Próximo presidente pode ser eleito com baixa representatividade

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Sem o ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva na campanha, a tendência é de grande pulverização dos votos em diversas candidatura no primeiro turno, o que pode resultar em candidato passando para o segundo turno com apenas 20% dos votos, afirma Renato Meirelles, pesquisador da Locomotiva Pesquisa e Estratégia.

Ou seja, haveria uma disputa entre dois candidatos com apoio de apenas 40% da população. “Isso quer dizer que o próximo presidente eleito pode ter a desconfiança de mais de dois terços dos eleitores”, afirma Meirelles, que participou do seminário Itau Macro Vision 2018. Esse perfil poderia implicar em baixo apoio popular ao governo e dificuldades futuras com o Congresso.

Uma saída para compensar essa falta de representatividade seria fazer como os deputados federais, que radicalizam certos temas para envolver maior parte da população.

Para Meirelles, as chances de um candidato de fora da política tradicional vencer passa pela própria incerteza da população sobre o que é melhor para o país. “Na última pesquisa que fizemos sobre quem o eleitor acha que poderia tirar o Brasil da crise, 84% disseram que não sabiam, e os 16% que sabiam disseram que essa pessoa era o Papa Francisco, numa indicação que só Deus pode arrumar o país”, diz.

Segundo o analista político, o único nome com chances seria do apresentador Luciano Huck, pelo “discurso de empoderamento das pessoas que ele traz”. Sem ele na disputa, haveria o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, pela imagem de combate à corrupção no caso do Mensalão, a origem humilde. “Mas o único inimigo dele seria o mesmo que o de Ciro Gomes (PDT), a propria boca”, acrescenta. “Não se deve subestimar a capacidade desses candidatos de se autossabotar”, diz.

O analista acredita que o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem boas chances de surpreender na eleição. Ele poderia chegar a 20% dos votos, graças ao tempo de televisão maior do partido, o MDB, e se ele acertar o discurso para atingir a população. “Ele tem de achar o discurso de especialista, falar que quando os políticos não sabem o que fazer para consertar o país, chamam o Meirelles”, diz.

Outra vantagem de Meirelles e que ele trabalhou tanto nos governos de esquerda, como presidente do Banco Central de Lula, quanto nos de direita, como ministro da Fazenda de Temer, o que reduziria sua rejeição em ambos os extremos políticos. “Isso permite furar as ‘bolhas’ dos grupos políticos e chegar aos 15%, 20%”, acredita Meirelles.

Ja Manoel Fernandes, sócio da Bites Consultoria, que faz levantamentos na internet sobre tendências políticas, observa que Henrique Meirelles não deve ter tempo para construir essa narrativa e nem mesmo de aproveitar os frutos da melhora da economia. “A percepção de desemprego continua alta, as buscas no Google sobre seguro desemprego crescem, assim como as consultas ao Ministério do Trabalho sobre emprego, e não há ligação do nome de Meirelles com a melhora da economia”, explica.

Fernandes destaca que os candidatos de centro não estão utilizando as mídias sociais para suas campanhas, o que é um grande erro. “Os grupos mais organizados na internet são os de Jair Bolsonaro, mais de simpatizantes, e os de Lula, mais organizados, mas o centro está totalmente desguarnecido”, afirma. Ele lembra que o governador Geraldo Alckmin costuma dizer que eleições são ganhas com três “S”, saliva, suor e sapato. “Mas ele deveria juntar mais um “S”, de mídia social, mas não sei se vai ter tempo de montar essa estrutura, e uma estrutura errada pode levar para o caminho errado”, diz.

Renato Meirelles lembra do caso do prefeito João Doria, eleito com grande vantagem utilizando as mídias sociais. “As mídias sociais criam ondas, bolhas, que crescem e depois somem, até porque criam ondas contrárias”, afirma. Hoje, Doria já não tem mais a mesma popularidade. “Ele teve logo depois de assumir, mas depois foi perdendo e virando um político tradicional”, diz Manoel Fernandes.

Renato Meirelles diz também que há uma dificuldade dos empresários atraírem os votos da população. “O empresário para a população e o patrão, quem cobra horário, demite, tira a mais-valia, e não é quem vai fazer as coisas funcionarem, que é o que a população quer”, afirma.

“Não adianta enxergar o Brasil a partir de uma planilha de Excel e pensar que as pessoas vão aceitar sacrifícios por essa imagem de pais”, diz. “O discurso não pode ser a meritocracia pela meritocracia, mas pela igualdade de oportunidades entre as pessoas, do fim dos privilégios, mas nosso liberalismo desconsidera a realidade social que o Brasil vive”, diz.

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