Artigo: o Fed e a política monetária além da taxa de juros

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Por André Luiz Sacconato

Os rumos da política monetária dos EUA estão entre as principais preocupações de todos os “policy-makers” do mundo. As recentes mudanças de direção no discurso dos executivos mais importantes do Federal Reserve (Fed, banco central americano), de “Hawkish” (tendência de subir) para “Dovish” (estabilidade) mudaram expectativas e trouxeram alívio para as principais bolsas.

De qualquer maneira uma combinação de juros ainda baixos com um déficit fiscal (que passou de US$ 1 trilhão em 2018) deixa a maioria dos economistas intrigados com essa potencial mudança de rumos na visão do Fed sobre os juros. O desemprego continua abaixo de 4%, mesmo com o aumento substancial das pessoas procurado emprego e o mercado de trabalho não mostra nenhum sinal de desaceleração. Parece o quadro perfeito para uma política monetária contracionista, aproveitando que ainda isso não se espelhou nos preços. Afinal ninguém gostaria de que o atual presidente do Fed escrevesse um novo “Era da Turbulência”, livro em que o ex-presidente do Fed Alan Greenspan diz que não percebeu a bolha se formando na crise de 2008.

Mas aqui já temos que adaptar nossa análise aos novos tempos. Sabemos que hoje o Fed dispõe de mais instrumentos para enxugar a liquidez de mercado, pois logo após a crise, para conter a recessão, comprou ativos da economia como nunca havia feito na história. Hoje, a instituição dispõe de mais de US$ 4 trilhões de assets em seu ativo, o famoso “QE” (Quantitative Easing). Com esses ativos, ele pode fazer política monetária não só via juros, mas via venda dos próprios ativos, E já vem fazendo isso, desde o início de 2018:

Por esse gráfico dá para perceber que o banco central americano já começou uma venda de ativos em 2018 e, em um ano, vendeu aproximadamente US$ 368 bilhões, uma media de US$ 30 bilhões por mês, enquanto os assets em mãos de bancos comerciais vêm aumentando desde maio de 2018. Esse processo é chamado de “QT” (Quantitative Tightening).

Hoje o QT está funcionando como um enxugador automático de liquidez, absorvendo parte do excesso que sobra no mercado depois de um 2018 com um déficit fiscal de US$ 1 trilhão.

Assim, o espaço que o Fed tem para fazer política monetária vai além da taxa de juros. Alguns economistas estimam que, se continuar nessa velocidade, o QT pode representar até 0,25% na taxa de juros (Elena Shulyatyeva e Tim Mahedy, da Bloomberg Economics). Portanto, é essencial acompanhar a velocidade de atuação do Fed nesse espaço, ainda mais depois da mudança de tom nos discursos do presidente Jerome Powell e de autoridades do Banco Central americano, Será que o abrandamento da política monetária também terá efeitos sobre a venda de ativos?

O certo é que os analistas da política monetária americana não podem olhar apenas a taxa de juros quando analisam os objetivos da autoridade monetária americana. E olhar os dados do balanço de Fed, de agora em diante, passa a ser essencial.

André Luiz Sacconato é doutor em economia pela USP, socio da Integrare Brasil e professor de MBA na FIA-USP. Foi coordenador de projetos e responsável por setor externo e fiscal na Tendências Consultoria, economista sênior na área de modelagem de mercados na LCA consultores e diretor de pesquisas da BRAiN- Brasil Investimentos e negócios. E-mail: asacconato@integrarebrasil.com.br.

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