a bolsa a uma correção, para a faixa dos 60 mil pontos”, diz o relatório assinado pelo estrategista para pessoas físicas José Francisco Cataldo.

Para o investidor que quer ter um pouco das aplicações em bolsa para aproveitar um eventual cenário mais positivo, o Bradesco sugere empresas com bons fundamentos, que se beneficiem da retomada do crescimento do país e com forte geração de caixa e distribuição de dividendos, além de algumas exportadoras, que servem de proteção em caso de instabilidade.

Resultados das empresas contam 

Já a Toro Radar, empresa de análise de ações da Toro Investimentos, corretora online voltada para pessoas físicas,  avalia que, apesar da tendência de curto prazo ser de alta na bolsa, há pela frente um cenário incerto, que irá se desenrolar guiado pela evolução do cenário politico eleitoral, com a definição dos candidatos e seus vices, além da apresentação das propostas de campanha. “Não podemos esquecer do período de divulgação de resultados do segundo trimestre das empresas listadas na bolsa, o que também deve movimentar os mercados”, diz a Toro em sua carteira mensal sugerida. A carteira inclui Itaú Unibanco PN, Gerdau PN, Rumo ON, Minerva ON e IRB Brasil ON.

Dólar sobe em períodos pré-eleitorais

Já para o dólar, a expectativa é também de muita volatilidade. “Entramos em um ciclo de queda de taxa de cambio em julho por conta da ausência de noticias politicas pelo recesso parlamentar aqui, enquanto lá fora os países tentam responder à guerra comercial”, afirma Fernanda Consorte, estrategista de câmbio do Banco Ourinvest. Agora, começará a pesar o cenário eleitoral, com as chapas já definidas e as pesquisas. “E isso ajuda a aumentar a volatilidade”, alerta. Segundo Fernanda, em todas as eleições, dada incerteza, o real perde valor diante do dólar.

Ela espera que à medida que a campanha for evoluindo, perto do primeiro turno, setembro, o cenário vai ser mais claro sobre quem tem chances reais de levar a presidência e quais propostas estarão na mesa. “Mas agora em agosto isso é impossível”, diz. Por isso, ela acredita que, por ora, R$ 3,70 parece ser um piso para este momento de volatilidade. “Eventualmente, em um cenário de longo prazo, considerando o cambio real, o dólar está bastante esticado, mas se tivermos um candidato que agrade os mercados, a moeda poderia voltar para os R$, 3,50”. “Mas até lá vamos ver muita volatilidade.”

Oportunidade lá fora

Diante da incerteza com com o cenário local, a alternativa é buscar opções no exterior, o que pode ser feito via fundos multimercados, que estão com suas carteiras praticamente concentradas lá fora. É o caso da Ibiúna Investimentos “Estamos com as carteiras de nossos fundos multimercados toda no exterior, especialmente em juros americanos, aguardando a alta das taxas”, diz Caio Santos, sócio da gestora.

Segundo ele, os fundos da casa veem oportunidades semelhantes, de ganhar com a alta dos juros, também na Europa. Já no México, os ganhos seriam com a queda dos juros, já que as taxas subiram em meio á incerteza eleitoral e a inflação recuou. O fundo tem uma posição pequena em Brasil, na arbitragem entre taxas pré e pós, que dão as projeções de inflação implícita dos papéis. “Temos muitas oportunidades lá fora enquanto aqui há muita incerteza política, não dá para antecipar o que vai acontecer com o país no ano que vem, por melhor que seja o analista”, diz. “O Brasil até tem prêmios nos mercados, mas não queremos nos posicionar”, explica.

Outra alternativa são fundos long/short, de arbitragem, que trabalham com mercados ou papéis relacionados e que ganham com a diferença entre esses ativos, e não com a tendência geral dos mercados. Uma empresa de um setor que está melhor que outra, mas cujas ações não refletem essa diferença, pode ser um exemplo.

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