Apesar do silêncio das panelas

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Do lado político, faltam credibilidade e legitimidade e sobram denúncias. Do lado econômico, o governo interino se mostra incapaz de estabelecer medidas que tirem o país do buraco. A falta de confiança do brasileiro fica evidente com uma aprovação de apenas 11,3%. A guinada econômica prometida vai se materializando como apenas uma promessa vã. O provável é que o quadro atual permaneça. A exceção, o ministro Henrique Meirelles, tenta demonstrar que tem forças para mudar o cenário, que só se agrava. Enquanto isso, Dilma comemora não ser mais a raiz de todos os males e defende o plebiscito, talvez como uma admissão de que não poderia governar com esse parlamento.

A democracia brasileira é de uma fragilidade tal que lembra a lei da renda da terra: a cada decisão, pisa-se em um terreno pior, mais desconhecido, com custos maiores que os do espaço anterior. É fato que o governo Dilma deixou um legado complicado, marcado pelo elevado endividamento, algo impossível de ser desfeito em poucas semanas de governo. O maior impacto negativo, entretanto, nada tem a ver com o endividamento. Vem das denúncias contra membros do governo e representantes do PMDB, que fragilizam a legitimidade questionável de Temer. Indicadores de confiança melhoram aqui e acolá, o que se deve, provavelmente, mais ao silenciar das panelas que aos indicadores econômicos e, principalmente, políticos. Ambos só pioraram.

Quando se fala em investimento externo e em classificação do risco-país de um emergente, o aspecto principal a ser analisado é a questão política que, no nosso caso, consegue ser pior até do que a econômica. Tal risco provoca grandes impactos nas operações de entrada e saída, no macrofluxo de capitais. As mudanças podem ocorrer devido a fatores internos (alternância de partidos); choques externos diretos ou o efeito-dominó, decorrente de crises sofridas por outros países emergentes. Há algumas entradas, mas de capital especulativo que só pensa na volatilidade. Pode sair em massa, o que arruinaria ainda mais a economia. Investimentos de médio e longo prazo demandam estabilidade política.

O governo interino prometeu transparência e se mostra mais obscuro que seu antecessor. Mesmo no auge dos ataques, a gestão Dilma conseguia defender seus ministros. O atual não pôde mantê-los nos cargos. Essa é a linha de frente, a primeira coisa que surgiria às vistas de um investidor externo. Caso ele não vire a página em busca de outro território para multiplicar seus ativos e faça uma busca mais atenta sobre o que ocorre nestas terras, os parágrafos seguintes evidenciariam que a maioria dos governos estaduais pedalaram mais que a petista no Executivo Federal. Já suspeitando da seriedade dos políticos brasileiros, ele se surpreenderia com a falta de interesse em se julgar tais gestões, o que poderia levá-lo a considerar o impeachment em curso como algo esquisito. Se mesmo assim, talvez apenas por curiosidade, mantenha-se em sua pesquisa, verá que o Congresso é dominado por um evangélico que, mesmo se for cassado, continuará com o controle de quase metade da Câmara dos Deputados. E se esse espírito aventureiro finalmente pensar na macroeconomia local e considerar os juros atrativos, a inflação, por fim, deve demovê-lo de uma vez por todas.

Para os estrangeiros, não é nada agradável o fato de a Operação Lava Jato mandar prender pessoas da cúpula do partido do presidente, o PMDB, como o senador Romero Jucá (RR), que foi ministro do Planejamento e faz parte o núcleo mais próximo a Temer. Soaria estranho também parar com tais investigações. Do lado positivo, há a credibilidade de Meirelles, que como o ex-ministro Joaquim Levy, tenta conter os gastos e reverter o déficit. Mesmo com um Congresso dócil como não se via há anos, é algo difícil de se conseguir, principalmente com a arrecadação em queda. A saída de usar Meirelles surte algum efeito, mas com as manchas do governo e a possibilidade de uma outra saída com a chamada de um plebiscito para novas eleições, a instabilidade política permanecerá.

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