Do liberalismo ao New Deal

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A crise diplomática internacional resultante das novas políticas de fechamento de fronteiras põe em xeque o liberalismo apregoado nos últimos tempos. O preconceito com os “bad hombres” de todos os lados, sejam refugiados, latinos ou até mesmo europeus altera as relações internacionais que passam do liberalismo para o intervencionismo. No Brasil, nada é diferente e o extremismo toma conta. Vide as lamentáveis comemorações pela morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva.

Desde que a ciência econômica existe, oscila-se entre intervenção total do estado e liberalismo. Os momentos em que os países penderam totalmente para um dos lados foram marcados por crises e guerras.

Olhar agora para a política internacional de Donald Trump e a reação dos demais países é relembrar o New Deal de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945). Depois da crise de 1929, os Estados Unidos voltaram-se para a economia interna, com a intervenção do estado para garantir o bem-estar da população, algo oposto ao apregoado pelo liberalismo clássico. O plano envolvia uma série de medidas intervencionistas, definidas pelo estadista como uma nova concepção dos deveres e das responsabilidades do governo. O estado norte-americano ganhou peso e a democracia foi mantida. Já em outros países, o aumento do papel do Estado na economia levou ao autoritarismo, que provocou a Segunda Grande Guerra Mundial.

Detonadas as bombas atômicas sobre o Japão, a ideologia comercial começou a ser baseada nos princípios do Plano Marshall: era preciso recuperar e reorganizar a economia do “mundo livre”, aumentando seu vínculo com os Estados Unidos, principalmente através das relações comerciais. Assim, foi possibilitada a reconstrução dos países capitalistas e o crescimento de economias emergentes, inclusive a do Brasil. Esta postura começou a mudar na crise de 2008 e agora foi enterrada pela eleição de Trump.

A reação dos outros países ao “New Deal” de Trump demonstra que o intervencionismo exacerbado levará a um novo desequilíbrio da economia mundial. O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, avaliou a mudança de cenário em Washington como uma ameaça externa a ser enfrentada pela União Europeia, em recente carta dirigida aos 28 países membros. No documento, ele declara que a nova administração coloca em xeque os últimos 70 anos de política externa norte-americana.

Os maiores grupos do Parlamento Europeu solicitaram à União que rejeite a escolha de Ted Malloch para embaixador americano devido às suas declarações consideradas antieuropeias. Em entrevista à BBC, Malloch disse que ocupou um posto diplomático através do qual ajudou a derrubar a União Soviética. “Talvez exista outra União que precise ser um pouco domada”. Sobre a moeda única, o economista afirmou que o euro “não só está em vias de desaparecer, como pode colapsar no próximo ano e meio”.

Na Europa, o extremismo também começa a tomar frente, vide os motivos que levaram a população a votar pela saída do Reino Unido da União Europeia, agora aprovada pelo parlamento britânico. A saída está relacionada à necessidade de ter controle sobre a imigração. Não é preciso ir tão longe para avaliar os ânimos mundiais. No último dia 30, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, assinou um decreto que altera a Lei de Migração do país. O documento amplia as restrições à entrada de estrangeiros, especialmente imigrantes com antecedentes penais ou que venham de países com forte presença do narcotráfico (Peru, Paraguai, Bolívia e México). Curioso foi que Macri utilizou discurso similar ao de Trump para anunciar as medidas: “Nossa prioridade é cuidar dos argentinos”.

Os estremecimentos diplomáticos mundiais devem levar a colapsos se atingirem China e Rússia. Primeiro há a construção do muro para isolar os “bad hombres”, depois mudanças nas negociações internacionais que visam demonstrar a superioridade americana. Isso sem falar dos conflitos com os muçulmanos. O intervencionismo e a afirmação de superioridade de cada país acirram os ânimos por todos os cantos. No Brasil, a dicotomia PT/coxinhas parecia amainada. Mas a morte de dona Marisa demonstra um lado bem diferente daquele lendário povo cordial que teria habitado este país. “Bolsonarices” marcarão os próximos anos.

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação. Atuando como jornalista, vem acompanhando nos últimos 15 anos o dia a dia do mercado financeiro. Também é graduada em Economia pela UFRGS e pós graduada em Finanças pela FIA. Leciona no as disciplinas Estratégias Econômicas Empresariais, Finanças Internacionais, Políticas Econômicas e Administração Financeira, no Senac-SP.
Acesse: http://www.compliancecomunicacao.com.br

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