Giro macro global

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Sem atrair muita atenção, o dólar contra cesta de principais moedas globais fechou em alta pela terceira semana consecutiva. O movimento de apreciação da moeda norte-americana ainda é muito incipiente e se destoa da derrocada acumulada neste ano.

Os investidores (principalmente estrangeiros) estão empolgados com os ralis nos preços dos ativos registrados em várias praças financeiras mundiais neste ano e ainda não demonstram preocupação com os possíveis impactos de uma eventual virada na trajetória principal da moeda norte-americana.

O apetite por ativos de risco e retornos elevados continua forte. As praças emergentes ou em desenvolvimento estão se destacando, apresentando retornos significativos no ano, mas o fluxo não está concentrado somente nas mais famosas ou menos arriscadas dentro do grau especulativo.

A África é um bom termômetro do nível de otimismo no mercado global. Nunca na história os governos africanos conseguiram emitir tantos eurobônus num só ano. Em 2017, as emissões já ultrapassam os 14,5 bilhões de dólares. Nenhum país africano possui grau de investimento e vários sofreram rebaixamento recentemente.

O caso mais chocante ocorre com Moçambique. O governo decretou moratória no início deste ano, não acenou para reestruturação da dívida com os investidores, mas mesmo assim os títulos soberanos de Moçambique apresentam o segundo melhor desempenho entre os mercados emergentes, acumulando impressionantes 31% de alta neste ano.

Segundo Jason Daw, estrategista-chefe de mercados emergentes do Société Générale, a compressão da volatilidade cambial tem estimulado ainda mais estratégias conhecidas como carry trade. Isso pode mostrar que os investidores não estão tão preocupados com os fundamentos dos ativos-alvos nas operações com carry trade, mas sim aproveitando as condições técnicas dos deslocamentos das moedas num quadro de ambiente positivo a nível global.

Além da sinalização dovish apresentada no gráfico de pontos da última reunião do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), bem como seu programa extremamente cauteloso de normalização das condições monetárias, outras autoridades monetárias seguem adotando estratégia semelhante, endossando o viés do mercado.

Villeroy de Galhau, membro do Conselho do BCE (Banco Central Europeu), disse que apesar de a autoridade monetária estar prestes a diminuir o ritmo de suas compras mensais de ativos, a política monetária ainda continuará expansionista. Peter Praet, economista-chefe do BCE, foi na mesma linha em sua última conferência em Berlim, ao afirmar que a nova calibragem do programa de compras não significa que os estímulos serão encerrados no futuro.

A inflação na zona do euro permaneceu em 1,5% no acumulado dos últimos 12 meses em setembro, ficando abaixo das expectativas do mercado (1,6%) e ainda distante do centro da meta a ser perseguida (2,0%). A pesquisa da Eurostat revelou que o aumento de preços permanece fraco, com expectativa de queda para os próximos meses, o que minimiza o risco de uma ação agressiva por parte do BCE no futuro.

Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ (Bank of Japan), voltou a repetir que é muito prematuro desfazer o programa de estímulo e debater o fim da política monetária ultrafrouxa. O comunicado da última reunião do Comitê de Política Monetária mostrou novo adiamento do momento em que a meta de inflação seria alcançada. Agora, a expectativa é que a meta de 2,0% será atingida somente em algum momento do ano fiscal de 2020.

No Reino Unido, a Agência Nacional de Estatística informou que o PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre deste ano desacelerou para 1,5%, frente aos 1,8% registrados no trimestre anterior. É o crescimento mais fraco na comparação anual desde 2013, dificultando o cenário para o BoE (Bank of England), que precisa subir a taxa básica de juros para combater a inflação acima do centro da meta, fortemente influenciada pelo deslocamento da libra. Ainda assim, mesmo com uma possível elevação da taxa de juros, o BoE já alertou que não pretende alterar seu programa de estímulos monetários.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump enfim apresentou seu programa de cortes de impostos, uma de suas principais propostas de campanha. O plano propõe redução da alíquota-teto do imposto de renda de pessoa física dos atuais 39,6% para 35%. Para pessoas jurídicas, a proposta é reduzir significativamente a alíquota de 35% para 20%.

A proposta de reforma tributária de Trump foi criticada por alguns parlamentares de seu próprio partido, por favorecer empresas e famílias mais ricas, além de causar aumento significativo no déficit já elevado do governo norte-americano.

Importante destacar que apesar de possuir ampla maioria na Câmara e maioria apertada no Senado, Trump não tem conseguido grandes vitórias no Congresso desde a sua posse. O fracasso na revisão do sistema de saúde, principal agenda dos republicanos há muitos anos, deixa claro a baixa capacidade de articulação do presidente norte-americano.

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