Pré-Market: A última fronteira

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O otimismo dos mercados domésticos com o avanço da agenda de reformas do governo no Congresso será testado hoje por forças externas. As declarações de presidentes dos bancos centrais dos Estados Unidos (Fed) e da zona do euro (BCE), durante o encontro anual na bucólica cidade de Jackson Hole (Wyoming), tendem a definir se o apetite por ativos de risco pode seguir elevado ou se já é hora de colocar os ganhos no bolso.

A confiança de que o ambiente político resolveu ajudar, mudando a dinâmica da economia brasileira, tem recebido amparo do cenário externo, com a abundante liquidez global de recursos içando a Bovespa para além dos 70 mil pontos e sustentado o dólar abaixo de R$ 3,15. E a expectativa é de que os comandantes do Fed, Janet Yellen, e do BCE, Mario Draghi, deem a senha para os ativos locais se valorizarem mais.

Yellen deve manter o tom suave (“dovish”) na sua fala, indicando que o processo de normalização da taxa de juros norte-americana e de redução do balanço patrimonial do Fed tende a seguir em ritmo gradual e alternado. No caso de Draghi, a especulação é de que o programa de estímulos monetários à região da moeda única europeia possa chegar ao fim em um futuro não muito distante.

Ela fala primeiro, às 11h, já determinando o tom dos negócios logo na primeira metade do pregão; ele fala no fim da tarde, às 16h, e qualquer sinal de reversão da política monetária adotada no BCE pode fazer preço nos mercados globais. Com todos os olhos voltados à última fronteira do velho oeste americano, localizada a uma curta distância da entrada de Yellowstone, os investidores evitam assumir posições.

Por ora, os mercados financeiros se assemelham ao famoso parque dos EUA, mostrando certa tranquilidade na superfície, mas que mascara a turbulência vulcânica que ocorre embaixo da terra. Nesse ambiente, os índices futuros das bolsas de Nova York estão de lado, porém com um ligeiro viés positivo, o que anima a abertura do pregão na Europa, onde também se ensaiam ganhos, após uma sessão de alta na Ásia.

Já o dólar mede forças em relação às moedas rivais de países emergentes e desenvolvidos, mas o euro também se fortalece, o que ajuda na recuperação dos preços do petróleo, que voltou a ser negociado abaixo de US$ 48, em meio à aproximação de um furacão no Texas. As demais commodities também tentam se manter no azul.

De um modo geral, as condições para os ativos de maior risco não poderia ser mais benignas. Desde que o Fed começou a apertar a política monetária, em dezembro de 2015, Wall Street tem renovado níveis recordes: o índice acionário Dow Jones já subiu mais de 20% e o rendimento do título de 10 anos (T-note) cresceu pouco mais de 10 pontos percentuais (pp), apesar das quatro altas de 0,25 ponto, cada, na taxa básica de juros norte-americana deste então.

Os sinais de retomada da atividade na maior economia do mundo, com a ausência de pressão inflacionária, têm reduzido a ameaça dos ursos – que caracterizam um mercado de baixa (bear market), mas que podem ser despertados a qualquer instante.

E são justamente as incertezas políticas que podem afastar os touros – que caracterizam um mercado de alta (bull market) – da jogada. Temerosos, os investidores acompanham as discussões no Congresso dos EUA sobre a elevação do teto da dívida do governo norte-americano, após o presidente Donald Trump ameaçar paralisar as funções – o chamado shutdown – se não conseguir recursos para construir o muro com o México.

Igualmente no Brasil, os investidores estão pisando suavemente no terreno do Planalto Central, cientes de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pode enviar ao Congresso uma nova denúncia contra o presidente Michel Temer antes de deixar o cargo, em meados do mês que vem. Não está claro se a acusação será baseada em obstrução da Justiça ou organização criminosa, nem se contará com elementos da delação de Lúcio Funaro, o “operador” do PMDB na Câmara dos Deputados.

A nova denúncia contra Temer pode abrir o caminho para um ajuste forte na Bovespa e no dólar, recompondo também os prêmios enxugados na curva de juros futuros. Mas, desta vez, o tiro precisa ser certeiro. Afinal, o presidente já se antecipou e garantiu não ter nenhum temor em relação a Funaro. “Não tenho relação, não conheço Funaro”, disse.

Contudo, Funaro diz possuir informações privilegiadas e é considerado mais vulnerável e suscetível a relatar a participação de Temer e o funcionamento de esquemas de corrupção do que o ex-presidente da Câmara, o deputado cassado Eduardo Cunha. O alvo é o presidente da República, além de atuais e ex-ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Secretaria de Governo), Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves, que teriam participado de operações envolvendo órgãos públicos.

Mas isso é uma história para os próximos dias, talvez semanas. Com as atenções de hoje concentradas em Jackson Hole, a agenda econômica desta sexta-feira fica em segundo plano. Até porque o calendário do dia está fraco e traz apenas sondagens de agosto dos setores de comércio e serviços (8h), no Brasil, e as encomendas de bens duráveis nos EUA em julho (9h30).

Jornalista, especializada em Economia, trabalha há 10 anos na cobertura de notícias em tempo real sobre macroeconomia e mercado financeiro, nacional e internacional. Atuou como editora na Agência Estado (Broadcast/Estadão) e atualmente é repórter sênior na Agência CMA. Também é responsável pela produção de artigos publicados no blog A Bula do Mercado (www.oliviabulla.com.br), que faz um resumo diário do que mais importante acontece no mercado financeiro e na economia. É Mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), onde estudou a construção de sentido no Jornalismo através do uso dos números na notícia, e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Tem fluência em inglês, espanhol e possui conhecimento avançado em mandarim (chinês).
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