Pré-Market: O buraco é mais embaixo

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O presidente Michel Temer não está facilitando as coisas para a equipe econômica, ao mesmo tempo em que tira proveito da credibilidade do “time dos sonhos” para aprofundar o rombo das contas públicas. Depois de abusar da política do “toma-lá-dá-cá” para se salvar da denúncia contra ele na Câmara e de descartar totalmente a possibilidade de uma nova alíquota do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), após uma tática do tipo “vai que cola”, a mudança da meta fiscal deste e do próximo ano deve ser anunciada hoje.

O chamado déficit primário de 2017 deve ser ampliado para um número pior que o oficial, negativo em R$ 139 bilhões. Um aumento de até R$ 20 bilhões, para R$ 159 bilhões, já foi absorvido pelo mercado, mas um salto de R$ 129 bilhões para algo em torno de R$ 170 bilhões no saldo negativo de 2018, conforme se especula, não é esperado, pois um déficit no ano que vem maior que o deste ano indica um descontrole na trajetória da dívida.

Mais que isso, tais números não representam qualquer evolução em relação ao déficit de R$ 170,5 bilhões de 2016, realçando a ausência de esforço por parte do governo em controlar as despesas, diante da frustração com as receitas. É bom lembrar que, quando anunciou os números para 2017, em meados do ano passado, a equipe econômica destacou que se tratava de uma meta realista. Para o mercado financeiro, à época, os números eram inflados, o que facilitaria o cumprimento do objetivo fiscal.

Os números ainda devem ser definidos nesta manhã, em reunião no Palácio do Planalto, às 11h30, que contará com a presença de nove pessoas, além do próprio Temer. O presidente teria sido convencido pelo ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, e pelo líder do governo no Senado, Romero Jucá, a resolver a questão fiscal a seu modo, contrariando o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Todos eles estarão reunidos no encontro de hoje.

Mas a pressão vinda dos rumores de que o governo estudava elevar o IRPF para melhorar as receitas e contribuir com a meta fiscal piorou a situação de Temer junto à sociedade, em meio ao recorde de baixa de popularidade do presidente. Foi preciso, então, voltar atrás e aparecer com uma solução rápida.

O problema é que a pressa do governo em definir logo um número, descartando as medidas sugeridas pela equipe econômica, ocorreu a contragosto de Meirelles e é um desprestígio pessoal para o ministro, que queria esperar até setembro para mexer na meta, quando já se teria uma estimativa mais aproximada das receitas deste ano. Contudo, há urgência em definir a meta de 2018, já que a proposta de Orçamento precisa ser enviada ao Congresso até o dia 31.

Feito dessa forma acelerada, fica a sensação de que a coisa está fora de controle e que basta um rugido da classe política e empresarial para que Temer recue. A sensação é de que o presidente tirou o bode da sala muito cedo. Políticos e empresários têm de saber que eles também precisam assumir parte da responsabilidade que levou o país para o atual abismo das contas públicas.

Mas como a agenda de medidas e reformas tem sido conduzida no Congresso por esses atores, as decisões tomadas jamais irão ferir os interesses dos envolvidos. Por isso, é mais fácil mexer nas leis trabalhistas e nas regras para aposentadoria, deixando as reformas tributária e política em segundo plano.

Em meio a todo esse noticiário negativo no Brasil, de pouco adianta a tentativa de acomodação ensaiada nos mercados internacionais nesta manhã. Ainda assim, os investidores seguem avessos ao risco e aproveitam a escalada da tensão entre Estados Unidos e Coreia do Norte para embolsar os ganhos recentes nos ativos. O sinal negativo prossegue em Wall Street e o dólar segue ganhando terreno ante os rivais, o que tende a potencializar as perdas da Bovespa e do real esperadas nos negócios locais.

A agenda econômica desta quinta-feira volta a ficar mais fraca, sem grandes destaques. Ainda assim, no Brasil, merecem atenção a primeira prévia de agosto do IGP-M (8h) e os números atualizados da estimativa para a safra agrícola (9h). No exterior, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos EUA e o índice de preços ao produtor norte-americano (PPI), ambos às 9h30. Às 15h, é a vez do orçamento do país em julho.

A safra brasileira de balanços também entra no radar. Antes da abertura do pregão doméstico serão conhecidos os resultados trimestrais de Banco do Brasil e Braskem, enquanto Petrobras, BRF e algumas empresas do setor de energia elétrica e da construção civil publicam seus demonstrativos contábeis após o fechamento da sessão local.

Para o banco estatal, a expectativa é de um salto de 50% no lucro líquido, uma vez que o BB deve ter sido pouco afetado pela queda na margem financeira por causa da redução da taxa básica de juros (Selic). No caso da gigante do setor de alimentos, a Operação Carne Fraca deve ter afetado o desempenho.

Para a petrolífera, a sequência de resultados positivos observados nos últimos dois trimestres tende a continuar. Porém, alguns eventos podem impactar negativamente os números. O principal é a provisão relacionada ao fundo de pensão Petros, decorrente de ação judicial.

Para ver mais sobre o que os investidores estão falando sobre esse ou outros assuntos, clique aqui

Olívia Bulla

Jornalista, especializada em Economia, trabalha há 10 anos na cobertura de notícias em tempo real sobre macroeconomia e mercado financeiro, nacional e internacional. Atuou como editora na Agência Estado (Broadcast/Estadão) e atualmente é repórter sênior na Agência CMA. Também é responsável pela produção de artigos publicados no blog A Bula do Mercado (www.oliviabulla.com.br), que faz um resumo diário do que mais importante acontece no mercado financeiro e na economia. É Mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), onde estudou a construção de sentido no Jornalismo através do uso dos números na notícia, e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Tem fluência em inglês, espanhol e possui conhecimento avançado em mandarim (chinês).
Acesse: http://www.oliviabulla.com.br/
Contate: contato@oliviabulla.com.br

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