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Por que o Brasil alterna períodos de crise e expansão?

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Schumpeter escreveu que o empreendedor não existe mais como um indivíduo, pessoa, em um mundo onde a empresa atingiu uma maturidade industrial (“the entrepreneur no longer exists as an individual person in the mature industrial enterprise”). Essa afirmação apresentou o pensamento de algumas décadas onde se acreditava que as empresas, sua qualidade de organização e a eficiência de gestão seriam as grandes responsáveis por indicar o caminho de desenvolvimento e inovação se sobrepondo ao talento individual.

Schumpeter não estava sozinho. Foi seguido por escritores como Peter Drucker, John Kenneth Galbraith e Andrew Shonfield sugerindo uma nova forma, na época, de modelar a estrutura e importância social das organizações. Sob certo aspecto, chegava ao mercado e à economia um movimento que se originava no ambiente politico, resultante de profundas mudanças estruturais e sociais originadas pós-primeira e segunda guerra mundial (uma profunda análise sobre a dinâmica dessa evolução e seus impactos sociais esta no excelente artigo escrito de Pierre Rosanvallon, “How to create a society of equals”).

Muito embora diversas ideias sugeridas naquela época encontrem ainda grande aplicabilidade na gestão de empresas, o fato é que o cerne do argumento se mostrou absolutamente falso. Primeiro, não foram as grandes corporações que produziram as grandes revoluções tecnológicas e de desenvolvimento social, e, além disso, e o que para mim é ainda mais interessante, é que tais grande corporações no tempo reduzem sua capacidade de gerar valor contínuo a seus acionistas.

Para isso, basta ver o numero de empresas e a velocidade com que saem do Fortune 500 no tempo, por exemplo, em 1960 levava-se 20 anos para substituir 1/3 das empresas listadas contra 4 anos em 1998.

“No Brasil, essa análise está viesada, dado o tamanho da instabilidade econômica e dos ciclos de expansão e recessão vividos desde a década de 80, sendo os anos recentes (de 2005 a 2014) um longo período de crescimento, resultando em tendência divergente da internacional, com menos empresas de grande porte quebrando do que nos períodos anteriores. Ainda assim, apresentou uma grande rotatividade, de 10 anos para substituir 1/3 das maiores empresas de capital aberto.”

Tais dados têm a incômoda tarefa de descontruir o mito de investimento em empresas “sólidas”, capazes de gerar grande valor em um tempo contínuo de longo prazo, e mostra como o surgimento e desaparecimento de empresas e sua capacidade de liderança é cíclico.

Assim, identificar empresas capazes de inovar e ser um ponto de ruptura para um novo paradigma mercadológico e social é a mais que óbvia solução para o desenvolvimento econômico de um país. Apesar desse raciocínio ser quase um clichê em países desenvolvidos, no Brasil ainda vivemos na década de 80.

Setores do governo brasileiro, principalmente órgãos reguladores e fiscalizadores, ainda pregam o mito “do investimento seguro em títulos públicos”, onde se lê por seguro o que significa livre de risco na literatura financeira.

Ao desconsiderar o conceito econômico básico que remete que a dívida do governo nada mais é que antecipação de impostos, esquecer o caráter peculiar dos bonds do governo brasileiro e se fixar em empresas “too big to fail” deixa-se evidenciar o assustador nível de atraso proporcionado pela visão dos reguladores brasileiros. Presos a um modelo da década de 80, ignoram dados concretos sobre inovação e sobre a dinâmica da economia, defendendo investimentos em títulos governamentais prioritariamente e aceitando “alternativas” como “investimentos em empresas sólidas”.

Ao invés de defender e pregar que somente uma economia e mercados dinâmicos e pulsantes podem tornar, em função de sua virilidade e opções, o processo de investimento mais seguro, nossas instituições fiscalizadoras, vivem uma batalha em defesa de investimentos supostamente livres de risco concentrando recursos em títulos do governo e em empresas sólidas, mas que, dentro da dinâmica brasileira representam oligopólios com grande concentração na economia local. É o regulador defendo a concentração e inibindo investimentos.

A operação Lava-Jato atingiu grupos empresarias que representam oligopólios em diversas áreas desde gás e petróleo, energia e construção. O impacto para investidores desses ativos foi significativo, bonds no exterior e valor de mercado das empresas despencaram, mesmo estando no “novo mercado“, segmento de listagem da BM&FBovespa, que supunha excelência em governança corporativa. Estima-se que o custo da operação Lava-Jato para essas empresas representou cerca de 2,5 % do PIB nacional. O mito das “grandes e sólidas empresas” se desfez.

Não há explicação fácil para essa abordagem regulatória nacional. O fato é que grande parte do quadro técnico fiscalizador brasileiro possui um caráter extremamente conservador, quase rentista, embora se fantasie com vestimentas modernistas, apoiando, mesmo que de maneira involuntária, o que o grande professor Delfim Neto em artigo ao jornal Folha de São Paulo de 03 de fevereiro de 2016 chamou de eutanásia do setor produtivo.

Sem inovação e criação de novos produtos e processos industriais, o país fica refém de seu lado agrícola, o que não é pejorativo, apenas limitador, e, portanto, do caráter cíclico inerente ao setor. Não por menos, o país apresenta classificação tão irrisória em termos de sua facilidade ou capacidade em fazer negócios.

Na métrica divulgada pelo Banco Mundial, conhecida pelo Doing Bussiness, o Brasil apresenta um índice pífio em áreas como inovação (84), Mercado de capitais (58) e educação (93), tendo uma colocação final de 120 em 140 países analisados. Seria pequeno e mesquinho atribuir tais índices somente ao desempenho do governo, afinal “Critiquer l’Etat, c’est ton droit; mais n’oublie pas que l’Etat, c’est toi!”

O que infiro é que a burocracia e dificuldade em desenvolver uma indústria inovadora e competitiva no Brasil não se restringem apenas a uma questão de leis e processos legais, mas também a um viés cultural rentista e patrimonialista que se impregnou nas áreas técnicas e fiscalizadoras do país, e que ajudam a justificar o percentual irrisório de investimento em ações e a ausência de um mercado secundário de títulos privados no pais. Uma mistura de liberalismo amesquinhado e desídia regulatória.

Sem uma mudança cultural na área de investimentos e fiscalização, o Brasil será sempre um país cíclico e ineficiente.

Arthur Mario Pinheiro Machado é o autor do Apertis Verbis. Foi sócio da Ágora Corretora e responsável pela criação da primeira área de Electronic Trading do Brasil. É hoje um dos principais executivos da ATG (Americas Trading Group), que patrocina o blog Arena do Pavini. Faz parte do Conselho de Administração de diversas instituições.

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