Mercado de olho no placar da Copa e do Copom, no drible do dólar no BC, no IPCA-15 e na guerra de Trump

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A terceira semana de junho, já marcada pela agitação com os jogos da Copa do Mundo, terá como principais destaques eventos da agenda local. As atenções estarão voltadas principalmente para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira, dia 20. Outro foco das atenções estará no exterior, no desdobramento da decisão do presidente americano Donald Trump de levar adiante as tarifas de importação de produtos chineses, o que deve elevar a tensão entre as duas maiores economias do mundo. Os chineses prometem responder com retaliações comerciais também e a guerra comercial pode prejudicar toda a economia mundial. Trump também se desentendeu com aliados europeus e com o Canadá e o México, em sua cruzada protecionista, e ficou isolado na reunião do Grupo dos 7 países mais ricos.

No Brasil, a avaliação da maior parte dos analistas é de que o Copom deve ser de manter a taxa básica de juros Selic em 6,5% ao ano, apesar das pressões de parte do mercado para uma alta da taxa. No fim da semana passada, o mercado futuro de juros da B3 projetava uma Selic de 7,34% no ano, bem mais o juro atual, e o dólar chegou a bater R$ 3,81 durante a semana apesar dos US$ 24,5 bilhões em swaps cambiais vendidos ao mercado. A moeda americana perdeu um pouco de força após o governo reforçar que venderá mais US$ 10 bilhões esta semana e fechou sexta-feira a R$ 3,73 no mercado comercial, das grandes transações.

Mais que manter a taxa Selic, porém,  se espera que o Banco Central (BC) sinalize no comunicado como pretende acompanhar os efeitos do câmbio sobre a inflação e o que se pode aguardar para as próximas reuniões do Copom. Um dado importante será o impacto da alta do dólar e dos juros nas projeções do mercado, que aparecerão no boletim Focus, pesquisa feita pelo BC e divulgada na segunda-feira. Se as estimativas de inflação subirem, isso pode pressionar o BC a rever a manutenção dos juros em algum momento. Também na quinta-feira, véspera de jogo do Brasil, que na sexta-feira enfrenta a Costa Rica, o IBGE divulga o IPCA-15, prévia da inflação oficial de junho, que também mostrará se o dólar começa a ter impactos na inflação, assim como a greve dos caminhoneiros.

Na política, Alckmin tenta atrair partidos e ser o candidato do centro

Apesar da Copa do Mundo, o cenário político continuará movimentado pelas articulações dos pré-candidatos à Presidência da República e dos partidos políticos. Em dificuldade nas pesquisas de intenção de voto, Geraldo Alckmin (PSDB) deve partir para o ataque e buscar ocupar espaços para se viabilizar como uma opção do centro para a direita, buscando a adesão de forças que não lançaram nomes, entre elas, o DEM e os partidos do chamado centrão.

Os democratas mostram-se divididos entre Alckmin e Ciro Gomes (PDT), que está empatado com o tucano nas pesquisas. Alckmin precisa desbancar o candidato da direita, Jair Bolsonaro, que segue liderando as pesquisas, atrás apenas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja candidatura ainda depende da Justiça.

Ainda no campo do PSDB, o ex-governador paulista procura manter distância do governo Michel Temer, desgastado pelo fraca recuperação da economia e pelas investigações envolvendo o presidente e seus aliados. Os sinais são de que a Procuradoria Geral da República e o próprio Supremo Tribunal Federal não pretendem dar um cartão vermelho para Temer agora, o que complicaria demais o jogo das eleições desde ano e a já delicada situação econômica do país, ainda mais nos momentos finais do mandato.

As dificuldades do governo se refletem também na pré-candidatura do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que ainda tenta se viabilizar como o titular na escalação do MDB para a disputa presidencial e, com isso, disputar a vaga de candidato do centro. Mas, até o momento, seu desempenho não chega a entusiasmar o partido, que pode preferir jogar na retranca e apoiar outro nome com mais chances de vitória.

STF julga ação contra  Gleisi na terça-feira

No lado da oposição, o PT é novamente pauta envolvendo a Lava Jato. A presidente nacional do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PR), deverá ser julgada na terça-feira, 19, no Supremo Tribunal Federal (STF), por crime de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os desdobramentos do julgamento podem causar mais danos à imagem da sigla, que insiste na pré-candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. Na semana que vem, o Supremo deve julgar outro recurso do ex-presidente, que busca pelo menos cumprir a pena em prisão domiciliar, o que abriria espaço para Lula colocar em campo sua campanha presidencial.

Selic deve ficar estável; IPCA-15 mostrará impacto da greve dos caminhoneiros na inflação

A estimativa do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depec) do Bradesco é de manutenção da  taxa Selic em 6,5% ao ano.”Até aqui, o BC tem reforçado a mensagem de que não há relação mecânica entre o câmbio e a política monetária”, dizem em relatório economistas , lembrando que o BC tem mantido atuação no câmbio por meio de swaps cambiais, provendo liquidez ao mercado e mostrando não ver restrições para elevar o estoque a patamar “consideravelmente” superior aos US$ 115 bi atingidos em meados de 2015.

Sobre o IPCA-15, a equipe prevê que já deverá mostrar o primeiro impacto da greve dos caminhoneiros na inflação. “Esperamos alta de 1,04% e lembramos que, nos próximos meses, essa pressão tende a se dissipar.” Já os analistas do Banco Fator projetam 0,87% para a variação mensal e 3,43% para a anual, contra taxa anual anterior de 2,70%.

Agenda externa tem PMI’s da Europa e EUA e reunião da Opep

Na agenda econômica externa, o destaque vai para os Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês) da Área do Euro e dos EUA. “Os indicadores de junho devem reforçar a leitura de divergência de crescimento entre essas regiões, com EUA em aceleração”, estima o Depec-Bradesco.

Outro destaque lá fora, segundo analistas de mercado, será reunião da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), a partir da sexta-feira (22), em Viena, em que a expectativa é de anúncio de expansão na produção de petróleo.

Cenário de juros nos EUA reforça fortalecimento do dólar, diz Bradesco

Na última sexta-feira, os analistas do Depec-Bradesco já lembravam que a diferença de ritmo de crescimento entre EUA e Área do Euro tem se confirmado. “Nos EUA, o crescimento sustentado, com fortalecimento contínuo do mercado de trabalho e inflação na meta, levaram a um novo aumento da taxa de juros; além disso, pela primeira vez, a maioria dos dirigentes prevê mais duas altas adicionais neste ano, o que levaria a taxa para 2,25% a 2,5% ao final de 2018 e,  para o ano que vem, o consenso também mudou e agora a maioria prevê três altas”, escrevem.

Para a equipe do banco, “a normalização da taxa de juros nos EUA reforça o cenário de fortalecimento do dólar, que tem pressionado as moedas emergentes”. Mas o Banco Central Europeu (BCE), reconhecendo desaceleração da atividade na região e aumento da preocupação com eventos políticos, postergou a vigência de seu programa de compras de títulos até dezembro e manteve as taxas de juros negativas. “A sinalização anterior era de que o programa seria encerrado em setembro. Além disso, o BCE indicou que pode manter a taxa de juros inalterada até meados do ano que vem, acentuando a tendência de fortalecimento da moeda americana.”

Itaú vê juro em 6,5%, mas sensível à “dinâmica do câmbio”

O cenário base do Itaú é de que a taxa Selic permanecerá estável em 6,5% até o fim do ano. Desde a reunião do Copom em maio, o cenário tem se tornado crescentemente desafiador, com riscos maiores tanto para a inflação quanto a atividade. Do lado doméstico, a piora das condições financeiras e os efeitos da paralisação dos caminhoneiros devem afetar negativamente o crescimento da atividade econômica. Sobre a recente depreciação do real, o comitê destacou que a política monetária não reagirá de forma automática à evolução da taxa de câmbio. “Mas entendemos que a postura da política monetária continuará sensível à dinâmica da taxa de câmbio e, em especial, de seu impacto nos dados de inflação subjacente e expectativas de inflação”, diz o banco, deixando aberta uma porta para uma alta dos juros.

Atenção ao movimento do câmbio; BC deve oferecer US$ 10 bi em swaps

O mercado estará acompanhando de perto, portanto, a atuação do BC no câmbio, e como o dólar vai reagir às intervenções, já que a estimativa é que a autoridade monetária ofereça perto de US$ 10 bilhões em contratos de swaps na  semana.

Na semana passada, lembra o economista-chefe da ModalMais, Alvaro Bandeira, o clima foi de grande volatilidade nos principais mercados de risco, agitados pelas expectativas de decisões sobre juros de bancos centrais de países desenvolvidos e, internamente, com investidores preocupados com o cenário político e a atuação do BC no câmbio, além do vencimento do índice futuro para o prazo junho.

“Outro trauma dos mercados ficou por conta da lista de tarifação americana sobre produtos provenientes da China (1.102 produtos) com tecnologia industrial significativa, seguida da promessa de retaliação pela China na mesma medida”, destaca o economista em seu comentário. “Pode ser início de guerra comercial ou pelo menos de constrangimento do comércio internacional”, avalia.

Perspectiva para a semana ainda é de tensão nos mercados

Na avaliação de Bandeira, mesmo com a Copa do Mundo correndo em horário comercial e os mercados funcionando plenamente, não se deve contar com a diminuição das tensões dos investidores. “O quadro promete ser novamente de estresse, com os agentes testando o Bacen em sua capacidade de reduzir a volatilidade no câmbio e, provavelmente, fazendo operações adicionais aos swaps cambiais que vêm acelerando”, avalia o economista.

Para ele, ainda que pareça claro que a alta dos juros no mercado americano direciona fluxo de emergentes para o exterior, a saída de recursos do mercado se prenderia “mais ao risco político local e à situação da economia — que sofre alguma degradação recente a partir do movimento dos caminhoneiros”.

De olho na cessão onerosa do petróleo e privatização da Eletrobras

O economista segue acreditando que somente com notícias positivas os mercados poderiam mostrar alguma recuperação. “Uma possibilidade seria a Câmara conseguir votar a cessão onerosa do petróleo, uma discussão entre Petrobras e Tesouro, positiva para ambos”, destaca. “Ainda nessa linha, teríamos a privatização da Eletrobrás e venda de distribuidoras de energia; mas seria preciso boas notícias na área macroeconômica e política, e isso parece bem mais complicado”, completa.

Lista de tarifação americana e acirramento das relações comerciais são risco do momento

No ambiente externo, analisa Bandeira,  o maior risco de momento seria a lista de tarifação americana, além do acirramento das relações comerciais entre países. “Não podemos esquecer que o quadro pior ocorre mesmo é no Brasil, já que o Nasdaq americano tem batido recordes sistemáticos de pontos, e outros mercados vêm reagindo de forma normal”, alerta.

Pela ótica da análise técnica, o mercado não deveria, segundo o economista, perder o patamar de 70.800 pontos — situação que poderia provocar nova precipitação até algo próximo de 69.000 pontos.

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