Do liberalismo ao New Deal

Share On Facebook

A crise diplomática internacional resultante das novas políticas de fechamento de fronteiras põe em xeque o liberalismo apregoado nos últimos tempos. O preconceito com os “bad hombres” de todos os lados, sejam refugiados, latinos ou até mesmo europeus altera as relações internacionais que passam do liberalismo para o intervencionismo. No Brasil, nada é diferente e o extremismo toma conta. Vide as lamentáveis comemorações pela morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva.

Desde que a ciência econômica existe, oscila-se entre intervenção total do estado e liberalismo. Os momentos em que os países penderam totalmente para um dos lados foram marcados por crises e guerras.

Olhar agora para a política internacional de Donald Trump e a reação dos demais países é relembrar o New Deal de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945). Depois da crise de 1929, os Estados Unidos voltaram-se para a economia interna, com a intervenção do estado para garantir o bem-estar da população, algo oposto ao apregoado pelo liberalismo clássico. O plano envolvia uma série de medidas intervencionistas, definidas pelo estadista como uma nova concepção dos deveres e das responsabilidades do governo. O estado norte-americano ganhou peso e a democracia foi mantida. Já em outros países, o aumento do papel do Estado na economia levou ao autoritarismo, que provocou a Segunda Grande Guerra Mundial.

Detonadas as bombas atômicas sobre o Japão, a ideologia comercial começou a ser baseada nos princípios do Plano Marshall: era preciso recuperar e reorganizar a economia do “mundo livre”, aumentando seu vínculo com os Estados Unidos, principalmente através das relações comerciais. Assim, foi possibilitada a reconstrução dos países capitalistas e o crescimento de economias emergentes, inclusive a do Brasil. Esta postura começou a mudar na crise de 2008 e agora foi enterrada pela eleição de Trump.

A reação dos outros países ao “New Deal” de Trump demonstra que o intervencionismo exacerbado levará a um novo desequilíbrio da economia mundial. O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, avaliou a mudança de cenário em Washington como uma ameaça externa a ser enfrentada pela União Europeia, em recente carta dirigida aos 28 países membros. No documento, ele declara que a nova administração coloca em xeque os últimos 70 anos de política externa norte-americana.

Os maiores grupos do Parlamento Europeu solicitaram à União que rejeite a escolha de Ted Malloch para embaixador americano devido às suas declarações consideradas antieuropeias. Em entrevista à BBC, Malloch disse que ocupou um posto diplomático através do qual ajudou a derrubar a União Soviética. “Talvez exista outra União que precise ser um pouco domada”. Sobre a moeda única, o economista afirmou que o euro “não só está em vias de desaparecer, como pode colapsar no próximo ano e meio”.

Na Europa, o extremismo também começa a tomar frente, vide os motivos que levaram a população a votar pela saída do Reino Unido da União Europeia, agora aprovada pelo parlamento britânico. A saída está relacionada à necessidade de ter controle sobre a imigração. Não é preciso ir tão longe para avaliar os ânimos mundiais. No último dia 30, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, assinou um decreto que altera a Lei de Migração do país. O documento amplia as restrições à entrada de estrangeiros, especialmente imigrantes com antecedentes penais ou que venham de países com forte presença do narcotráfico (Peru, Paraguai, Bolívia e México). Curioso foi que Macri utilizou discurso similar ao de Trump para anunciar as medidas: “Nossa prioridade é cuidar dos argentinos”.

Os estremecimentos diplomáticos mundiais devem levar a colapsos se atingirem China e Rússia. Primeiro há a construção do muro para isolar os “bad hombres”, depois mudanças nas negociações internacionais que visam demonstrar a superioridade americana. Isso sem falar dos conflitos com os muçulmanos. O intervencionismo e a afirmação de superioridade de cada país acirram os ânimos por todos os cantos. No Brasil, a dicotomia PT/coxinhas parecia amainada. Mas a morte de dona Marisa demonstra um lado bem diferente daquele lendário povo cordial que teria habitado este país. “Bolsonarices” marcarão os próximos anos.

Ana Borges

Ana Borges é diretora da Compliance Comunicação. Atuando como jornalista, vem acompanhando nos últimos 15 anos o dia a dia do mercado financeiro. Também é graduada em Economia pela UFRGS e pós graduada em Finanças pela FIA. Leciona no as disciplinas Estratégias Econômicas Empresariais, Finanças Internacionais, Políticas Econômicas e Administração Financeira, no Senac-SP.
Acesse: http://www.compliancecomunicacao.com.br

Deixe um comentário

Esta área do website ADVFN.com é destinada para comentários e anáises individuais independentes. Estes blogs são administrados por autores independentes através de uma plataforma de alimentação comum, não representando as opiniões da ADVFN. A ADVFN não monitora, aprova, altera ou exerce controle editorial sobre estes artigos, não aceitando, portanto, ser responsabilizada por tais informações. As informações disponibilizadas no website ADVFN.com destina-se para sua informação em geral mas não, necessariamente, para suas necessidades particulares. As informações não constituem qualquer forma de recomendação ou aconselhamento por parte da ADVFN.COM.
 
Seu Histórico Recente
BOV
VALE5
Vale PNA
BOV
IBOV
iBovespa
BOV
PETR4
Petrobras
BOV
IGBR3
IGB SA
FX
USDBRL
Dólar EUA ..
Ações já vistas aparecerão nesta caixa, facilitando a volta para cotações pesquisadas anteriormente.

Registre-se agora para criar sua própria lista de ações customizada.

Ao acessar os serviços da ADVFN você estará de acordo com os Termos e Condições

P:42 V: D:20170628 10:34:55