Wall Street volta hoje do feriado nos Estados Unidos e os mercados financeiros devem continuar surfando no movimento global de otimismo, diante das apostas de maior crescimento econômico em 2018. Os negócios locais tendem a continuar se aproveitando desse maior apetite por ativos de risco, mas sem tirar o radar do julgamento de Lula, no próximo dia 24, e da votação da reforma da Previdência, no mês que vem.

À espera desses dois grandes eventos no cenário doméstico, os mercados no Brasil devem pegar carona no ambiente internacional, em uma sessão na qual a Bovespa pode conquistar a marca dos 80 mil pontos e o dólar pode ficar abaixo de R$ 3,20. Os índices futuros das bolsas de Nova York registram alta acelerada nesta manhã, indicando que novos recordes na sessão regular, depois de encerrar a semana passada em níveis históricos de alta.

Já o dólar tenta recuperar parte do terreno perdido para as moedas rivais de países desenvolvidos – como o euro, o iene e a libra – em meio às apostas de retirada de estímulos dos bancos centrais europeu (BCE) e japonês (BoJ) e também diante das negociações sobre o chamado Brexit. Com isso, as commodities devolvem os ganhos, com o petróleo caindo mesmo após o cartel da Opep afirmar que vai manter os cortes na produção.

Os metais básicos também recuam, com as perdas lideradas pelo níquel. A agenda econômica desta terça-feira segue fraca. No Brasil, saem (8h) o primeiro IGP do mês, o IGP-10, e a segunda leitura de janeiro sobre a inflação ao consumidor (IPC-S). No exterior, destaque para a atividade industrial na região de Nova York (11h30) e também para os índices de preços na Alemanha e no Reino Unido, logo cedo.

Esse ambiente externo mais positivo se contrasta com o leque de incertezas por aqui. Um dos vetores importantes de definição de tendência para os negócios locais está no julgamento do ex-presidente no TRF4, na semana que vem, que pode tirar Lula da corrida eleitoral em outubro. Essa perspectiva, somada à expectativa em torno da aprovação de novas regras para aposentadoria, explica o recente comportamento dos ativos brasileiros.

Porém, o cenário eleitoral pode continuar trazendo insegurança aos investidores, com o imbróglio judicial sobre o caso do tríplex do Guarujá (SP) estendendo-se por mais algum tempo. Da mesma forma, ficou mais delicada a situação do governo para votar a reforma da Previdência após a piora na nota de crédito (rating) do Brasil pela S&P. Afinal, já que o Brasil foi rebaixado, o Congresso pode achar melhor incorrer nesse desgaste depois.

Com isso, os mercados domésticos podem precisar melhorar a percepção dos riscos existentes para o Brasil ao longo de 2018 para não serem pegos de surpresa. Seja por causa do baixo apoio dos aliados às novas regras para aposentadoria; dos ruídos em torno da sucessão presidencial no país ou ainda do acirramento da disputa em outubro, com muitos membros da cúpula do governo querendo ser candidato.

Trata-se de um cenário complicado, no qual o grande risco é esquecer 2018 e já se começar a falar de 2019. Diante desses fatores-surpresa, decisões de investimentos podem ser adiadas para o ano que vem, quando já terá sido eleito um candidato e sua agenda de governo. Até lá, tudo o que foi conquistado pelo governo Temer em dois anos pode se mostrar efêmero.

Afinal, sem a safra recorde de alimentos para absorver reajustes recorrentes nos preços de energia (conta de luz e combustível), a inflação tende a acelerar, saindo da faixa de 3% em 2017 e subindo para perto da meta de 4,5% em 2018. Esse movimento deve inibir o Banco Central de continuar cortando os juros básicos, ainda mais se não houver avanços nas reformas estruturais.

Aliás, a chance de um corte na Selic em março perdeu força após dados mais salgados de inflação neste começo de ano e também depois da decisão da S&P de agravar o grau especulativo do Brasil. Com isso, deve faltar motivação aos empresários em contratar mais, o que tende a sustentar a taxa de desemprego ainda em dois dígitos, adiando a melhora na geração de renda e pesando no consumo das famílias ao longo dos próximos meses.

Sem demanda interna e sem investimentos produtivos, o reflexo se dará no desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018, que pode evidenciar mais um voo de galinha da economia brasileira. Assim, as recentes taxas de crescimento econômico não devem conseguir se sustentar, mergulhando o Brasil em mais uma crise. Por ora, a aposta do vai na direção contrária, o que abre espaço para muitas turbulências no mercado durante este ano.