Depois dos recordes, bolsa ainda pode seguir em alta, diz especialista da Porto Seguro Investimentos

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O Índice Bovespa já subiu 27,2% este ano, mas as ações brasileiras ainda podem subir mais, acredita Marcelo Faria, gestor de renda variável da Porto Seguro Investimentos. “A tendência hoje ainda é de alta, com riscos, mas de alta”, afirma. Os riscos vão da eleição presidencial no ano que vem ao cenário externo de juros baixos e crescimento, o corte da Selic aqui e até o congresso do Partido Comunista na China. Mas muitos fatores podem ajudar a manter os preços subindo.

Há, portanto, oportunidade para o investidor que ainda quer entrar nesse mercado, com uma visão de diversificação e de longo prazo. “É preciso olhar os princípios básicos para investir em ações, como usar a parte da poupança que a pessoa não vai precisar, de preferência a parte do dinheiro novo que sobra para investimento, levando em conta também se ela já não tem investimento em ações”, sugere. Outro cuidado é escolher bem as ações, ou optar por um fundo, no qual o gestor faz as escolhas. “Investidores médios podem optar por terceirizar a gestão”, diz.

Segundo ele, em termos de fundamentos, hoje o preço das ações do Índice Bovespa equivale a 13 vezes seu lucro, um pouco acima da média de 12 vezes. “Mas é normal porque o mercado está antecipando uma retomada dos lucros, por isso o preço sobe na frente e depois o lucro acompanha”, explica. A expectativa também é de um aumento dos lucros das empresas nos próximos anos, acompanhando a recuperação da economia do país. Algum sinal dessa melhora dos lucros pode aparecer já no fim deste mês, com os primeiros balanços do terceiro trimestre.

Eleição de 2018

O maior risco para a bolsa brasileira ainda é eleição presidencial de 2018, admite Faria, especialmente a vitória de um candidato populista que desfaça o ajuste fiscal promovido até agora pela atual equipe econômica e deixe de lado as reformas. Mas há também um risco bom, de aprovação da reforma da Previdência, mesmo que parcial, e que ajudaria no equilíbrio das contas públicas. “Mas não acreditamos que ela vá passar”, admite o gestor.

A dificuldade da eleição é a falta de previsibilidade, já que não há ainda um candidato que aglutine as propostas de reformas liberais que agradariam os investidores e o mercado. “Existem vários nomes, com 15%, 20% de preferência, o que reduz a visibilidade do que pode ocorrer e isso vai criar instabilidade”, acredita. Esse é um dos riscos que o investidor que entrar agora na bolsa vai correr, de muitas oscilações, mesmo que o melhor cenário se confirme em outubro do ano que vem. “Eu pessoalmente acredito que há interesse por parte da população em votar candidatos mais pé no chão em termos e economia, que não prometam mundos e fundos como no passado, e que defendam um Estado mais eficiente, que preste bons serviços sem aumentar impostos”, diz.

Maior seletividade

Diante do risco de um resultado ruim, Faria sugere o investimento em ações como diversificação. E escolhas concentradas em empresas boas e sólidas. “O fator qualidade vai ser preponderante nos próximos anos, com empresas com bons balanços, resistentes a crises, com bons balanços e líquidas e com preço ainda atrativo tendem a se beneficiar”, diz. Ele dá como exemplos o Itaú Unibanco, líder em rentabilidade e eficiência no setor. Ou a MRV, que passou pela crise do setor imobiliário sem grandes erros operacionais e que vai contar com a demanda do programa Minha Casa Minha Vida. “A demanda por imóveis populares é muito alta e os governos tem todo interesse em manter o programa, que foi aperfeiçoado, conta com recursos do FGTS e linhas de financiamento com prestações que equivalem ao aluguel”, diz.

Cenário externo ajuda

O movimento de recuperação da bolsa neste ano tem duas causas principais, explica Faria. A primeira, é mercado externo, que tem um peso muito relevante, de mais de 50% dessa força de recuperação. “Pela primeira vez em muitos anos, as autoridades monetárias dos países mais ricos estão mais animadas com a resposta da atividade econômica aos estímulos de liquidez iniciados em 2009”, afirma o gestor.

Foram oito anos de estímulos importantes, não só nos juros, que chegaram a ficar negativos em vários países, mas também via compras de papéis de bancos pelos Bancos Centrais, os chamados programas de Quantitative Easing.

Crescimento sem inflação

Esses programas começam a mostrar efeitos sobre a atividade, que melhora gradualmente, sem que a inflação dispare. “É um crescimento bom, mas não suficiente para pressionar a inflação, e isso faz com que a liquidez abundante aplicada a juro quase zero continue”, afirma Faria, citando estimativas de que 18% dos recursos dos países desenvolvidos estão aplicados em juros negativos. “E onde tem um juro melhorzinho e um país saindo de uma recessão gigantesca é o Brasil, então vamos colocar um pouco de dinheiro lá, pensam os gestores internacionais”, acrescenta.

Capital estrangeiro

No Brasil, a situação é semelhante, com a economia começando a sair da recessão ajudada pela queda dos juros. “Há indicadores de varejo e vendas melhorando e alguns sinais de avanço nas vendas das empresas, ao mesmo tempo em que a inflação segue baixa, assim como no exterior”, explica Faria. A combinação dessas coisas favorece a bolsa e é ampliada pelo fluxo externo de investidores no mercado brasileiro. “Quando o fluxo estrangeiro vem, a bolsa sobe, e quando para, o mercado também fica de lado”, diz o gestor, citando como exemplo os últimos cinco pregões da B3.

Riscos para o otimismo

O que poderia mudar esse cenário seria um sinal de crescimento acelerado da inflação ou a fala de algum banco central no exterior sobre retirar mais depressa os estímulos dados ao mercado. Ou alguma notícia específica que derrubasse as bolsas americanas. “Caso o governo dos EUA resolva agir como a Europa, de tentar limitar o poder das empresas de tecnologia, como Google, Facebook, Apple ou Amazon, o impacto lá seria grande e afetaria o Brasil”, diz. Há ainda as questões geopolíticas, como movimentos separatistas como o da Catalunha ou o crescimento de grupos radicais, como na Alemanha. E há também a China, onde o Partido Comunista vai fazer seu congresso no dia 19 de outubro. O congresso ocorre a cada cinco anos e define o Comitê Central, que vai definir os destinos do país. “As decisões do Congresso vão ter repercussão na atividade econômica chinesa”, lembra Faria.

O mais provável, porém, é que o atual secretário-geral e presidente do país, Xi Jinping, se mantenha e ganhe força entre os 7 indicados e isso deve acelerar reformas financeiras, como a redução das alavancagens das instituições. Isso pode, porém, levar a menos estímulos para a infraestrutura e para o mercado imobiliário, com impactos sobre a demanda por aço e minério de ferro.

Juro baixo favorece ações

Para Faria, o bom para o mercado acionário é que o juro no Brasil está caindo tanto que o investidor não tem tanta alternativa. Ou ficar em um fundo DI ou na poupança com rendimentos próximos e baixos nominalmente ou buscar alternativas em ações ou fundos. “Por isso, o volume de recursos que pode entrar ainda na bolsa brasileira é grande, tanto de pessoas físicas quando de investidores institucionais”, afirma Faria. “E isso já está acontecendo”.

O importante é que essa entrada no mercado ocorra de forma correta, em empresas de qualidade. “Quando você destampa a panela de pressão, pode ter várias empresas com problemas que sobem na frente, empresas que sofreram mais, mais alavancadas, ou de menor capitalização”, diz. “Depois vamos ter de separar o que é bom.” Marcas fortes, com custo baixo de produção, bom plano estratégico e vantagens competitivas claras vãos ser beneficiadas depois dessa alta generalizada. E o mercado, em um patamar já alto, vai procurar diferenciais, que podem ser um dividendo constante, como um Itaú, ou uma empresa imobiliária que não teve tantos distratos, como a MRV. Ou uma empresa de shoppings que se saiu melhor da crise, como a Multiplan. “Será um grupo que deve se beneficiar mais”.

 

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