A culpa é do feijão

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A decisão de manter a Selic em 14,25%, maior patamar dos últimos dez anos e a mais alta do mundo, tem como justificativa o controle da inflação, que se mantém acima do esperado no curto prazo. Conforme o comunicado do Copom, isso se deve em boa medida aos preços dos alimentos e pode persistir. Há ainda incertezas quanto à aprovação e implementação dos ajustes necessários à economia e se espera um período prolongado de alta de preços, com inflação acima da meta, o que pode reforçar mecanismos inerciais e retardar o processo de desinflação. A questão imposta é que aumento de preços causa novos aumentos de preços e o BC precisa retardar este movimento freando ainda mais a economia.
Quanto ao primeiro item destacado pelo BC, o grande vilão é o preço do feijão carioca, que ficou 58% mais caro e contaminou o IPCA 15, considerado uma prévia da inflação. O indicador acelerou em julho e ficou em 0,54%. Desta forma, a prévia da inflação acumula 5,19% no ano e 8,93% em 12 meses, bem acima do teto da meta (6,5%). É claro que a política de juros altos não inibe o preço do feijão ou de qualquer outro item essencial para a alimentação dos brasileiros, como o leite, que registrou aumento de 15,54% e o arroz (+ 3,36%). Quanto a isso, a menos que inclua receitas de lentilha nas atas de suas reuniões, o BC nada pode fazer.
A economia segue com alto nível de ociosidade, como indica o próprio Copom. O desemprego atingiu 11,2% no trimestre de março a maio, com 11,4 milhões de pessoas desempregadas. O índice da Confederação Nacional da Indústria (CNI) que mede a insegurança quanto a estar empregado chegou a 108,5 pontos em junho, maior nível desde maio de 1999, ano da desvalorização do real.
Mas, se o consumo vai mal, qual o verdadeiro sentido de manter a Selic nesse patamar? A segunda afirmação do colegiado dá uma dica: “incertezas quanto à aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia”. Não está totalmente certo, por exemplo, que a equipe econômica, incluindo o próprio colegiado do BC, se manterá. As medidas, como quem as propõe, são, por ora, interinas. Assim, qualquer decisão, como derrubar ou subir a taxa de juros, deve esperar.
Ainda no quadro de incertezas, está a tentativa de controle das contas públicas, chamada de “ajustes necessários” que, até o momento, é discurso. A equipe interina da Fazenda fala o que o mercado e os empresários querem ouvir, mas as medidas mesmo ficam no plano das expectativas. Até o FMI endossou o discurso. Anunciou que, na sua avaliação, a economia brasileira atinge o pior momento neste ano e deve reverter o quadro em 2017. Há, porém a ressalva de que a estratégia de redução gradual do déficit terá de se concentrar em superar os desafios para a sua implementação.
Segundo o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas do terceiro bimestre, divulgado nesta sexta pelo Ministério do Planejamento, o governo vai usar R$ 16,5 bilhões de uma reserva disponível no Orçamento para evitar um novo contingenciamento (bloqueio de verbas). Neste ano, deverá ocorrer uma queda de R$ 10,771 bilhões na receita bruta do governo federal, 9 desses bilhões relacionados à queda de arrecadação por conta da crise. A receita para o final do ano está projetada em R$ 1,176 trilhão.
Ainda há a incerteza quanto ao retorno da Dilma, mas se e quando a presidente for afastada, a pergunta é se o otimismo irá se manter. Muitos questionamentos retardam as decisões do empresariado, consumidores e investidores. Se Dilma volta, haverá mudança de rumo na política econômica? Como seria seu novo governo? Se a equipe atual fica conseguirá forças para sair do discurso para a realidade? Nem o Copom arrisca tal palpite. Diante da necessidade de equilíbrio fiscal, o aumento de impostos, outra medida contracionista, não está descartado. Tal decisão seria um balde de água fria no empresariado.
A manutenção da Selic frente à necessidade de ajuste fiscal também explicita algumas incongruências. Enquanto o Brasil precisa demonstrar aos investidores que busca o superávit primário e tem capacidade para honrar compromissos, paga uma elevada taxa de juros que, por si só leva ao incremento da dívida e aumenta o risco de calote futuro. Por outro lado, a taxa de juros elevada é mais um fator que leva ao retardamento da recuperação econômica e, por consequência, a menor arrecadação, piorando as contas do governo. A armadilha fiscal cumpre seu papel e força os juros altos. Diante disso tudo, melhor culpar o feijão.

Comentários

  1. ivan vieira dos santos diz:

    ESSA COISA DE FALAR QUE A SELIC É ALTA PARA BAIXAR A INFLAÇÃO E BAIXAR OS JUROS DO MERCADO É QUERER CHAMAR TODOS NÓS DE IMBECIS.

    SELIC ALTA SIGNIFICA SIM, DAR MAIS DINHEIRO AOS BANQUEIRO, POIS OS BANCOS CAPTAM A 0,5 % E EMPRESTAM AO GOVERNO A MAIS DE 1,0 % AO MÊS.

    ISTO É QUE GERA DEFICIT. PAGA-SE MAIS DE R$ 400 BI POR ANO PARA ROLAR A DÍVIDA PÚBLICA. OS JUROS DO BB ETC, PODEM OBSERVAR, NÃO BAIXAM, COMO TAMBÉM A INFLAÇAO NO SUPERMERCADO NÃO BAIXA . SÓ “INFLAÇÃO DO IBGE” BAIXA. PAREM DE CHAMAR-NOS DE IMBECIS !!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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