Trends: Pressa, otimismo, novos clientes e mais. Para onde vai o setor do Turismo em tempos de pandemia.

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O mundo está dividido no momento. De um lado, Ásia, Europa e Oceania comemoram boas notícias e se preparam para retomar a vida normal. Do outro, as Américas que ainda não atingiram o pico de suas infecções pelo novo Coronavírus e a África, que vê o surgimento de novos focos de Ebola junto com a Covid-19.

A Organização Mundial do Turismo (UNWTO), ligada às Nações Unidas, divulga números preocupantes. Segundo o órgão, de 100 a 120 milhões de empregos no setor estão em risco devido à pandemia. Mesmo assim, reafirma que não é hora para viajar.

O problema para a indústria do turismo é que grande parte do dinheiro está na parte “está quase tudo bem” do mundo. O dinheiro dos Europeus, japoneses e dos novos-ricos chineses é tentador. E não faltarão lugares para essa turma gastar seu dinheiro:

  • No futebol, a La Liga espanhola e a Premier League inglesa reiniciaram suas partidas em meados de junho. Como os jogos serão sem torcida, as TVs inovam. Na Inglaterra, todos os jogos serão oferecidos de graça aos torcedores confinados. Os jogos espanhóis terão a opção de áudio real ou podem ser assistidos com um barulho falso de torcida.
  • A temporada de Fórmula 1 irá começar também sem espectadores em Julho.
  • A Itália abriu as portas para visitantes Europeus de novo – incluindo atrações como o Coliseu. Para o resto do mundo, as proibições continuam.
  • A Grécia reabriu suas praias em maio, com restrições como a distância mínima de quatro metros entre os guarda-sóis. Além disso, bares e quiosques só poderiam vender comida industrializada e pré-embalada, para evitar problemas na manipulação de alimentos e proibidos de vender álcool. Por acaso o vírus curte uma cervejinha?
  • Falando nisso, em maio também a região alemã da Bavária reabriu seus restaurantes ao ar livre – os chamados Jardins da Cerveja. Garçons usam máscara e luvas, e em breve os restaurantes indoor também devem ser abertos.
  • Parques temáticos estão aos poucos sendo reabertos na comunidade Europeia. Na França, por exemplo, a data esperada é dia 22 de junho, mas o pessoal da Disney Paris ainda não afirmou se vai ou não abrir nessa data.

 

Boas notícias? Não, segundo a UNWTO. Apenas 3% dos países estão relaxando suas restrições ao turismo. A Oktoberfest de Munique foi cancelada, mesmo com vários meses pela frente, e mesmo sendo restrita apenas a europeus. Seria uma grande aglomeração e é isso que as autoridades querem evitar. Apesar da choradeira, a campanha das Nações Unidas é clara #traveltomorrow, ou #viajedepois. Turismo é bom, mas deixe para viajar depois. Nada vai fugir do lugar. Bom, talvez algumas ilhas da Micronésia que estão afundando devido ao aquecimento global. Fora isso… é, também, vários restaurantes, parques, atrações estão indo a falência. Mas fora isso… sim, teremos alguns eclipses e outros fenômenos astrológicos interessantes, mas #viajedepois.

Mas o resto do mundo não quer deixar de aproveitar o dinheiro do turismo, mesmo com os riscos. A Disney, cautelosa na Europa, está com pressa nos Estados Unidos. Apresentou uma proposta ao governo da Flórida para uma abertura já em julho, mesmo com a nova doença ainda se alastrando por lá. A proposta inclui as medidas de praxe: diminuição drástica da quantidade de pessoas permitidas nos parques, máscaras para todos, tomada de temperatura, proibição de interagir com personagens, fechamento de alguns brinquedos. Pais, o que faria as crianças chorarem mais? Dizer que ainda não dá para ir pra Disney ou dizer vamos pra Disney, com metade dos brinquedos fechados e você não pode abraçar o Mickey?

— As crianças entenderam, querido. Agora, pare de chorar.

— Mas eu quero abraçar o Pateta, amor.

Por enquanto, essas serão as novas regras válidas para a retomada do turismo. E nem todo tipo de Turismo. No calhamaço de regras publicadas pela Organização Mundial de Turismo, está claro: Feiras, congressos e outras viagens profissionais e a trabalho deverão ser substituídas por encontros virtuais, videoconferências “e outras ferramentas disponibilizadas pela tecnologia”. Ou seja, você terá uma chance a menos de ver a Carminha do RH encher a cara. E os discursos serão os mesmos.

Enquanto o pessoal se ajeita por lá, por aqui só vemos más notícias. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o setor acumula perdas de R$ 62,5 bilhões em todo o País, desde o início da pandemia do novo coronavírus, em 11 de março.

A SITUAÇÃO – No meio disso tudo, o Brasil muda quem manda no setor. No final de maio o Presidente Jair Bolsonaro assinou a lei que transforma a Embratur de Instituto Brasileiro de Turismo em Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo. No novo formato, a instituição receber recursos privados para promover o turismo brasileiro no exterior. A assinatura presidencial sacramenta medida provisória de 2019, mas sem as boas notícias esperadas pelo setor. Foi vetado, por exemplo, o alívio no imposto de renda das companhias aéreas entre 2021 e 2024, o que as ajudaria a se recuperar após a pandemia.  Nada de refresco para quem está sem cliente nenhum. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) estima que a queda do número de passageiros de abril em relação ao mesmo mês de 2019 tenha sido de 97%.

Do ladro de dentro, existe um grande realismo. Não, ninguém vai pra Disney por enquanto se não puder abraçar o Mickey. O presidente do Grupo CVC (CVCB3),, Leonel Andrade, afirmou em entrevista para a Agência Estado que a retomada do setor só deve ocorrer no quarto trimestre do ano. E, mesmo assim, deve demorar dois ou três anos para o setor de turismo voltar aos níveis de 2019.

Em comunicado a seus funcionários, John Rodgerson, CEO da Azul Linhas Aéreas (AZUL4), avisou: vem aí cortes e planos de demissão e aposentadoria voluntárias, até que a empresa recupere seu volume de voos. Espera-se que, em dezembro, a empresa ofereça 50% das linhas oferecidas antes da pandemia.

Paulo Kakinoff, presidente da Gol (GOLL4), afirmou que acontecerão muitas fusões e aquisições no mundo das companhias aéreas, mas se mostrou otimista. Segundo entrevista ao jornal O Globo, ele afirmou que, se não houver uma segunda onda do vírus, as companhias aéreas voltarão ao padrão pré-pandemia no segundo trimestre de 2021. Ao mesmo tempo, mostra uma ampliação no uso do check-in por celular. Segundo Kakinoff, antes da pandemia 70% de seus passageiros usavam o serviço. Agora, são mais de 90%.

São tantas empresas empurradas de vez para o digital, que logo, logo aparecerão teorias de conspiração ligando o vírus a provedores de internet.

Adicione a tudo isso o fato do Brasil estar sendo um dos novos epicentros da pandemia, as ações da CVC Azul (AZUL4) e Gol (GOLL4) começaram a reagir no começo de junho graças àqueles 3%. Sim, as ações subiram. Às vezes, não existe muita razão no balcão.

Mas nenhuma empresa está em situação tão complexa quanto a Itapemirim. De um lado, enfrenta uma recuperação judicial que se arrasta desde 2016. Do outro, fala sobre seus planos de sua possível companhia aérea de baixo custo. No meio disso, briga com rumores e fake News sobre sua falência. O vírus não poderia ter vindo em pior hora para os ônibus amarelos.

Mudanças também na hotelaria. Hotéis estão fechando e demitindo a torto e a direito. O Belmond Copacabana Palace, por exemplo, fechou as portas para os hóspedes mas abriga um dos únicos negócios em expansão no momento: lives de artistas, que usam o famoso cenário para transmitir seus shows.

A crise não poupa o AirBnb. A empresa, queridinha de muitos analistas, demitirá 25% de sua força de trabalho e anunciou um fundo de 250 milhões de dólares para ajudar anfitriões em dificuldade. No Brasil, passa por um período de caça-liminar-concede-liminar a respeito da legalidade de suas operações em Gramado, RS.

DAQUI PARA FRENTE – O setor de turismo vai sofrer, certo? Não, ele está sofrendo. Daqui para frente, a tendência é que ele mude, e mude bastante. Por exemplo, até por falta de opção, a Embratur (a antiga) estima que parte dos recursos destinados à viagens no exterior serão usados em turismo doméstico. Será que finalmente o brasileiro vai descobrir o Brasil?

Lá fora, deverão acontecer mudanças, principalmente no modo como algumas companhias aéreas trabalham. Sabe aquele sujeito que aluga suas vagas de estacionamento para outros moradores? Na Europa, algumas empresas aéreas faziam exatamente isso.

Vamos dizer que o aeroporto de Albergaria-a-Velha, em Portugal, pode receber 50 voos por dia. A companhia Aérea A compra dez dessas vagas, chamadas de slots. A companhia Aérea B tem dois slots, mas quer abrir um novo voo. Como o aeroporto não tem mais vaga, a companhia B vai e compra um slot da A, que fatura alto com a transação.

Agora, a administração de Albergaria-a-Velha não quer saber se seu voo é lucrativo ou não, só quer que você decole e pouse no horário, sob pena de perder a vaga. O que fazia a empresa A, então? Botava no ar aviões vazios. O slot valia muito mais que os passageiros. Ênfase no passado. Valia. Com o novo coronavírus ninguém está voando, e as empresas aéreas que faziam essa malandragem incorrem em mais uma despesa.

E, com a diminuição dos voos, são afetadas também as empresas que fazem aviões. A divisão de turbinas da Rolls-Royce, por exemplo, já disse que diminuirá sua equipe em 17%.

E a Embraer (EMBR3)? Depois que o acordo com a Boing foi por água abaixo, a empresa enfrenta mais uma rodada da briga com a Bombardier na Organização Mundial do Comércio, teve encomendas de aviões adiadas (por exemplo, o pedido da Azul). No primeiro trimestre de 2020, entregou 14 aviões, em comparação com os 22 entregues no mesmo período do ano passado. Mesmo assim, o clima é de otimismo. Aqui, o vírus ajudou. Veja, os Estados Unidos têm um programa de apoio ã aviação regional, com aviões menores. A Mitisubishi, querendo esse mercado,  tinha contratado a Bombardier para desenvolver um avião médio, que concorresse com o E175-E2 da Embraer. Veio o vírus, acabou o dinheiro, o programa foi cancelado e a Embraer ficou sozinha no mercado, com seu E175-E2 que se aproxima bastante das exigências do programa norte-americano e tempo para fazer as adaptações. Por enquanto. Vem aí o ARJ21, da COMAC, que vai competir com o E175 da Embraer. Nunca ouviu falar da COMAC? Prazer, fabricante de aviões estatal da China.

O BARQUINHO VAI – Pode-se pensar, com razão, que ninguém tenha sido afetado tão negativamente como as empresas de cruzeiro. Navios são criadouros perfeitos para vírus, e ninguém quer arriscar. Ninguém?

“Não se deve desperdiçar uma crise… então, sim, definitivamente estamos de olho em qualquer oportunidade.” As palavras são de Yasir al-Rumayyan, responsável pelo Fundo Soberano da Arábia Saudita, que se está comprando ações de tudo o que vê pela frente. Disney. Facebook. E 7,3% da Carnival, a maior empresa de cruzeiros do mundo. Além disso, os sauditas investiram na Boing e na rede de hotéis Marriott.

Será que os xeiques sabem de algo que não sabemos? E os chineses, investindo em aviões?

Com a palavra, Frank Del Rio, CEO da empresa de cruzeiros Norwegian. Em conferência com analistas de Wall Street, ele afirmou que o abandono das formas tradicionais de turismo é balela. O nível de reserva de passagens para 2021, segundo ele, “está dentro da média histórica da empresa”, com duas diferenças: primeiro, uma porcentagem maior de pessoas que nunca viajaram em um navio e dois, preferência por locais distantes, como a Ásia. “Ou seja, as pessoas, principalmente norte-americanos, ainda estão dispostas a passar longas horas em um avião, viajar meio mundo, descer no Japão, embarcar no nosso navio e curtir terras exóticas. Já temos cruzeiros saindo do Japão e Dubai lotados.” Talvez o mundo do turismo não tenha mudado tanto assim

Gostou? Assista a Tay falando sobre esse assunto e não deixe de curtir a ADVFN nas redes sociais.

Confira o Trends do Turismo que dividimos em 3 partes no Youtube:

PARTE 1

 

PARTE 2

 

PARTE 3

 

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