Credibilidade arranhada

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Ao manter a Selic em 14,25% ao ano, o Banco Central criou uma fenda em algo essencial para o regime de metas: sua credibilidade. As sinalizações anteriores levaram o mercado a crer que o Copom elevaria a Selic em 0,25 p.p ou até 0,5 p.p., já que a inflação se encontra muito acima do teto da meta (6,5%) e não mostra sinais de convergência. A surpresa causou fortes ajustes nos DIs futuros. Enquanto as curvas de prazo mais curto recuaram, os contratos mais longos passaram a estimar juros maiores. Foi a quarta manutenção seguida dos juros pelo BC.

Além da decisão em si, surpreendeu ainda a sinalização do que ocorreria: o comunicado emitido na véspera pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, sobre o relatório do FMI “World Economic Outlook”, no qual considerava significativas as revisões das projeções de crescimento da instituição para o Brasil em 2016 e 2017. O fundo, que estimava uma recessão de 1% neste ano e um crescimento de 2,3% para 2017, aponta agora para uma queda de 3,5% e um crescimento nulo (0%) para o PIB nos respectivos períodos. Ao ocorrer tão próxima da reunião do Copom, a quebra do silêncio do BC deixa a dúvida: houve ingerência política?

O comportamento do Banco Central permite a interpretação de que o relatório do FMI foi usado como desculpa para uma mudança de rumo em cima da hora. Os indicadores econômicos tanto internos como internacionais são ou devem ser monitorados constantemente pela autoridade monetária. Ou seja, o documento não deveria ser tratado como novidade para o colegiado, menos ainda a projeção para a economia brasileira. Afinal, quem conhece melhor as nossas mazelas: BC ou FMI?

A decisão de manter a taxa de juros parece acertada. O problema foi a forma atrapalhada como ocorreu. Além dos índices de preço, diversas variáveis são afetadas pelo aumento de juros, o que se chama em economia de trade off. Subir a taxa significa reduzir ainda mais a demanda, que já é pífia, e o PIB. A Selic mais elevada também implica em aumento do endividamento público, hoje em 70% do PIB. Além disso, é fato que o mundo está desacelerando, o que afetará para baixo o preço das commodities e a inflação. Por isso é preciso certo conservadorismo e uma forma de comunicação clara para que as expectativas dos agentes sejam convergentes com o que o BC deseja transmitir.

Elevar a taxa de juros é o principal instrumento do Bacen para conter a trajetória inflacionária, que encerrou em dois dígitos no ano passado (IPCA – 10,67%) e não mostra sinais de arrefecimento para este ano – o mercado projeta que o indicador fique próximo a 10%. Mas outro remédio para conter a alta dos preços, com menos efeitos colaterais, acaba de sair pelo ladrão: a credibilidade.

No início do mês, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Altamir Lopes, afirmou que a instituição tomaria as “medidas necessárias” para trazer a inflação para a meta central de 4,5% em 2017. Ele declarou à imprensa que o BC “tem medidas e pode adotá-las, independentemente do nível de atividade que se apresente. A nossa missão, o nosso mandato, é cumprir a meta de inflação”.

Esquecidos a missão e os indicadores atuais, a manutenção da Selic é criticada não pela decisão em si, mas pela desastrosa comunicação. O próprio BC indicava que a alta era líquida e certa. Como “guardião” da estabilidade monetária, o BC, em recente carta ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, afirmou que cabe especificamente à política monetária manter-se vigilante, para garantir que pressões detectadas em horizontes mais curtos não se propaguem para outros mais distantes.

Já na penúltima reunião notou-se divergência entre os membros do colegiado (dois votaram a favor da alta). No comunicado, o Copom afirmou que foram apontadas incertezas adicionais associadas ao balanço de riscos, principalmente quanto à velocidade do processo de recuperação dos resultados fiscais e à sua composição e ao fato de o processo de realinhamento de preços relativos ter-se mostrado mais prolongado e mais intenso que o previsto. As expectativas agora voltam-se para a ata, que precisa justificar o que mudou na cabeça dos membros do Copom.

 

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação

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