Pré-Market: Caindo na real

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O mercado financeiro vai se preparando para a virada da folhinha, que marca o início de um novo trimestre, se dando conta de que, no plano internacional, não haverá um acordo de cavalheiros entre as duas maiores economias do mundo na questão de trocas comerciais. Na esfera doméstica, os investidores vão percebendo que o grande número de concorrentes ao pleito de outubro torna a corrida presidencial mais incerta, diluindo as chances de apenas um candidato de centro-direita, seja com ou sem Lula na disputa (ou como cabo eleitoral).

Mais que isso, a reação de ontem dos mercados domésticos à sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom), de que irá cortar a taxa básica de juros mais uma vez em maio, mantendo dúvidas quanto à possibilidade de uma queda adicional da Selic em junho, deixou claro que os ativos locais perderam atratividade aos olhos dos investidores estrangeiros. E, diante do embate entre Estados Unidos e China e das incertezas eleitorais no Brasil, os “gringos” não devem voltar a comprar o risco por aqui tão cedo.

O fluxo de capital externo na Bolsa, que já vinha minguando, migrou para o vermelho no acumulado do ano, após as sucessivas retiradas desde o fim de fevereiro. Com isso, o saldo de capital externo, que encostou em R$ 10 bilhões no início do mês passado, agora está negativo em cerca de R$ 150 milhões. Isso significa que, em pouco mais de um mês, os investidores nacionais (pessoa física e institucional) deram saída para os recursos estrangeiros. Tal comportamento fez o dólar mudar de patamar, indo para a faixa de R$ 3,25 a R$ 3,35.

O fato é que com esse nível de Selic, ao redor de 6%, não é só da Bolsa que o dinheiro vai sair. Depois do reflexo no câmbio, o próximo movimento pode se dar nos negócios com bônus (juros futuros), diante do menor apelo em investir em títulos públicos brasileiros, dado o nível recorde de baixa na diferença entre o juro praticado aqui frente ao das principais economias avançadas. Desde a eleição de Trump, em novembro de 2015, o diferencial da taxa de juros em favor do Brasil passou de quase 6 pontos para zero.

A questão é que, à medida que esse investidor local for percebendo que os juros brasileiros não devem se manter baixos por tanto tempo, vai faltar um investidor na outra ponta (compradora) para que quem estiver querendo embolsar os ganhos (ou reduzir as perdas). Dito de outra forma, quando o investidor local se der conta de que quanto mais cair a Selic no curto prazo, o período prolongado de juros baixos pode ser encurtado, pode não ter para quem vender, provocando um desmanche interno bem mais feio do que foi o desmonte externo.

Não é novidade que a Selic terá de subir em breve. Como esclareceu o próprio Copom, a conjuntura econômica atual prescreve uma política monetária estimulativa. Ou seja, no entendimento do Banco Central o contexto presente demanda uma taxa básica de juros abaixo da taxa estrutural (neutra), com efeito estimulativo sobre a economia brasileira. Assim, o processo de normalização dessa taxa deve começar em um futuro não muito distante, talvez já no início do ano que vem.

É claro que o fluxo local pode encontrar sustentação à medida que a eleição evolua de forma positiva – o que, para o mercado financeiro, significa um candidato com viés reformista na dianteira. Porém, sem um ajuste firme das contas públicas e sem o avanço das reformas estruturais, principalmente a Previdência, para conter o aumento do déficit fiscal, a inflação volta e o próximo governo pode ser responsável por subir os juros de modo mais agressivo.

Assim, o fraco desempenho generalizado dos mercados domésticos em março tende a reduzir ainda mais o apetite por risco por aqui ao longo dos próximo meses, diante do jogo eleitoral no Brasil e das incertezas vindas da Casa Branca. Aliás, no exterior, a disposição por ativos mais arriscados também está diminuindo e o alvo tem sido o setor de tecnologia.

As gigantes do mundo tec podem ter de enfrentar maior regulamentação, bem como custos mais elevados nos EUA, diante da intenção do governo Trump de impedir investimentos chineses em tecnologia, punindo a China por violação dos direitos de propriedade intelectual. Ainda assim, como o setor foi um dos mais favorecidos no processo de valorização global das bolsas desde a crise de 2008, não é de se espantar que seja um dos mais pressionados agora.

Nesta manhã, os índices futuros das bolsas de Nova York exibem perdas aceleradas, o que pesa na abertura da sessão europeia, após fortes quedas na Ásia. Além das ações de tecnologia, as mineradoras também são destaque negativo. Em um típico movimento de oferta e procura, os metais básicos recuam, assim como o petróleo, ao passo que o juro projetado pelo título norte-americano de 10 anos (T-note) se consolida abaixo de 2,8% e o dólar mede força frente às moedas rivais. A libra esterlina avança diante dos planos sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) – o chamado Brexit – enquanto o iene cai, após o encontro de líderes da Coreia do Norte e da China.

Na agenda econômica do dia, os dados parciais do fluxo cambial até a sexta-feira passada (dia 23), às 12h30, podem corroborar tal cenário sobre a entrada e saída de dólares no Brasil descrito acima. Pela manhã, será conhecido o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) em março (8h), que deve ganhar força e subir 0,6% em relação ao resultado praticamente de estabilidade em fevereiro (+0,07%), o que deve levar a taxa acumulada em 12 meses para o campo positivo. No mesmo horário, sai o índice de confiança do setor de serviços neste mês.

Já no exterior, o destaque fica com a terceira e última leitura do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA ao final de 2017 (9h30). Também serão conhecidas as vendas pendentes de imóveis residenciais em fevereiro (11h) e os estoques semanais de petróleo bruto e derivados no país (11h30). O índice de inflação sobre os gastos com consumo (PCE) será divulgado apenas amanhã – diferentemente do informado na última segunda-feira – juntamente com os dados sobre a renda pessoal do norte-americano.

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