Trends: As oportunidades do isolamento para empresas e os desafios para as cidades

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A Civilização humana está em constante evolução. Um pouquinho que seja de cada vez, mas está. Segundo o norte-americano Fund for Peace, que mete a solidez institucional dos países, sua estabilidade Social, Econômica e Política, entre 2010 e 2020 a imensa maioria dos países melhorou seus índices, tornando-se locais mais seguros, menos sujeitos a rupturas, oferecendo em geral mais saúde e segurança para a população, sendo mais atrativos para investimentos internos e externos.

Lógico, não significa que todos os índices são bons. Se um país antes levava saneamento a 1% da população e agora leva a 1,5%, se taxava ganhos de capital a 80% e agora passou para 78%, isso conta como melhoria. Entre os 35 países soberanos das Américas, por exemplo, só dois pioraram um pouquinho (Estados Unidos e Brasil) e um despencou completamente (Venezuela, sem surpresa aqui). O resto está melhor agora do que estava em 2010.

Isso é o normal.

Mas, de quando em quando, acontece algo que muda a história abruptamente. Peste Negra. Grandes Navegações. Revolução Francesa. Grandes Guerras. E, agora, a Covid-19.

Se você acha que as coisas vão voltar a ser como eram antes, esqueça. Não vão. Algo assim muda profundamente o modo como a coisas funcionam em escala global.

Vamos dar um exemplo corriqueiro: o automóvel. Antes dele, o crescimento das cidades limitava-se à velocidade com que se conseguia instalar trilhos de bondes. Com o automóvel, aas megalópoles se tornaram possíveis.

E o chapéu.

Chapéu? Sim, mesmo com carros altos, era difícil viajar usando chapéu e, se tivesse alguém do lado do motorista, ele não tinha onde colocar o acessório. O carro causou o fim do chapéu masculino.

As implicações da Covid-19, assim, vão além do que se imagina.

Vamos nos fixar em apenas uma: a necessidade de ficar em casa.

A ECONOMIA CASEIRA

Antes do vírus se espalhar, víamos notícias de empresas que adotavam o trabalho remoto, especialistas discutiam os prós e contras, leis regulamentavam a terceirização. Agora, perdemos o luxo de experimentar. É fazer e pronto.

Assim, muitas empresas que, devido a sua cultura, relutavam em aplicar esse modo de trabalhar se viram obrigadas a abraçar o trabalho a distância, as teleconferências. E toma vídeos no Youtube de cachorros invadindo o escritório no meio de conversa com cliente, ou pessoas participando de reuniões usando só camisa e cueca, e por aí vai. Dores da adaptação.

Mas isso é o mínimo. Vamos ver algumas mudanças:

Sem escritórios – Recentemente, Dirk Van de Put, CEO da gigante de alimentos Mondelez, dos Estados Unidos, afirmou que o confinamento mostrou a eles que existem várias formas de trabalhar, e que a empresa talvez não precise manter seus escritórios globais. James Gorman, da empresa de serviços financeiros Morgan Stanley concorda: “é provável que precisemos de bem menos escritórios daqui para frente”. “Colocar 7 mil pessoas em um prédio de escritórios pode ser coisa do passado” ecoa Jes Stanley, presidente do banco Barclays. O Nubank parece ser mais cauteloso. A empresa liberou o teletrabalho até o final de 2020. “Mesmo que seja possível reabrir os escritórios antes” disse a Chief People Officer Renee Mauldin para a CNNBrasil “As pessoas poderão continuar a trabalhar de casa nesse período”. Já a empresa Twitter assumiu: mesmo com o final do isolamento, os funcionários terão a opção do teletrabalho.

As implicações urbanas dessas declarações são enormes. Vamos pensar além das construtoras. O próprio conceito de centro financeiro/de negócios das cidades está em xeque. Que fazer com os elegantes arranha-céus agora, quando as empresas só vão precisar de uma ou duas salas de reuniões, que podem ser compartilhadas com outra? E as linhas de metrô que servem esses locais? E as linhas projetadas para atender esses locais, e os bilhões investidos nelas? Lembra do que falamos dos carros? Não é difícil a cidade mudar, de novo. Sob esse conceito, internet de qualidade passa a ser tão vital como água, gás e luz. Ponto para as empresas que podem fornecê-la.

E vamos falar sobre as construtoras. Até pouco tempo atrás, o conceito reinante era “Quanto menor, melhor”. Os apartamentos minguavam, lavanderias e churrasqueiras saiam de dentro para a área comum dos edifícios. Mesmo apartamentos de alto padrão arranjavam um cantinho no corredor e chamavam de “home-office”. Isso acabou. Você precisa de um quarto para fazer live, para trabalhar sem ser interrompido. As casas precisarão aumentar para os prédios de escritório nanicarem.

Entregando o jogo – Segundo o Google,  nos Estados Unidos, desde que o isolamento social começou, a busca por serviços de delivery chegou a aumentar 300% – comida e farmácia sendo os mais utilizados. A situação parece ser tão boa que empresas como a 99 lançam seu serviço de entrega de alimentos, o 99 Eats.

Ainda assim, em geral essas empresas lucram muito pouco. Ainda mais empresas com um modelo de entrega diferente, como a DoorDash, dos Estados Unidos. A princípio, o negócio parece comum: escolhe um restaurante, escolhe o prato, a DoorDash entrega. Mas não, a empresa não tem parceria com nenhum restaurante: ela vai, compra a comida como qualquer cliente e entrega. Isso gerou um caso interessante: o dono de uma pizzaria descobriu que a DoorDash entregava as pizzas que ele vendia a 24 dólares por 16. Começou então um esquema: ligava para a DoorDash, pedia uma pizza esdrúxula, vendia a eles uma caixa vazia por US$ 24, recebia em outro endereço e pagava US$ 16, embolsando 8 dólares de graça.

Mas como uma empresa de delivery pode sobreviver perdendo dinheiro?

E tais empresas enfrentam desafios em todo o planeta. Não são poucos países que proíbem serviços como o Uber; outros, como o Brasil, tentam regulá-lo. Lá fora, começa a se tornar comuns leis que regulamentam e colocam limites nas taxas de entrega.

Como, então, elas sobrevivem?

Tecnologia é uma das respostas. Essas empresas apostam que serviços de geolocalização e algoritmos complicados aumentarão a produtividade, permitindo que cada entregador seja utilizado ao máximo, diminuindo os custos por entrega. Além disso, podem explorar um bem muito valioso: dados de clientes. Quem conseguir sobreviver a essa penúria por mais tempo enquanto os concorrentes quebram poderá aumentar os preços. Estratégia arriscada? Sem dúvida. Mas também é uma tendência que não tem volta. E não são apenas itens de restaurantes, supermercados, farmácia. Empresas não conseguem ser 100% digitais, ainda há documentos a serem entregues, por exemplo. Com “a empresa” sendo a casa de dezenas de pessoas, abre-se um nicho para serviços de leva-e-traz.

A Uber é um exemplo disso. Com a diminuição do transporte de pessoas durante essa pandemia, anunciou o corte de 3.500 postos de trabalho, o fechamento de 45 escritórios e a possibilidade de demitir mais 3 mil pessoas por todo mundo. Ao mesmo tempo, lança novidades no transporte de tudo o que não for gente. O Uber Flash, por exemplo, permite que o cliente faça o envio de objetos pessoais para amigos, colegas de trabalho e familiares sem sair de casa. Você já leu sobre essa necessidade em algum lugar, certo?

Ainda na tecnologia, temos os drones, que estão saindo da fase de testes a uma velocidade inesperada. A grande tendência nesse caso é uma cidade hiperconectada virtualmente para facilitar as conexões reais.

Novas fronteiras – O que as pessoas estão fazendo em casa? Bom, isso também, principalmente nos países mais pobres. Nos países desenvolvidos, as pessoas vão hesitar em trazer uma vida ao mundo nessas condições. Porém, em países e comunidades mais carentes, o acesso já complicado a anticoncepcionais será potencializado com o receio das mulheres saírem, ir ao médico/farmácia e se contaminar. As nações Unidas esperam até sete milhões de gestações imprevistas nos próximos seis meses em 114 países de renda baixa e média.

Mas o que mais as pessoas fazem?

Aprendem a cozinhar, fazem cursos de línguas e outros aprimoramento pessoal, desenvolvem um hobby. Uma das forças por trás disso é a necessidade de se manter ocupado, a outra é bem mais urgente. Segundo pesquisa da multinacional de educação Pearson, dois terços das pessoas abaixo de 35 anos tem medo de perder seus empregos durante a pandemia. Isso faz com que muitos procurem melhorar suas chances através de cursos profissionais. Ponto para empresas de educação a distância, bem como o surgimento de um novo nicho, o das chamadas master classes. A proposta é simples. Pegue um bambambã em um assunto, faça-o dar um curso rápido e dividam os lucros. Assim, Rogério Ceni ensinaria como ser um bom goleiro, Érick Jacquin daria dicas de culinária (se alguém conseguir entende-lo) e assim por diante.

E o que acontecerá após o isolamento?

Como sempre, a mudança de comportamento. As pessoas perderão o medo dos cursos a distância, e esse segmento pode apresentar um grande aumento na demanda daqui para frente. Em matéria de leis, iniciativas como home-schooling, onde os pais ensinam seus filhos,  devem ganhar forças em países que ainda não o permitem.

E caímos novamente no item de cima. Delivery sim, mas do quê? Com mais pessoas aprendendo a cozinhar, será que o movimento dos restaurantes chegará ao mesmo nível pré-pandemia? Alguns até mesmo aprendem a plantar para depois comer.

A alteração dos hábitos domésticos atinge outros setores, também. Em várias partes do mundo, abrigos de animais comemoraram o fato de estarem, pela primeira vez, vazios. Sozinhas em casa, as pessoas buscam conforto em um Pet, um bichinho de estimação. E depois? O que acontecerá com todos esses gatos, cachorros, periquitos e papagaios quando as pessoas puderem sair de casa? Uma boa parte será abandonada, infelizmente, criando um potencial problema de saúde pública nas cidades. Mas outra parte permanecerá com seus donos, que terão mais um motivo para não sair de casa.

O ciclo, então, se torna claro: ser obrigado a ficar em casa – arranjar algo para fazer em casa – gostar desse algo – escolher ficar em casa devido a esse algo.

Se por um lado isso pode diminuir a frequência em locais genéricos, como parques, restaurantes e shoppings, por outro aumentará a procura por locais de nicho – clubes de costura, parques para pets, etc. Antes mesmo da pandemia alguns restaurantes já se beneficiavam com o nicho dos chefs amadores, separando um dia na semana para que eles entrassem na cozinha, montassem um cardápio e servissem amigos e parentes. Espere mais serviços que atendam aos nichos e hobbies recém-descobertos.

Quem vai ganhar – Quem investe na bolsa deve manter os olhos abertos pare grandes conglomerados de educação, como Cogna (COGN3 ), Ser Educacional (SEER3), Ânima (ANIM3) e outros. A recomendação é sempre a mesma: vá no site das empresas, clique em relacionamento com investidores, cheque números e planos, depois faça uma busca no Google (ou Bing, se alguém usa) sobre as notícias relevantes a empresa antes de decidir investir. Informação nunca é demais quando se trata de proteger seu dinheiro.

Empresas nas quais também vale a pena ficar de olho são a Randon (RAPT4) e Marcopolo (POMO3), além das companhias aéreas. Tanto a Randon e a Marcopolo estão muito cautelosas quanto ao futuro, devido ao cancelamento/adiamento de muitas encomendas.

Mas a tendência é favorável a tudo o que movimente produtos, ao invés de pessoas. A Marcopolo está fazendo sua parte, reforçando na mídia que a circulação de ar nos seus modelos urbanos está acima do recomendado pelas normas nacionais e da Organização Mundial da Saúde, e testando materiais mais leves, na produção, como o grafeno. Mas a questão é que muitas pessoas tenderão a usar menos ônibus e aviões daqui para frente,. Não se assuste com notícias no final da pandemia. Por exemplo, a companhia de cruzeiros Carnival anunciou que pretende voltar a operar em agosto, e a procura por passagens explodiu, revelando um número muito maior… não, chuta, leitor. Em relação a agosto de 2019, qual foi o aumento percentual da procura por passagens em agosto de 2020? Não, é mais. Mais ainda. 200%. Duzentos por cento. Mas estamos tratando de tendências aqui. Um dia frio não quer dizer que aquele ano não foi o mais quente registrado.

A mudança no comportamento dos habitantes de uma cidade já está aí. Isso levará a mudanças nas próprias cidades. A era do lar Multifuncional está aí.

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