Pré-Market: O Brasil não é uma ilha

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A guerra comercial ativada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda será manchete pelos próximos dias, diante do possível aumento nas restrições ao comércio global. O posicionamento mais protecionista da Casa Branca eleva as incertezas de que tal retórica se alastre a outros setores, impactando no crescimento econômico mundial – o que inclui o Brasil, que não é uma ilha.

Portanto, não deve ser a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre o habeas corpus preventivo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que deve engatar um novo rali dos negócios locais. O pedido da defesa será julgado hoje, a partir das 13h, e a tendência é de que seja negado, mantendo o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) e abrindo espaço para a prisão do ex-presidente.

Só que os mercados domésticos praticamente já descartaram a presença do líder petista na corrida presidencial deste ano. Por isso, o decorrer do processo tende a ser apenas protocolar. Os investidores estão mais interessados em saber quem será o candidato do mercado, capaz de emplacar uma campanha com viés reformista e, depois, sair vitorioso no pleito de outubro.

Nos bastidores, seguem intensas as articulações sobre o nome para ser o candidato do governo à Presidência da República. O presidente Michel Temer estaria inclinado a emplacar o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ao posto, a contragosto do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Ontem, o DEM lançou seu menino prodígio como pré-candidato, mas a confirmação da candidatura ainda depende de apoio partidário.

Mas o presidente deveria estar mais preocupado é com a inclusão do nome dele no inquérito que investiga seus fiéis escudeiros, os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência), sobre recebimento de propina da Odebrecht. Ontem, o ministro do STF Luís Roberto Barroso determinou a quebra de sigilo bancário de Temer, na investigação de crimes envolvendo o setor portuário.

O presidente afirmou que “dará total acesso” aos extratos bancários referentes ao período solicitado, demonstrando não ter nenhuma preocupação sobre pagamento de propina na edição do decreto de portos. Só que com essa decisão, Temer e seu eventual candidato ficam mais vulneráveis aos movimentos das forças políticas que irão decidir a sucessão presidencial no país.

Como se já não bastasse o conturbado cenário político no Brasil às vésperas das eleições, o ambiente no exterior tampouco é favorável. Por mais que o sinal positivo prevaleça entre as bolsas europeias e os índices futuros das bolsas de Nova York nesta manhã, deve pesar a decisão da União Europeia (UE) decidiu subir o tom em relação às ameaças protecionistas de Trump.

O bloco europeu estuda retaliações, impondo tarifas de importação em diversos produtos norte-americanos, que vão de camisetas a motocicletas, passando por uísque e suco de laranja, entre outros. As medidas analisadas pela UE visam quebrar a estratégia de negociação de Washington, de melhorar os acordos comerciais dos EUA com o restante do mundo. O valor total das importações sujeitas a tarifas é de 2,8 bilhões de euros.

Por ora, os mercados internacionais continuam apostando que Trump está blefando e que uma guerra comercial não tem apoio entre os republicanos nem entre os conselheiros econômicos da Casa Branca. Tanto que a suavização das preocupações abre espaço para uma retomada do apetite por ativos de risco, o que garantiu uma sessão de ganhos também na Ásia e embala também as moedas emergentes e as commodities industriais.

Na agenda econômica do dia, o destaque doméstica fica com os números da produção industrial no primeiro mês deste ano. A expectativa é de que a atividade no setor tenha interrompido quatro meses consecutivos de alta em janeiro e recuado 2% na comparação com dezembro. Já em relação a um ano antes, a indústria deve ter crescido pelo nono mês seguido, em +6%.

O resultado efetivo será conhecido às 9h. Após a surpresa com o desempenho fraco do Produto Interno Bruto (PIB) ao final do ano passado, que deixou a impressão de que a economia brasileira está crescendo menos que o esperado no início deste ano, o cenário de recuperação econômica ainda moderada combinado com o de inflação baixa eleva as chances de mais um corte na taxa básica de juros neste mês.

Na sexta-feira, quando sai o índice oficial de preços ao consumidor (IPCA), essas apostas podem ser consolidadas, com a Selic podendo renovar o piso histórico pela terceira vez seguida, a 6,5%. Ainda na agenda econômica do dia, às 8h, sai a inflação para as famílias de baixa renda (IPC-C1). Também merece atenção o desempenho da indústria automotiva em fevereiro (11h20).

No exterior, o calendário norte-americano está fraco e traz apenas as encomendas às fábricas em janeiro (12h), ao passo que a agenda europeia está esvaziada.

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