Quatro em cada 10 brasileiros adultos estão com nome sujo; dicas ajudam a se reorganizar e negociar dívidas

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O total de brasileiros com o nome nos cadastros de inadimplentes registrou ligeira queda em agosto sobre julho, passando de 63,4 milhões para 62,9 milhões de negativados. Ainda assim, houve alta de 3,63% sobre igual período do ano passado, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) — indicando que a situação atinge nada menos que 41% da população brasileira adulta. Propostas de renegociação geral dessas dívidas, como a sugerida por Ciro Gomes (PDT), e cogitadas também por outros presidenciáveis, são alvo de críticas de especialistas pela superficialidade, mas também ajudam, segundo eles, a dar visibilidade ao tema, que tira o sono de muita gente, prejudicando as famílias e até as perspectivas de retomada da economia.

Faltam educação financeira, política para superendividados e disciplina na oferta de crédito

Da forma como algumas propostas (no âmbito eleitoral) estão sendo apresentadas, acaba parecendo que a questão de “tirar o nome do SPC” é algo simples — quando não é, avalia a economista e pesquisadora do Idec, Ione Amorim. Mas ela acha válido colocar o tema em debate, ainda que “sem a profundidade necessária e, portanto, longe de se resolver o problema”. Para se chegar a soluções, Ione acredita que faltam desde educação financeira e maior disposição dos bancos para renegociar, até políticas públicas para lidar com o superendividamento, além de formas para disciplinar a oferta de crédito.

Para Idec, aprovação de projeto de lei é passo importante

“Nossa expectativa é que seja aprovado o Projeto de Lei 3.515/2015, que já passou no Senado, e aguarda votação na Câmara”, ressalta, lembrando que ele cria novas regras para a oferta de crédito e formas de prevenção e tratamento das pessoas superendividadas, que seriam incluídas no Código de Defesa do Consumidor (CDC). “Isso já seria um grande passo”, diz a economista, destacando que hoje não são raras práticas abusivas, tanto na oferta de crédito como na publicidade de bancos e instituições financeiras.

Superendividamento e comprometimento de renda preocupam

A urgência de se tomar medidas fica mais evidente, segundo especialistas, diante do fato de que não se trata apenas dos quase 63 milhões de pessoas em dificuldades — com restrições ao seu CPF e problemas para obter empréstimos, financiamentos ou realizar compras parceladas — das quais perto de 50%, segundo estimativa do Idec, estão ‘superendividadas’ (perderam a capacidade de pagamento das dívidas). Além dessas, destacam, muitas outras ainda não estão ‘com o nome sujo’, mas sofrem com alto comprometimento da renda com empréstimos financeiros e descasamento entre ganhos e despesas.

Crise não melhorou comportamentos e propostas tratam só dos sintomas

O patamar de endividados preocupa, segundo a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, seja por se manter ‘desconfortavelmente alto’, seja por mostrar que, mesmo depois de quatro anos de crise, com maiores restrições a linhas como Crédito Direto ao Consumidor (CDC) e crédito imobiliário, as modalidades mais caras continuaram à disposição e muito acessíveis ao tomador, e sem que ele tenha aprendido como utilizá-las.

“O que temos visto são propostas (de candidatos) de curto prazo, que tratariam do sintoma (nome sujo) sem resolver os problemas”, avalia a economista. Para mudar efetivamente a situação, ressalta, seriam necessários “educação financeira, crescimento econômico e foco em uma política de concessão e tomada de crédito conscientes, que seria positiva para a economia”, afirma. Em contrapartida, medidas tomadas de forma paliativa poderiam, mas adiante, até piorar a situação.

Maioria dos devedores está entre os 30 e 39 anos 

Segundo a pesquisa CNDL/SPC, em números absolutos, a maior parte dos inadimplentes em agosto estava na faixa dos 30 aos 39 anos: 17,9 milhões de pessoas nessa idade não conseguem honrar seus compromissos financeiros. Na faixa de 40 a 49 anos, são 14,1 milhões de inadimplentes e outros 13 milhões entre 50 e 64 anos. Já entre os idosos, dos 65 aos 84 anos, são 5,4 milhões que estão com o CPF restrito, e na população mais jovem, foram registrados 7,8 milhões de inadimplentes entre de 25 a 29 anos, e 4,5 milhões entre 18 e 24 anos.

Dívidas com bancos crescem 7,03% e caem 6,01% no comércio

Outro número calculado pela CNDL/SPC é o volume de dívidas que estão no nome de pessoas físicas. Nesse caso, houve um crescimento de 1,11% em agosto sobre igual período do ano passado e queda de 0,66% sobre julho.

As dívidas bancárias, que englobam cartão de crédito, cheque especial e empréstimos, por exemplo, tiveram a alta mais expressiva em agosto: 7,03% frente ao mesmo mês de 2017. Atrasos no crediário do comércio caíram 6,01%.

O segundo setor mais impactado foi o de serviços básicos, como água e luz, cujo crescimento foi de 3,42%. Pendências com TV por assinatura, internet e telefonia se mantiveram estáveis, com avanço de apenas 0,01% no período.

52% dos débitos têm origem em bancos ou financeiras

Mais da metade (52%) de todos os compromissos financeiros não quitados pelo brasileiro foi contraída em bancos ou financeiras, seguidas do comércio (18%), setor de comunicação (14%) e prestadoras de serviços básicos (8%).

Outra pesquisa da CNDL/SPC mostra ainda que mais da metade dos entrevistados (61%) sabe pouco sobre seus rendimentos, enquanto 45% ignoram o valor das contas básicas, como água e luz.

Principais causas: desemprego (37%), queda de renda (24%) e falta de controle (12%) 

A perda do emprego (37%), que chega a 38% nas classes C e D, a redução da renda (24%) e a falta de controle financeiro (12%) foram os principais responsáveis pelo atraso no pagamento de dívidas.

Um terço (31%) dos inadimplentes admite viver fora do padrão do seu orçamento

O estudo aponta ainda que o autocontrole é uma barreira importante contra o consumo exagerado e ainda constitui tarefa difícil para muitos. Perto de metade dos inadimplentes (46%) disseram que quase sempre cedem aos desejos e impulsos quando querem comprar algo, enquanto 43% não conseguem controlar os gastos, 42% demoram para cancelar serviços ou assinaturas que não usam e 31% vivem fora de seu padrão de vida.

Procon-SP: organização e ajustes são essenciais para mudar situação

Os técnicos do Procon-SP destacam que a principal dificuldade para quem está com o nome sujo e procura ajuda do órgão é a organização orçamentária. A orientação é que a pessoa coloque no papel todas as suas dívidas, despesas e rendas, para poder ter  ideia clara da sua vida financeira. Assim, poderá fazer ajustes no orçamento, evitando o aumento das dívidas e conseguindo mais facilidade para negociá-las.

Serviços facilitam condições de negociação e orientam consumidor

Uma série de serviços pode orientar e ajudar nesse caminho, para que a pessoa consiga evitar ou sair da situação de endividamento e/ou inclusão nos cadastros de inadimplentes. Entre eles está o SPC Brasil, que conta com campanha da Boa Vista SCPC e ajuda na renegociação de dívidas com os credores, ocasião em que basta preencher um formulário e verificar as propostas de renegociação disponíveis, pagando depois o boleto, caso se considere a proposta vantajosa.

No mês que vem, diz Marcela Kawauti, será lançada também uma plataforma online para facilitar a negociação entre devedores e credores. A instituição oferece ainda serviços de educação financeira, como canal no youtube e o portal Meu Bolso Feliz, com dicas que vão de organização do orçamento até crédito e consumo conscientes.

Bancos têm canais para receber demandas dos clientes

Nos principais bancos, também é possível buscar renegociação para quitação de dívidas, com possibilidade de redução de parcelas ou ampliação de prazos. As instituições financeiras já têm canais específicos para pedidos de negociação, muitos deles em seus sites, pois desde fevereiro está em vigor um normativo da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), que trouxe regras para facilitar acordos.

Serasa e fintechs operam com plataformas online, com descontos de até 90% para pagamento à vista

Outra opção são as chamadas fintechs — com plataformas online gratuitas, que sinalizam com possibilidade de descontos de até 90% para quem pode pagar a dívida à vista, geralmente aquelas mais antigas, já consideradas como perdidas para as instituições financeiras.

A Serasa também conta com uma plataforma (Serasa Limpa Nome) que disponibiliza ofertas de renegociação de dívidas para os usuários, possibilitando verificar as condições e gerar o boleto. O gerente do serviço, Lucas Lopes, explica que ele existe desde 2013, mas foi relançado em agosto, com um escopo 100% digital e mobile.

Todas as pessoas que possuem dívidas, estejam ou não com nome sujo, podem buscar a opção, valendo a pena consultar as empresas participantes no próprio site (www.serasalimpanome.com.br) . O interessado acessa o site, faz um breve cadastro ou preenche o login (caso já esteja cadastrado), verifica a listagem de dívidas e ofertas, clica no botão “ver oferta” — para ver as condições possíveis, seleciona as condições, data de vencimento do boleto e depois em “concluir acordo” para gerar o boleto. É possível fazer o download do boleto, copiar o código de barras ou enviar o boleto para o seu e-mail cadastrado.

Serviço é gratuito para os consumidores e vantajoso para os credores

Segundo Lopes, as principais vantagens que o consumidor tem recorrendo ao serviço, em vez de procurar diretamente o credor, são conveniência, discrição, segurança, facilidade e possibilidade de obter boa condição de pagamento. Os níveis de desconto e prazo de negociação, de acordo com o gestor, variam muito de credor para credor, dependendo das políticas de cada empresa.

Os valores negociados na plataforma também variam bastante, de acordo com o segmento do credor. “Temos média de dívida de parceiros de R$ 100 e outros de até R$ 4.000”, explica, lembrando que a maioria dos que procuram o serviço devem em modalidades como cartão de crédito, crédito pessoal e serviços de telecomunicação.

O serviço é 100% gratuito para o consumidor, ficando o custeio a cargo do credor, que tem como vantagem pagar apenas pelo sucesso da transação, ou seja, só paga em cima das dívidas que a plataforma conseguir recuperar.

Consumidor tem direito a informação detalhada e deve ficar alerta a promessas milagrosas

Segundo o Procon-SP, qualquer alternativa que ajude o consumidor a quitar suas dívidas é boa, sendo preciso, no entanto, tomar cuidado com promessas milagrosas. Em primeiro lugar, destacam os técnicos, toda empresa precisa informar claramente ao consumidor a origem da dívida e sua evolução, como se chegou naquele valor – devendo ainda apresentar qual juro está sendo cobrado e por qual período.

Se for uma empresa terceirizada ou que tenha comprado a dívida, o consumidor deve solicitar junto ao credor original a informação de qual empresa está autorizada a fazer a cobrança. Quanto a descontos elevados, o devedor precisa ficar atento. O principal ponto é verificar se aquela empresa que está efetuando a cobrança é realmente a proprietária da dívida.

Cautela com o cumprimento do acordo e acúmulo de prestações

Caso a pessoa faça um acordo (parcelamento com juros menores e mais prazo, por exemplo), mas novamente tenha dificuldades em cumprir o combinado (seja com o credor ou com mediador/empresa de cobrança), deve agir rapidamente. Assim que souber que terá dificuldades para cumprir o acordo, precisará procurar a empresa para renegociar, não deixando acumular prestações.

Ione Amorim, do Idec, também dá algumas dicas que podem ajudar a equilibrar a vida financeira e equacionar melhor as dívidas.

Confira:

1 – Antes de uma dívida sair de controle, é importante procurar ajuda de órgãos de defesa do consumidor, como os Procons. Buscar dicas de educação financeira também vale muito a pena, inclusive para quem não está endividado. Pode-se conseguir informação gratuita e de qualidade em palestras e oficinas, tanto de órgãos de defesa do consumidor como no Banco Central, que tem intensa programação com esse objetivo, inclusive cartilhas e vídeos;
2 – Para negociar uma dívida, o melhor caminho é tentar recompor-se financeiramente, de forma a sair dela sem precisar recorrer a outro crédito. Para tanto, a pessoa deve se planejar, conhecer bem sua renda familiar, despesas essenciais e gastos extras, o que permite identificar o que é possível cortar;
3 – Feitos o levantamento de informações e planejamento, com clareza das dívidas a serem quitadas, a pessoa poderá tentar uma renda extra para cobrir o débito, ou ainda abrir mão de algum bem não essencial para obter os recursos necessários;
4 – Caso isso não seja possível, o caminho é a busca de renegociação da dívida ou dívidas, seja diretamente com o credor ou pesquisando outras alternativas;
5 – Se houver mais de um credor, as primeiras dívidas a serem pagas são as essenciais (consumo de água, luz, telefone, condomínio e internet, principalmente no caso de quem depende do serviço para trabalhar). A seguir, avaliar as que têm bens em garantia (imóvel, veículo) e depois as demais, começando pelas ‘mais caras’, como cheque especial e cartão de crédito. Essas últimas podem ser ‘trocadas’ por crédito mais barato, como consignado ou crédito pessoal; ao fazer isso, é importante tirar de cena os limites de especial e cartões, para evitar o acúmulo de dívidas;
6 – Analisar bem os contratos e entender as condições oferecidas, fazendo pesquisa de alternativas no mercado, não somente olhando para os juros, mas para o chamado Custo Efetivo Total (CET), que considera todos os encargos e despesas incidentes na operação de crédito;
7 – Não assumir/aceitar qualquer acordo sem uma cuidadosa avaliação prévia. Muita gente se apressa e, para resolver uma dificuldade momentânea, aceita alternativas em condições que poderão não ser as melhores, e também comprometer o orçamento futuro, inviabilizando o cumprimento do acordo negociado.

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