O Black Friday ainda não chegou

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As ações brasileiras estão a preço de banana, mas não se sabe quando chegará a hora da xepa. A conjuntura complicada, diante do entrave político e dos pífios indicadores econômicos, deve piorar nos próximos meses. De acordo com o levantamento da Revista RI, o valor das companhias abertas caiu 40% nos onze primeiros meses do ano, de US$ 844,5 bilhões para US$ 554,5 bilhões, mas isso não significa que estão no melhor preço. A expectativa, diante da ameaça da Moody´s de rebaixamento da nota e da falta de convergência da inflação para a meta, que levará a novos aumentos da taxa de juros, é de que o valor de mercado das empresas listadas na BM&FBovespa recue mais ainda. O Black Friday da bolsa ainda não chegou!

A possível e provável piora do rating do país é um complicador a mais para 2016. “A S&P está com o dedo no gatilho e, se nada for feito, rebaixará a nota. Porém, o que complicaria mais a situação seria a retirada do grau de investimento por outra agência de peso”, dizia o economista chefe para a América Latina do BNP Paribas, Marcelo Carvalho em entrevista coletiva semanas atrás, ao alertar que muitos fundos não podem deixar recursos em países que não têm grau de investimento.

A tal outra agência de peso se manifestou esta semana. A Moody’s colocou, na quarta-feira, o rating do Brasil, atualmente em “Baa3”, em revisão para rebaixamento, devido à “rápida deterioração material das tendências macroeconômicas e orçamentárias e à menor probabilidade de uma mudança de rumo nos próximos dois a três anos”. Segundo a agência, tal fato piora as condições de governabilidade e aumenta o risco de paralisia política.

A Moody´s alertou para o óbvio ao afirmar que a probabilidade de uma virada no desempenho econômico e fiscal do Brasil parece improvável em 2016. As bases para que o Brasil mantenha o rating “Baa3” (último patamar do grau de investimento) estão quase perdidas: expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 2% e superávit primário da mesma magnitude depois de 2016. Para o próximo ano, o departamento econômico do Bradesco, prevê uma queda real do PIB em 2,8%. Já o BNP Paribas é mais pessimista: retração de 3,2%.

Outro fator que torna os investidores reticentes quanto ao momento de olhar para as ações brasileiras é a expectativa de novos aumentos na taxa básica de juros (Selic). A inflação prevista para 2016, segundo o relatório Focus, já está acima do topo da meta para o IPCA (6,5%). Há a pressão esperada sobre os preços administrados. No caso de 2015, a mediana avançou de 10,38% para 10,44%, registrando a 12ª semana consecutiva em que há alta das estimativas para esta variável.

Além disso, a taxa real de juros parece incompatível com a realidade atual brasileira. A projeção do Bradesco no acumulado de doze meses (2015) é de 2,6%, enquanto para 2016, seria de 6,9%. Diante da aversão ao risco, a pressão sobre a alta dos juros é uma realidade.

O próprio colegiado do Banco Central já mostrou divergência quanto à manutenção da taxa Selic. Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), dois dos oito membros votaram pela elevação da taxa de juros de 14,25% ao ano para 14,75% ao ano, apesar da baixa atividade econômica.

A questão atual é que há um comprometimento de todos os indicadores econômicos e a total falta de credibilidade em uma retomada no – cada vez mais longo – curto prazo. Existe, no entanto, certa expectativa de que, após uma melhor definição do cenário político, ocorra uma guinada econômica, que leve à retomada do crescimento. O fato é que o fundo do poço ainda não chegou e os preços já depreciados tendem a ficar ainda mais baratos no futuro próximo.

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