Parlamento britânico mantém Theresa May; o que pode acontecer com o Brexit agora?

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Apesar de todo o desgaste provocado pela rejeição do acordo para saída do Reino Unido da União Europeia ontem, a primeira-ministra Theresa May conseguiu evitar um voto de desconfiança no Parlamento contra seu governo hoje.

No final, May conseguiu 325 votos a favor contra 306 por novas eleições e agora deverá buscar um novo consenso entre os parlamentares para tentar um novo acordo com a União Europeia.

Na Bolsa de Londres, o Índice Financial Times fechou em queda de 0,47%, antes da votação, que ocorreu à noite, enquanto os demais índices da região fecharam em alta.

Corrida contra o tempo

A expectativa é de que uma solução deverá ser buscada com urgência, já que o prazo final de saída do Reino Unido termina em 29 de março e, dois anos e meio depois do plebiscito que decidiu pelo Brexit, não deverá restar muito tempo para negociações. E a União Europeia já deixou claro que não pretende fazer concessões além das que foram rejeitadas esta semana pelo Parlamento.

Três opções para May

Hoje restam três opções para os britânicos diante do fracasso do acordo costurado por May: cancelar o Brexit, buscar  mais prazo para renegociar o acordo ou aceitar uma saída mais difícil da União Europeia, sem acordo, avalia David Zahn, diretor de Renda Fixa da gestora de recursos Franklin Templeton Fixed Income Group. Segundo ele, os mercados financeiros estão clamando pelo fim da incerteza, mesmo que isso signifique aceitar a dor de curto prazo de um Brexit duro.
“Há muito argumentamos que o melhor cenário Brexit seria um acordo entre o Reino Unido e a União Europeia, que governa o comércio pós-divórcio, e continuamos a acreditar nisso”, diz. “Mas depois da votação parlamentar de ontem no Reino Unido, isso parece impossível, dado o apertado cronograma.”

Sem espaço para cancelar o Brexit

Apesar de várias pesquisas recentes terem sugerido que os eleitores do Reino Unido agora preferem permanecer na UE, parece não haver maioria na Câmara dos Comuns do Reino Unido para reverter o Brexit, avalia Zahn. Se isso acontecesse,  haveria uma resposta muito positiva dos mercados financeiros, tanto no Reino Unido quanto na Europa. Os mercados de títulos teriam uma forte queda de juros, a libra esterlina se recuperaria e as ações do Reino Unido provavelmente subiriam. Mas isso parece ser a opção menos provável hoje.

Esticar prazo só alongaria incertezas dos mercados

Já a segunda opção – estender as negociações – parece ser o resultado mais provável. Mas isso traz mais incerteza para os mercados. Qualquer adiamento deve ser aprovado por unanimidade pelos outros membros da UE e alguns deles devem procurar concessões específicas antes de concordar. Além disso, é discutível se há tempo suficiente antes de 29 de março para garantir a aprovação de 27 diferentes parlamentos.

Há comentários em Bruxelas, sede da UE, que qualquer prorrogação seria limitada, talvez até o verão apenas, ou seja, meados do ano. Os dois lados estão negociando há dois anos e não chegaram a um acordo, então é questionável quanto uma extensão de dois meses mudaria as coisas, avalia Zahn.”Além disso, reconhecemos que os mercados não gostam de incerteza e a prorrogação do artigo 50 prolonga a indefinição”, diz.

Chances de 30% a 35% de saída sem acordo

O executivo da Franklin Templeton estima que as chances de não negociação do Brexit  estão em torno de 30% a 35% atualmente. O impacto de tal resultado seria significativo, mas a gestora não acha que uma saída não negociada seria necessariamente o fim do mundo. “De muitas maneiras, poderia oferecer o caminho mais rápido para a certeza que os mercados anseiam”, diz o gestor.

Mercados devem ter tranco inicial

Um Brexit sem compromisso provavelmente significaria níveis elevados de incerteza por três a seis meses, à medida que os problemas fossem resolvidos. Em muitas áreas, a UE disse que vai estender o status quo  para o próximo ano, enquanto os dois lados se ajustam ao novo ambiente.
Mas a resposta inicial provavelmente seria negativa: os mercados de títulos podem ter uma corrida em busca de proteção e a libra provavelmente revisitaria suas baixas históricas. “Mas nossa percepção é que, se um Hard Brexit fosse confirmado, as coisas só poderiam melhorar depois”, diz Zahn.

May na corda bamba; premiê faz pouca diferença

Outra questão é a permanência de Theresa May no poder. Hoje, ela conseguiu reverter o voto de desconfiança no Parlamento. No fim do ano passado, ela sobreviveu a um desafio para a liderança de membros de seu próprio partido e insistiu que não renunciaria, mesmo perdendo a votação desta semana sobre suas propostas de retirada da UE. O pedido agora foi feito pelo Partido Trabalhista, de oposição, que apresentou um voto de desconfiança.

Na prática, porém, segundo Zahn, uma mudança de primeiro-ministro não faria uma diferença significativa na situação. Sem uma extensão das negociações, o gestor acredita que não haveria tempo para o sucessor de May renegociar um novo acordo com Bruxelas. Um novo primeiro-ministro poderia retirar unilateralmente o Artigo 50, efetivamente renunciando ao Brexit, mas há sinal de apetite para isso de nenhum dos principais candidatos ao cargo.

Mercados nervosos sem May

Se May desistisse, os mercados provavelmente ficariam bastante nervosos por algum tempo, já que os investidores esperam por notícias sobre o novo líder, a possibilidade de uma nova eleição geral e qualquer última tentativa de conseguir um acordo.
Mas, para a Franklin, é improvável que uma mudança no líder faça muita diferença na direção da viagem.

A libra mais fraca se torna mais atraente, avalia Zahn. Segundo ele, muitos investidores já acham que a libra esterlina está subvalorizada, mas as compras são adiadas por causa da incerteza em torno do Brexit. Para o gestor, um Brexit sem acordo provavelmente provocaria um declínio na libra esterlina, mas subsequentemente, muitas pessoas entrariam comprando pelos níveis ainda mais baixos.

Sem acordo, valem regras da OMC

Sem um acordo com a UE, o Reino Unido seria regido pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), incluindo as tarifas comerciais da OMC, que tendem a ser mais onerosas do que as tarifas nos acordos comerciais negociados.

No entanto, o Reino Unido tem a opção de não aplicar essas tarifas aos produtos importados. O país tem um grande déficit comercial com outras nações, então, depois do Brexit, será importante manter as mercadorias fluindo para evitar a escassez com a qual alguns comentaristas estão preocupados.
Não há garantia de que a remoção de tarifas de importação seja retribuída por outros parceiros comerciais, mas deve manter um fluxo de mercadorias no Reino Unido. Além disso, qualquer negociação comercial bem-sucedida que o Reino Unido pudesse concluir melhoraria suas condições comerciais.

Para as empresas, a confirmação de uma saída não negociada ao menos traria certezas. Os exportadores teriam alguma ideia sobre a extensão das tarifas a serem cobradas sobre seus produtos. Mas a Franklin esperava que a libra esterlina caísse, o que tornaria seus produtos mais baratos para os compradores estrangeiros e ofereceria algum apoio.

Banco da Inglaterra tende a ajudar

A resposta imediata à confirmação de uma saída não negociada provavelmente seria extremamente negativa: o Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra pode responder oferecendo mais liquidez para a economia. A expectativa é de que o Banco da Inglaterra aceite o risco de ser mais complacente com a taxa de juros e até considerar reiniciar seu programa de flexibilização quantitativa, oferecendo recompra de títulos para os bancos

Impacto também se dará na UE

Um aspecto que recebeu pouca atenção até agora é o impacto da saída do Reino Unido sobre a Europa. A Franklin admite que o Brexit terá um impacto maior no Reino Unido, mas a gestora estima que o crescimento da UE possa ser reduzido em torno de 0,2% a 0,3% no caso de uma saída não negociada. Em conjunto, isso pode não parecer muito, mas quando a UE está crescendo apenas de 1,5% a 2%, representa um pedaço mais considerável.
“Por isso, acreditamos que haveria uma forte motivação para a UE avançar mais rapidamente para relações comerciais mais normalizadas”, diz Zahn.

Fim das incertezas

Dois anos e meio atrás, com todas as opções para um Brexit negociado na mesa, um Brexit sem acordo parecia ser o pior cenário possível. Agora, os mercados podem achar que é preferível acabar com a incerteza e aceitar a dor de curto prazo de uma vez, conclui a gestora.

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