Pré-Market: Ao vencedor, as batatas

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Não houve vencedores no primeiro debate presidencial das eleições deste ano na TV, com os candidatos evitando o confronto e dividindo-se em dois lados antagônicos. As semelhanças entre Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles e Álvaro Dias, de um lado, destoam-se de Ciro Gomes e Guilherme Boulos. Já Marina Silva mantém o tom pelo terceiro ano eleitoral.

No meio termo, ficou Jair Bolsonaro, enquanto a presença do Cabo Daciolo foi tão questionada quanto a ausência de um representante do PT. A negativa da Justiça em liberar a participação do ex-presidente Lula na televisão pode até ter aliviado a pressão no mercado financeiro doméstico ontem, mas em nada contribui para clarear o cenário para outubro.

Paralelamente, o PT realizou um evento pela internet, transmitido em uma rede social, com a presença de Fernando Haddad, vice de Lula, e de Manuela D’Ávila (PCdoB) – a “vice de fato”, se o ex-prefeito de São Paulo assumir a vaga do ex-presidente na cabeça de chapa petista. Também participou do evento a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann.

Foi, portanto, um “Debate sem Lula”. Preso desde abril, a condenação do ex-presidente em segunda instância torna-o inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Mas a legalidade da candidatura ainda depende de análise da Justiça Eleitoral (TSE). E enquanto não houver uma definição desse tema, a disputa seguirá permeada de incerteza.

Isso porque Lula lidera a corrida presidencial nos cenários que contam com a presença dele. Sem ele, Bolsonaro está à frente. Porém, nos levantamentos dos institutos mais tradicionais, o deputado aparece tecnicamente empatado com a ex-senadora que concorre pela Rede que, por sua vez, está em um patamar muito próximo ao do pedetista e do tucano.

Tudo isso considerando-se a margem de erro das mais recentes pesquisas do Datafolha e do Ibope. Além disso, é importante ressaltar que ainda não houve uma campanha da “nova” chapa do PT – com Haddad e Manuela – que tem potencial de transferência de intenção dos votos que iriam para Lula.

 Ou seja, mesmo com o debate morno na TV e o evento paralelo na internet ontem, o cenário eleitoral segue totalmente em aberto e indefinido. A campanha eleitoral ainda não começou, mas a situação, por ora, não é nada animadora para o mercado, que sonha com um candidato reformista eleito pelo voto nas urnas.

As propostas apresentadas ontem na TV pelos candidatos pouco aliviam a principal preocupação do investidor, que é com as contas públicas. Afinal, por mais que seja consenso que o quadro fiscal é delicado, a solução apresentada por quem pretende assumir o poder em 2019 não necessariamente serve para pagar a conta do rombo.

O risco político explica, então, a cautela nos movimentos dos ativos locais, que deve se repetir nesta sexta-feira. À espera de novidades nesse front, a agenda de indicadores econômicos segue em segundo plano, perdendo espaço até mesmo para a pesquisa encomendada pela XP Investimentos e feita pelo Ipespe, que sai logo cedo.

O calendário do dia traz a divulgação da primeira prévia deste mês do IGP-M (8h) e o desempenho das vendas do varejo brasileiro (9h). O comércio varejista deve reverter o resultado negativo apurado em maio e crescer 0,5% em junho, beneficiado pelas compras em meio à torcida na Copa do Mundo.

No exterior, os investidores seguem preocupados com as investidas protecionistas e as tensões geopolíticas promovidas pela Casa Branca, o que provoca uma aversão ao risco. O dólar sobe em relação a uma cesta de moedas rivais ao maior nível em cerca de um ano, com o rublo russo atingindo a mínima em dois anos e a lira turca renovando o recorde de baixa, em meio às sanções dos Estados Unidos contra Rússia e Turquia.

O temor de que os problemas turcos estão se transbordando para a zona do euro, em meio à exposição dos bancos europeus, penaliza a moeda única do bloco comum, que está na mínima em 12 meses, e as principais bolsas da região, que têm perdas aceleradas. Na Ásia, o sinal negativo prevaleceu, exceto em Xangai, que ficou de lado. Os índices futuros de Nova York também estão no vermelho.

Os investidores sabem que Donald Trump tem usado e abusado do poderio dos EUA, adotando sanções contra vários países – incluindo o Irã – ao mesmo tempo em que impõe tarifas extras no comércio com a China, vizinhos da América e aliados europeus. Por ora, o republicano tem conseguido entregar parte relevante do que prometeu em campanha.

Essa postura de maior confronto ainda não impactou o mercado financeiro, que vem canonizando ações que destroem. Porém, com o fim da era de liquidez que vigorou após a crise de 2008, tal disputa comercial e geopolítica tende a tornar o cenário global mais desafiador. E, em algum momento, Trump e seu governo terá de ser disciplinado.

Na agenda econômica no exterior, destaque apenas para o índice de preços ao consumidor norte-americano (9h30) em julho. O dado deve seguir indicando aceleração gradual da inflação no varejo dos EUA, mas sem alterar o plano de voo do Federal Reserve, de elevar a taxa de juros nos EUA em mais duas vezes neste ano.

Jornalista, especializada em Economia, trabalha há 10 anos na cobertura de notícias em tempo real sobre macroeconomia e mercado financeiro, nacional e internacional. Atuou como editora na Agência Estado (Broadcast/Estadão) e atualmente é repórter sênior na Agência CMA. Também é responsável pela produção de artigos publicados no blog A Bula do Mercado (www.oliviabulla.com.br), que faz um resumo diário do que mais importante acontece no mercado financeiro e na economia. É Mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), onde estudou a construção de sentido no Jornalismo através do uso dos números na notícia, e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Tem fluência em inglês, espanhol e possui conhecimento avançado em mandarim (chinês).
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