Trends: Sobe ou Desce? Os shoppings na escada rolante

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Aqui iremos analisar os desafios de uma administradora de shopping (que é o que interessa para vocês, investidores!). E a indagação que fica é, será que esses desafios são só por causa do COVID-19!?

Será que algo vai “mall” com os shopping!? Como estão as empresas Multiplan (BOV:MULT3), Aliansce Sonae (BOV:ALSO3), Iguatemi (BOV:IGTA3), BrMalls (BOV:BRML3) e os resultados da General Shopping e Outlets (BOV:GSFI11)!?

Existem repórteres fotográficos de todos os tipos. Alguns não hesitam em ir ao front, apontar suas lentes para guerras e conflitos. Outros, perseguem celebridades. Ou passam semanas no mato para conseguir o perfeito registro de um animal.  Mesmo assim, Seph Lawless consegue ser único. O tema de suas fotos? Shopping Centers mortos. Locais gigantescos sem uma alma, decoração despencando, pinturas descascando, por toda a parte grades e portas fechadas. E onde Lawless encontra esses alvos? Não, eles não estão nas cidades planejadas da china, campeãs em amenidades e infraestruturas, onde só faltou combinar com as pessoas. Nessas cidades, moram meia dúzia de gatos pingados – alguns desses provavelmente a mando do Partido – e Shoppings imensos abrigam uma ou outra loja.

Esses shoppings também não estão em países pouco estáveis da África, Ásia.

Também não estão aqui, na América do Sul, onde, segundo a BBC, o icônico Helicóide da Venezuela passou de Shopping de luxo para centro de detenção e tortura de presos políticos.

Os Shoppings que Lawless clica a mais de uma década estão nos Estados Unidos. Certo, talvez não em Miami, onde a maioria é feita para atrair consumidores latinos; nem em mecas de consumo como Vegas e Nova Iorque.

E nem no símbolo maior, atração turística em si só, o gigantesco Mall of America. Onde você pode construir um ursinho de pelúcia único na loja Build-a-Bear, andar um pouco e… encontrar outra loja Build-a-Bear para fazer outro ursinho. Sim, o lugar é tão grande que aparentemente comporta duas lojas de faça-sua-pelúcia. Lugares como este estão seguros.

Será?

Os dois lados do espectro, a CNBC de esquerda e a direitista FOX anunciaram que o Mall of America deixou de pagar dois meses de sua hipoteca, gerando uma dívida de 1,4 bilhão de dólares.

Reflexos de que algo não anda bem desde antes da pandemia.

O que é um shopping – Apesar do que parece, um shopping não é feito só de Boticário, McDonald’s e Cacau Show; da mesma forma, um shopping de luxo não é feito só de Boticário, McDonald’s e Kopenhagen. Em muitas cidades, são sinônimos de diversão, programa com a família. Em outras, são um ambiente seguro para e comprar, o que volta e meia gera acusações de constrangimento e racismo. Também podem gerar fenômenos espontâneos. Quem se lembra do “rolezinho no shopping” de 2013, quando seis mil adolescentes invadiram um shopping paulistano, causando muita confusão.

Parênteses. Vamos usar a definição da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) para ver alguns números. Segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010 o Brasil tinha 766 shoppings. Na conta, entram shoppings rotativos/temporários e outros. Vamos ficar só com os que fazem parte dos cálculos da Abrasce: tradicionais, temáticos e outlets: tínhamos 636 centros de compra em 2010. Em 2010, segundo a Abrasce, eram 577, com 21 inaugurações previstas para 2020, antes da pandemia.

Os motivos que levam um shopping a fechar são muitos. Primeiro, os geográficos. Cidades são organismos vivos, e não é difícil uma vizinhança mudar o perfil de morador, ou sair de moda. A perda de “lojas-âncora”, aquelas que mais atraem os consumidores, é outro grande motivo. Por fim, os econômicos.

O PolloShopping, centro de compras popular de Curitiba, fechou as portas depois de 25 anos citando uma crise econômica que se arrasta desde 2014. Em seu press-release, destacou a “intransigência” do dono do imóvel onde se localizava, que, segundo a empresa “não aceitava negociar o valor do aluguel”. Mesma intransigência nos números da qual alguns shoppings são acusados por lojistas anônimos em textos que circulam nas redes sociais.

De fato, não se pode colocar a culpa somente na pandemia pela situação dos shoppings. É o consumidor que está cada vez mais questionando os intermediários. Vamos ver uma das marcas que citamos estar em todos os shoppings, O Boticário. Que pode estar ali em várias lojas. Quem Disse, Berenice?. Beautybox. Vult. Eume. Todas essas são marcas criadas ou adquiridas pelo grupo. Em entrevista para a CNNBrasil, o presidente do Grupo, Artur Grynbaum afirmou que a volta à normalidade dos negócios só deve ocorrer em 2021. Ou talvez seja mais provável dizer, nunca. O próprio Grymbaum afirmou que a empresa viu surgir, durante a pandemia, 34% a mais de novos consumidores digitais em comparação com outros meses. São pessoas que perdem o medo de fazer compras via internet. Mas, se fosse apenas a pandemia, por que o Grupo Boticário comprou, em 2019, a Beleza na Web, maior plataforma online de cosméticos da América Latina?

O consumidor já estava se libertando do hábito de sempre ir às lojas. O vírus só deu um empurrãozinho. Podemos estar entrando na época do shopping como opção, não obrigação. Vamos no shopping ver um filme e jantar ou vamos chamar a galera aqui em casa para testar aquela receita que aprendemos no curso online e maratonar aquela série na Netflix? A segunda opção ganha cada vez mais adeptos (veja Trends A Economia em Casa para mais informações).

O agora – Os shoppings, assim, enfrentam uma batalha urgente, a Covid-19, e uma longa guerra, a mudança no comportamento do consumidor. Na parte da batalha, temos boas notícias, concretas, distante das trocas de farpas nas redes sociais.

A brMalls (BRML3), por exemplo, negociou com o Banco Inter (BIDI4) uma linha de crédito de R$ 300 milhões para pequenos e médios empreendedores que atuam nos seus 26 shoppings administrados no país. Uma forma exemplar de reconhecer que estamos todos no mesmo barco.

A Multiplan (MULT3) registrou um aumento impressionante de lucro. Faturou 93% a mais no primeiro trimestre de 2020 em relação com o mesmo período do ano passado. O aumento nas vendas em janeiro e fevereiro ajudou muito, mas entram na conta também aquisições e vários detalhes contábeis. Aí veio março e tudo fechou. Negocia daqui, ajusta dali, a empresa adiou para 2021 a inauguração de seu ParkJacarepaguá, no Rio de Janeiro, vendeu sua Diamond Tower de São Paulo para o BTG por 810 milhões de reais e vamos tocando em frente.

Também, ou also como se diz em inglês, a Aliansce Sonae (ALSO3) (os malabarismos para fazer a piada “also, a ALSO”, meu Deus…) registrou um aumento impressionante nos lucros: 82,5% a mais em 2020 em comparação com o primeiro trimestre de 2019. Mas aí “caiu um meteoro nos shopping centers”, afirmou em entrevista para a Agência Estado Rafael Sales “nem companhias aéreas ficaram 100% fechadas, como os shoppings”. A empresa também negociou com seus lojistas, parcelando aluguéis em até seis vezes.

A General Shopping e Outlets (GSFI11) continua amargando prejuízos, citando a diminuição de sua área locável como uma das grandes responsáveis pelo fraco desempenho. Em comparação com as outras empresas listadas na B3, a General tem também uma batalha interna a vencer.

Os números não vieram tão bons na Iguatemi (IGTA3). Queda de 9,4% no primeiro trimestre de 2020 em comparação com o mesmo período do ano passado. Para enfrentar a batalha da pandemia a empresa, que viu os pedidos em sua plataforma online aumentarem 20 vezes, estuda ampliar esse serviço para mais cidades.

O shopping virtual seria a solução?

O depois – Certo, em muitos locais os shoppings reabriram, com restrições, mas reabriram. Mas o que dizer quando até o papa dos investimentos, Warren Buffet, está com um pé atrás? “Se você for dono de um shopping center, você tem vários locatários que não querem lhe pagar”, afirmou durante o mais recente encontro com os clientes de sua Berkshire Hathaway “estamos trabalhando com um cenário de mudança da procura e demanda de pontos comerciais.” Traduzindo, Buffet acha que muitos lojistas deixarão os shoppings, que não estão mais na época dourada do “se quer, quer. Se não quer, tem quem quer.”

A crise nas grandes lojas de departamento, tradicionais “âncoras” que deveriam atrair consumidores não ajuda no cenário. A JC Penney, por exemplo, era a segunda empresa que mais alugava espaços em shoppings nos Estados Unidos. Faliu e anunciou o fechamento de suas 242 lojas. Até mesmo a gigante das Lingeries Victoria’s Secret disse que fechará 250 lojas nos Estados Unidos e Canadá.

E no Brasil? Vamos pegar uma loja de departamentos bastante presente em shoppings. No primeiro trimestre de 2020, as lojas Americanas (LAME4). Comparando o primeiro trimestre de 2020 com o de 2019, a receita líquida de suas lojas de rua cresceu 6,5%. As lojas de shopping, ao contrário, perderam 4,2%. Não dá para colocar a culpa só no vírus.

Outros analistas nos Estados Unidos também preferem esperar para ver. A empresa especialista em análise de mercado imobiliário Green Street Advisors trabalhava com um cenário em que, devido ao comércio on-line, metade das lojas hoje em shoppings nos Estados Unidos iria fechar em um período de cinco a oito anos. Veio a pandemia. Agora o pessoal da Green Street aposta em dois anos.

Mesmo assim, tem gente que segue contra a maré. Veja o Baldwin Hills Crenshaw Plaza, em Los Angeles, Estados Unidos. Antes da pandemia, suas lojas-âncora, Sears e Walmart já tinham desistido de operar ali e fecharam suas portas. O cinema já avisou que talvez não volte a funcionar. Mesmo assim, um grupo de investidores não hesitou em comprar o local por mais de 100 milhões de dólares. O motivo? O shopping fica a dois passos de uma planejada estação de metrô de superfície. O enorme espaço antes ocupado pelo Walmart e pela Sears será convertido em escritórios, criando alguns clientes cativos para a praça de alimentação.

Essa é a ordem. Os shoppings terão que mudar para sobreviver e lucrar. Uma das receitas é dada por Oliver Chen, especialista em varejo do banco de investimento Cowen. Em entrevista à Forbes norte-americana, Chen deu a receita 3C: conveniência, curadoria e cultura.

Segundo o banco, nos Estados Unidos 80% do público-alvo dos shoppings, ou seja, classe média para cima, compra na Amazon. É esse nível de conveniência que se deve buscar. Seja imitando, como o já citado serviço Iguatemi 365, e empresas de entrega como a James, seja oferecendo algo mais, como o ParkShopping Barigui da Multiplan, em Curitiba, que em sua expansão passará a oferecer clínicas médicas, espaço para shows e até um parque que, prometem, integrará o shopping ao famoso Parque Barigui.

Curadoria é encontrar algo que seja “a sua cara” – espere o crescimento de shoppings temáticos ou “life-style”, que buscam atender um público bem específico, de nicho.

E cultura talvez seja o mais complicado de se conseguir. Significa encontrar um motivo para as pessoas irem ao shopping, agora que desacostumaram. Transformar o local de “centro de compras” em “ponto de encontro”. Não é fácil, talvez seja preciso fechar os olhos para um ou outro rolezinho, mas quem conseguir irá lucrar.

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